O Notebook Usado Trazia Minha Foto e Um Segredo Assustador Demais-criss

Meu notebook morreu no meio de uma terça-feira comum, dessas que não avisam antes de virar problema.

A tela piscou enquanto eu tentava salvar um arquivo, o cooler fez um ruído seco, e tudo apagou.

Por alguns segundos, fiquei encarando meu reflexo no vidro preto.

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O apartamento estava quente, o café tinha esfriado, e o silêncio depois daquele clique parecia grande demais para a sala.

Aquele notebook não era só uma máquina.

Era onde eu trabalhava, estudava, fazia meus projetos da pós-graduação, guardava rascunhos, planilhas, senhas anotadas do jeito errado e partes inteiras de uma vida que eu vivia prometendo organizar depois.

Durante o dia, eu trabalhava.

À noite, estudava.

Entre uma coisa e outra, comia qualquer coisa, respondia mensagens atrasadas e fingia que dormir pouco era disciplina, não exaustão.

Quando ele apagou, tentei todos os rituais da pessoa desesperada.

Tirei da tomada.

Apertei o botão por dez segundos.

Troquei de tomada.

Assoprei uma entrada que eu nem sabia se precisava de ar.

Prometi mentalmente ser uma pessoa melhor se a tela acendesse só mais uma vez.

Não acendeu.

Levei a duas assistências técnicas.

Na primeira, o rapaz abriu a carcaça, testou peças, trocou carregador e fez aquela cara de quem já sabe a resposta antes de dizer.

— Dá para arrumar, mas não compensa.

Na segunda, ouvi quase a mesma coisa, só com um orçamento mais assustador.

O conserto custaria quase o preço de outro aparelho.

Saí de lá com o notebook morto debaixo do braço e a sensação ridícula de carregar um bicho de estimação que ninguém conseguiu salvar.

Meu salário ainda não tinha caído.

Minha conta bancária estava no limite.

Fiz conta de aluguel, internet, mercado, transporte, mensalidade da pós, parcela antiga e parcela nova.

Quando terminei, percebi que comprar um notebook novo estava fora da realidade.

Então fui para a realidade possível.

Um usado.

Não precisava ser bonito.

Não precisava ser moderno.

Só precisava ligar, não travar e aguentar meus projetos sem me abandonar no meio da noite.

Passei quatro dias vasculhando uma plataforma de vendas.

Vi anúncio com foto borrada, vendedor agressivo, aparelho sem carregador e descrição tão vaga que parecia pedido de confiança, não venda.

No quarto dia, encontrei um modelo cinza.

Era simples, discreto e parecia bem conservado.

O preço ainda doía, mas cabia no limite da minha vergonha financeira.

Mandei mensagem.

O vendedor respondeu rápido.

Educado.

Detalhado.

Mandou mais fotos quando pedi e não pareceu incomodado com minhas perguntas.

Aquilo me tranquilizou, mas não me deixou rica.

Então respirei fundo e mandei a proposta mais descarada da minha vida.

— Você faria por R$ 1.500?

Era quase metade do valor anunciado.

Eu já imaginei a resposta seca, o bloqueio e talvez meu print circulando com a legenda: “olha essa pessoa”.

A resposta chegou em segundos.

— Faço. E ainda pago o frete.

Fiquei olhando para a tela como se tivesse lido errado.

Por um momento, senti uma gratidão tão absurda que perdi a compostura.

O perfil tinha um avatar padrão de robô, e eu comecei a mandar bênçãos para aquele robozinho como se ele fosse santo de capinha digital.

— Que você fique rico.

— Que tudo dê certo na sua vida.

— Que você seja promovido.

— Que ganhe na loteria, tenha oito filhos e consiga se declarar para a pessoa que ama.

Ele ignorou quase tudo.

Na última mensagem, respondeu apenas:

— Recebo todas essas bênçãos.

Eu ri sozinha.

Na hora, a frase pareceu engraçada.

Depois, ficou estranha.

Fiz o pagamento pela plataforma, salvei o comprovante, preenchi meu endereço e tirei print de tudo, porque gente que já passou aperto aprende a documentar até milagre.

Pouco depois, ele escreveu:

— A gente mora na mesma cidade. Você conseguiria buscar?

Respondi que sim.

Curitiba não é pequena, mas eu atravessaria boa parte dela por um notebook funcionando.

Minutos depois, ele mudou de ideia.

— Desculpa, fui chamado para uma viagem de trabalho amanhã. Não vou conseguir entregar pessoalmente.

— Posso buscar onde você mora. Qual é o endereço?

A conversa ficou parada por tempo demais.

Então veio uma resposta curta.

— É longe. Amanhã peço para alguém da minha família entregar ao motorista do aplicativo. Ele leva até você.

