Noah Moretti nunca precisou levantar a voz para fazer uma sala inteira prestar atenção. O homem que carregava a fama de ser o chefe da máfia mais temido de Nova York entrou em uma pequena alfaiataria apenas para encomendar um terno, mas saiu daquela primeira conversa carregando uma pergunta que não conseguia abandonar.
A loja do pai dela já não vivia dias fáceis. As contas acumulavam, o aluguel estava atrasado e cada novo cliente parecia uma chance de manter as portas abertas por mais um mês. Por isso, quando Noah apareceu pedindo um terno sob medida, ela não pensou no perigo envolvido.
Pensou apenas no trabalho.

Ela ajustou a fita métrica nos ombros dele, marcou o tecido com giz e tentou agir como se aquele fosse apenas mais um atendimento. Mas havia algo diferente naquele homem. O segurança parado perto da porta, o silêncio dos funcionários e a maneira como todos evitavam contrariá-lo deixavam claro que Noah Moretti não era um cliente comum.
Mesmo assim, ela não baixou a cabeça.
— Braços para cima — disse, enquanto começava as medidas.
A resposta simples pareceu surpreender quem estava acostumado a ver pessoas obedecerem Noah sem questionar.
Quando a fita passou pelo peito dele, seus dedos tocaram por acidente a arma escondida sob o paletó. Nenhum dos dois comentou o assunto. O momento passou, mas deixou uma tensão difícil de ignorar.
Então Noah percebeu uma coisa nela.
Ela não parecia impressionada pelo poder dele.
— Você é quieta — comentou ele.
Ela respondeu que cobrava pela alfaiataria, não pela conversa.
Para qualquer outra pessoa, aquilo poderia parecer uma provocação. Para Noah, porém, foi quase um motivo para sorrir.
Pouco depois, enquanto ela subia em um pequeno banco para marcar o ombro do terno, ele fez uma pergunta que ninguém esperava ouvir naquele lugar.
— Você tem namorado?
A mão dela parou por um instante.
Ela olhou para Noah pelo espelho antes de responder.
— Não.
A expressão dele mudou.
Foi uma mudança pequena, mas suficiente para ser percebida por todos ao redor.
Talvez ela devesse ter encerrado ali.
Mas, nervosa, acrescentou uma palavra que transformaria completamente aquele momento.
— Ainda não.
O isqueiro dourado de Noah se fechou com força.
O som atravessou a alfaiataria e fez até o segurança dele interromper o que estava fazendo.
Porque todos ali entenderam a mesma coisa.
Não foi a resposta que incomodou Noah.
Foi a possibilidade escondida naquela palavra.
“Ainda.”
Para ele, aquilo significava que existia um espaço esperando alguém ocupar.
E, pela primeira vez em muito tempo, Noah Moretti parecia incomodado com uma pessoa que nem sequer existia.
Ele se virou lentamente para ela.
— O que isso quer dizer?
Ela tentou entender a pergunta.
— O que quer dizer o quê?
— “Ainda não.”
A voz dele ficou mais baixa.
Não era uma ameaça.
Era algo mais difícil de interpretar.
Era curiosidade misturada com uma irritação que ele mesmo parecia não entender.
Ela desceu do banco segurando a fita métrica.
— Quer dizer exatamente o que parece.
Noah continuou olhando para ela.
— Então existe alguém?
— Não.
— Alguém tentando?
A pergunta ficou suspensa entre os dois.
Pela primeira vez, ela percebeu por que tantos homens temiam aquele nome.
Noah Moretti não precisava fazer uma ameaça para controlar um ambiente.
Bastava ele querer uma resposta.
Mas havia algo que nenhum dos homens ao redor dele esperava.
Ele não estava interessado em dinheiro, negócios ou poder naquele instante.
Ele estava tentando entender por que uma simples palavra tinha despertado uma reação tão forte dentro dele.
E aquela reação começou a mudar a forma como ele via a mulher que estava apenas tentando salvar a alfaiataria do pai.
Noah não tinha entrado naquela loja apenas para sair com um terno novo.
Sem perceber, ela tinha criado uma pergunta na cabeça do homem mais perigoso de Nova York.
E ele não era alguém acostumado a deixar perguntas sem resposta.
Quando ficaram próximos o suficiente para que apenas ela pudesse ouvir, Noah finalmente explicou o motivo daquela insistência.
— Quando uma mulher diz que ainda não tem alguém, eu começo a pensar em quem ela espera que seja essa pessoa.
Ela sentiu o peso daquela frase, mas não recuou.
— E daí?
Por um instante, Noah olhou para ela em silêncio.
— E eu descobri que não gosto de ficar imaginando.
Do lado de fora, a chuva continuava caindo sobre a rua.
Dentro da alfaiataria, o terno ainda estava incompleto, mas algo muito mais complicado tinha começado.
A palavra “ainda” tinha criado uma disputa que ninguém ali sabia como terminar.
E Noah Moretti estava prestes a descobrir que algumas coisas não podem ser compradas, controladas ou ordenadas.
Principalmente quando envolvem alguém que não tem medo de dizer a verdade na frente dele.