A frase era educada, mas havia algo travado dentro dela.

Ele não queria dizer onde morava.

Eu percebi.

Mas necessidade faz a intuição parecer exagero.

No dia seguinte, voltei mais cedo para casa porque não tive aula da pós.

O prédio cheirava a produto de limpeza no térreo, e o porteiro levantou a cabeça assim que me viu.

— Chegou uma caixa para você.

Meu peito aliviou.

Assinei o recebimento, peguei o pacote e subi quase correndo.

No elevador, conferi a etiqueta.

Meu nome.

Meu endereço.

O registro da entrega.

Tudo parecia comum demais para ser o começo de algo errado.

Entrei no apartamento, larguei a bolsa no sofá e sentei no chão da sala.

A fita adesiva resistiu um pouco.

Cortei com a tesoura pequena que eu usava para abrir boleto e embrulho de mercado.

O plástico bolha estalou sob meus dedos, e havia aquele cheiro leve de papelão novo e eletrônico que dá esperança até em quem não queria admitir.

Puxei a proteção.

E parei.

O notebook era rosé.

Não cinza.

Rosé.

Delicado, caro e novo demais.

Por um segundo, achei que a luz da sala estivesse enganando meus olhos.

Peguei o aparelho com cuidado, virei a tampa, olhei as laterais, o teclado, a tela.

A garganta secou.

Eu conhecia aquele modelo.

Depois de quatro dias comparando preço e especificação, eu reconheceria aquela linha em qualquer lugar.

Era muito mais recente.

Muito mais caro.

Quase dez vezes o valor que eu tinha pago.

O primeiro pensamento foi bobo.

Talvez alguém tivesse cometido um erro maravilhoso.

O segundo foi prático.

Talvez fosse produto roubado.

O terceiro veio devagar e gelou minha barriga.

Talvez aquele notebook não tivesse ido parar comigo por acaso.

Girei o aparelho procurando defeitos.

Um risco.

Uma tecla quebrada.

Qualquer coisa que dissesse que aquilo ainda podia fazer sentido.

Sem querer, meu dedo encostou no botão de ligar.

A tela acendeu imediatamente.

E mostrou um rosto.

O meu.

Eu fiquei imóvel.

Não era uma foto qualquer.

Eu estava debaixo das cerejeiras da Praça do Japão, em Curitiba, segurando um sorvete e sorrindo para alguém que segurava a câmera.

Minha mão aparecia levantada, num aceno meio bobo.

A covinha da bochecha direita estava ali.

Reconheci a roupa na mesma hora.

Ensino médio.

Aquela imagem era antiga demais para estar ali.

Eu não tinha aquela foto salva no celular atual.

Não lembrava de tê-la postado recentemente.

Era uma versão minha que ainda não conhecia boleto atrasado, reunião com cliente e madrugada estudando com dor nas costas.

A menina da foto parecia descansada.

Eu não.

O apartamento ficou pequeno.

A luz da tela iluminava meu rosto de baixo para cima, e senti como se alguém tivesse entrado na minha casa sem abrir a porta.

Por que um desconhecido teria uma foto minha como papel de parede?

Primeiro veio o medo.

Depois, por puro instinto de sobrevivência, inventei uma explicação menos horrível.

Dias antes, eu tinha reclamado nas redes sociais que meu computador tinha quebrado no meio de um projeto.

Talvez algum amigo tivesse visto.

Talvez alguém tivesse juntado dinheiro.

Talvez o vendedor fosse só parte de uma surpresa.

Eu quis acreditar nisso.

Quis tanto que digitei minha data de aniversário no campo da senha.

O sistema desbloqueou.

Aquele clique suave pareceu alto demais.

A área de trabalho também tinha uma fotografia minha.

Outra imagem antiga.

Abri as pastas com cuidado, como se pudesse tocar em algo vivo.

Não havia quase nada.

Sem documentos pessoais.

Sem histórico de navegação.

Sem programas de trabalho.

Sem downloads.

Sem arquivos de faculdade.

O notebook parecia preparado.

Não usado.

Preparado.

Foi aí que a primeira frase se formou dentro de mim.

Parecia um presente.

Ou uma vitrine.

Peguei o celular para perguntar ao vendedor quem estava por trás daquilo.

Eu queria uma explicação simples o bastante para conseguir rir depois.

Mas, quando abri a conversa, já havia várias mensagens esperando.

— Amiga, me desculpa. Eu enviei a caixa errada. Esse é o notebook novo que meu irmão comprou.

Li uma vez.

Não entendi.

Li de novo.

A segunda mensagem parecia pior.

— Não era o aparelho que eu estava vendendo para você. Meu Deus, ele vai acabar comigo quando descobrir.

A terceira vinha colada.

— Por favor, responde quando vir minhas mensagens.

A quarta tentava explicar.

— Eu estava morrendo de sono quando fui separar as caixas e peguei a errada.

Olhei para a caixa aberta.

Olhei para a tela.

Olhei para o celular.

Tudo ainda podia ser um erro estranho.

Um erro caro.

Um erro assustador, mas erro.

Então veio a mensagem que derrubou essa defesa.

— Você viu a moça bonita na tela? É minha cunhada. Meu irmão é completamente apaixonado por ela.

O mundo pareceu inclinar.

Aquela “cunhada” era eu.

O único problema era que eu não tinha namorado.

Eu nunca tinha conhecido o irmão daquela pessoa.

Pelo menos não conscientemente.

Minha mão começou a tremer.

Voltei para a foto.

A menina sorrindo sob as cerejeiras não sabia que, anos depois, alguém iria colocá-la na tela de um notebook novo e chamá-la de futura esposa dentro de uma família da qual ela nunca fez parte.

A mensagem seguinte chegou como se ainda tentasse vender aquilo como amor.

— Ele quase entra em depressão quando passa muito tempo sem ver uma foto dela.

Não havia nada romântico naquela frase.

Havia posse.

Havia costume.

Havia uma intimidade inventada com tanta convicção que me deu náusea.

Eu não respondi.

Tirei print.

De tudo.

Da conversa.

Do anúncio.

Do comprovante.

Da etiqueta de entrega.

Da tela do notebook com minha foto.

Tirei foto até do número da caixa, porque cada detalhe parecia uma corda me prendendo à realidade.

A vendedora continuou escrevendo.

— Pelo amor puro e verdadeiro, você pode devolver o notebook?

Puro.

Verdadeiro.

Aquelas palavras pareciam sujas dentro daquela conversa.

Apoiei o celular no joelho e respirei como se tivesse acabado de correr.

Uma parte de mim queria fechar o notebook, devolver a caixa e fingir que nada tinha acontecido.

Outra queria perguntar quem era ele.

A mais sensata sabia que eu não devia mostrar curiosidade para gente que já tinha uma história pronta sobre mim sem minha autorização.

Então digitei só:

— Quem é ele?

As bolinhas de digitação apareceram.

Sumiram.

Apareceram de novo.

— Melhor você não falar com ele.

Não era resposta.

Era aviso.

Perguntei como assim.

Ela mandou um áudio.

A primeira coisa que ouvi foi a respiração dela, curta e falhada.

Depois, um som seco ao fundo.

Talvez porta.

Talvez móvel.

— Por favor, não fala com ele direto — ela disse, baixo. — Ele não sabe que eu vendi o notebook antigo. E, se ele descobrir que essa caixa foi parar com você…

Ela parou.

Quando voltou, a voz tinha quebrado.

— Ele guardou essa foto faz anos. Ele chama você de futura esposa desde antes de você saber quem ele é.

Senti o estômago despencar.

Não era surpresa.

Não era engano inocente.

Era uma história construída ao meu redor enquanto eu continuava vivendo a minha.

Perguntei de onde ele tinha a foto.

A resposta demorou.

— Ele estudou na mesma escola que você por um tempo. Acho que vocês nunca conversaram. Ele viu essa foto em um perfil antigo.

Aquilo me atingiu de um jeito específico.

Não porque eu lembrasse dele.

Mas porque eu não lembrava.

Ser personagem principal na cabeça de alguém que, para mim, nem tinha rosto, era mais assustador do que uma ameaça gritada.

A ameaça gritada ao menos se apresenta.

A obsessão quieta se muda para dentro da sua rotina sem pedir licença.

Meu celular vibrou.

Dessa vez, não era a vendedora.

Era uma solicitação de mensagem de um perfil sem foto.

A prévia dizia:

— Você finalmente recebeu meu presente, não recebeu?

O ar saiu dos meus pulmões.

Eu não abri.

Só tirei print.

Depois desliguei o Wi-Fi do notebook, fechei a tampa e empurrei o aparelho para longe com o pé, como se ele pudesse ouvir.

A vendedora escreveu:

— Não responde ele.

Depois:

— Por favor, só me ajuda a pegar a caixa de volta.

Eu quase ri, mas de incredulidade.

Ela queria ajuda.

Queria que eu resolvesse o erro dela.

Queria proteger o irmão do constrangimento de ter sua fantasia descoberta, enquanto eu estava no chão da sala tentando entender quantos anos da minha imagem tinham sido guardados por alguém que eu nem conhecia.

Digitei devagar.

— Eu não vou conversar com ele. E não vou devolver nada sem registro pela plataforma.

Ela visualizou.

Eu continuei:

— Você vai abrir o cancelamento por lá. Vai constar que enviou o produto errado. A retirada vai ser na portaria do meu prédio. Eu não encontro seu irmão. Eu não passo meu telefone. Eu não aceito motorista sem identificação no sistema.

Só depois percebi como minha mão tremia.

A resposta veio pequena.

— Tá bom.

Mas o perfil sem foto voltou a aparecer.

Outra mensagem.

Eu não abri.

A prévia bastou.

— Você sempre foi assim. Difícil.

Sempre.

A palavra ficou martelando.

Não era paixão.

Não era destino.

Era alguém que acompanhava uma versão minha havia tempo suficiente para se sentir rejeitado por uma pessoa que nunca o convidou para chegar perto.

Naquela noite, eu não dormi.

Deixei o notebook fechado dentro da caixa, no canto oposto da sala.

A cada barulho no corredor, prendia a respiração.

A cada elevador parando no andar, olhava para a porta.

Meu apartamento, que sempre tinha sido pequeno e seguro, parecia cheio de frestas.

No dia seguinte, fiz tudo pelo sistema da plataforma.

Escrevi de forma objetiva.

Produto recebido diferente do anunciado.

Aparelho contém imagens pessoais não autorizadas.

Solicitação de devolução registrada.

Anexei fotos.

Anexei prints.

Não escrevi “medo”.

Não escrevi “obsessão”.

Mas cada arquivo carregava essas palavras.

A vendedora aceitou o processo rapidamente.

Talvez por culpa.

Talvez por medo.

Talvez porque, pela primeira vez, a história que a família dela chamava de paixão tinha deixado rastro fora de casa.

No horário marcado, desci com a caixa até a portaria.

Não fui sozinha.

Pedi ao porteiro que acompanhasse a retirada e deixei o celular gravando áudio no bolso, não por drama, mas porque eu precisava de uma linha de segurança entre mim e aquela loucura.

O motorista chegou com o nome confirmado pelo aplicativo.

Não era ele.

Não era o irmão.

Mesmo assim, meu corpo só relaxou quando o elevador subiu de volta comigo sem ninguém entrar junto.

A caixa foi embora.

O dinheiro voltou dias depois.

Continuei sem notebook por mais um tempo.

Usei computador emprestado.

Atrasei projeto.

Pedi prazo.

Chorei no banheiro uma vez, baixinho, mais por raiva do que por tristeza.

Mas o mais estranho era que eu não conseguia parar de pensar na menina da foto.

Aquela garota da Praça do Japão não tinha feito nada além de sorrir com um sorvete na mão.

Ela não tinha prometido futuro para ninguém.

Não tinha aceitado namoro.

Não tinha virado sinal secreto.

Ela só existia.

E, ainda assim, alguém olhou para aquela existência e decidiu transformar em posse.

Dias depois, entrei nas minhas redes antigas.

Apaguei fotos públicas.

Fechei perfis esquecidos.

Mudei senhas.

Não fiz isso porque a culpa era minha.

A culpa não era.

Fiz porque às vezes a gente precisa recolher pedaços da própria imagem espalhados pelo mundo, mesmo sabendo que nunca deveria ter sido obrigada a isso.

A vendedora mandou uma última mensagem.

— Desculpa. Eu achei que era só uma paixão estranha.

Li várias vezes.

Depois respondi:

— Para você era estranho. Para mim, era assustador.

Ela visualizou.

Nunca mais falou comigo.

O perfil sem foto tentou mandar mensagem outras vezes.

Eu não abri.

Bloqueei.

Denunciei.

Guardei os prints em uma pasta com nome simples, porque eu não queria transformar aquele episódio em monumento.

Queria transformar em prova.

Meses depois, comprei outro notebook, em loja, parcelado, do jeito menos emocionante possível.

Quando a caixa chegou, esperei alguns minutos antes de abrir.

Parecia ridículo ter medo de papelão.

Mas o corpo lembra.

O corpo guarda o som da fita sendo cortada, o brilho errado de uma tela e a sensação de ver o próprio rosto onde ele nunca deveria estar.

Quando liguei o aparelho novo e apareceu apenas a tela neutra de configuração, eu chorei.

Não muito.

Só o suficiente para soltar uma tensão que eu nem sabia que ainda carregava.

Hoje, quando alguém diz que certas obsessões são elogios mal explicados, eu lembro daquele notebook rosé no chão da minha sala.

Lembro da minha foto antiga brilhando como se fosse prova de amor.

Lembro da palavra “cunhada” escrita por uma desconhecida.

E lembro que eu tinha comprado um notebook usado e descoberto que, em algum lugar, o irmão do vendedor já me chamava de futura esposa.

Só que ninguém pode transformar uma mulher em promessa sem que ela diga sim.

Não era um presente.

Era uma vitrine.

E eu saí dela antes que alguém tentasse fechar o vidro por fora.

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