O Mafioso Foi Dado Como Morto — Até a Faxineira Sentir Seu Pulso-criss

Lorenzo não pediu um médico.

Seus olhos foram direto ao carrinho de lavanderia, e a ordem que saiu de sua boca mal tinha força suficiente para atravessar a sala: eu precisava escondê-lo antes que Dante voltasse àquela ala.

Por alguns segundos, achei que a toxina ainda estivesse confundindo sua cabeça.

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Ele tinha sido declarado morto às 23h42 por três médicos.

Agora eram pouco mais de seis da manhã, seu corpo continuava gelado, as bandagens estavam manchadas e cada inspiração parecia exigir uma negociação dolorosa com o próprio peito.

Mesmo assim, Lorenzo Moretti sabia exatamente do que tinha medo.

— Se alguém descobrir agora que eu acordei, não teremos como saber quem queria que eu não acordasse — murmurou.

Aquilo mudou tudo.

Até aquele instante, eu só tinha tentado salvar um homem abandonado numa sala fria.

Agora precisava decidir se confiava no homem que todos temiam o bastante para obedecer sem perguntar.

Olhei para a porta.

Olhei para Lorenzo.

Olhei para o carrinho que eu empurrava todos os dias pelos corredores enquanto homens armados conversavam diante de mim como se eu não existisse.

Era quase ridículo.

A mesma coisa que durante três anos me tornara invisível talvez fosse a única forma de manter Lorenzo vivo.

Esvaziei o carrinho depressa, empilhando toalhas numa cadeira e deixando apenas dois cobertores grossos no fundo.

Quando voltei para ajudá-lo, Lorenzo tentou se erguer sozinho.

Não conseguiu.

O braço dele tremeu, o rosto ficou ainda mais pálido e uma das bandagens começou a marcar novamente.

— Devagar — falei.

Ele soltou uma respiração curta.

— A senhorita Bell está me dando ordens?

Mesmo naquele estado, havia um traço daquele homem que meses antes obrigara um capitão bêbado a se desculpar comigo na despensa.

— Estou.

Foi a primeira vez que respondi assim.

Ele quase sorriu.

Quase.

Passei o braço dele por cima dos meus ombros e o ajudei a deslizar da mesa até o carrinho.

Não tentei colocá-lo completamente deitado; as bandagens e a dor não permitiam.

Ajeitei seu corpo entre os cobertores, cobri o máximo que pude e deixei apenas espaço suficiente para que respirasse.

— Para onde? — perguntei.

Lorenzo demorou alguns segundos antes de responder.

— Sala de apoio depois da lavanderia. Ninguém importante entra ali.

A frase teria parecido amarga em outra boca.

Na dele, parecia cálculo.

Eu conhecia aquela sala.

Guardávamos produtos, lençóis e caixas de material que raramente eram usados naquela parte da casa.

Também conhecia o caminho até lá sem passar pelo corredor principal.

Eu conhecia as portas que rangiam.

Eu conhecia os pontos em que os guardas costumavam parar.

Eu conhecia os minutos em que ninguém prestava atenção numa funcionária empurrando roupa suja.

Foi quando compreendi que meus três anos desaparecendo pela mansão tinham me ensinado um mapa que nenhum dos homens de Lorenzo jamais imaginara que eu possuía.

Empurrei o carrinho para fora.

Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que qualquer pessoa que passasse conseguiria ouvi-lo.

No primeiro corredor, não encontrei ninguém.

No segundo, duas vozes se aproximaram.

Parei ao lado de uma porta de serviço, abaixei a cabeça e fiz exatamente o que sempre fazia quando homens armados vinham na direção contrária: tornei-me parte da parede.

Eles passaram discutindo quem ficaria responsável por uma das docas.

Um deles disse que Dante queria todos reunidos antes das sete.

O outro respondeu que não entendia por que ainda estavam esperando.

— Moretti morreu. Acabou.

Sob os cobertores, Lorenzo não se mexeu.

Continuei andando.

Só quando fechei a porta da pequena sala de apoio atrás de nós consegui respirar de verdade.

Ajudei Lorenzo a se acomodar num banco baixo coberto com toalhas dobradas.

Ele fechou os olhos por alguns segundos.

— Dante — falei. — Eu ouvi ele coordenando tudo. Docas. Sindicatos. Território. Parecia que já estava dividindo o que era seu.

Lorenzo abriu os olhos.

Não demonstrou surpresa.

— Parecia?

Aquela única palavra me fez sentir novamente como a funcionária tímida que todos achavam fácil de ignorar.

— Sim.

— Você ouviu Dante distribuindo território ou ouviu homens discutindo território enquanto Dante dava ordens?

Pensei na madrugada.

Nas vozes atravessando as aberturas do teto.

Na confusão.

Na raiva.

— A segunda coisa.

Lorenzo assentiu devagar.

— Então não decida antes de saber.

A ironia quase me fez rir.

Era exatamente o que os médicos tinham feito com ele.

Antes que eu dissesse qualquer coisa, passos atravessaram o corredor do lado de fora.

Pararam.

Lorenzo levantou uma mão.

Silêncio.

Uma voz masculina perguntou onde estava a funcionária da limpeza que cuidava daquela ala.

Reconheci a voz na mesma hora.

Meu estômago apertou.

Era o capitão que meses antes me encurralara na despensa.

O homem que rira do meu uniforme.

O homem que só pedira desculpas depois de Lorenzo chegar perto e sussurrar algo que eu nunca ouvira.

Ele estava procurando por mim.

Lorenzo também reconheceu a voz.

Vi isso em seus olhos.

O capitão perguntou a outro funcionário se o corpo já tinha sido removido.

A resposta veio abafada: ainda não.

Então ele disse algo que me fez gelar.

— Quero vê-lo antes de Dante chegar.

Lorenzo não reagiu de imediato.

— Ele não tem motivo para entrar naquela sala — murmurou.

— Talvez queira se despedir.

— Ele me odiava.

Não era uma acusação.

Era um fato.

Lembrei da despensa.

Lembrei do pedido de desculpas feito entre dentes.

Lembrei de como aquele homem olhara para Lorenzo depois de receber a xícara que eu havia derrubado.

Naquela época, interpretei como medo.

Agora enxerguei outra coisa naquela lembrança.

Humilhação.

Lorenzo se inclinou um pouco para a frente.

— Volte para a sala de cirurgia.

— Não vou deixar você aqui sozinho.

— Ele está procurando o meu corpo. Não o seu.

— E se encontrar você antes?

Ele sustentou meu olhar.

— Por isso você precisa descobrir o que ele quer encontrar.

Eu queria dizer não.

Eu queria chamar Dante, Caldwell, qualquer pessoa que tivesse autoridade suficiente para tirar aquela decisão das minhas mãos.

Mas Lorenzo continuava vivo porque, durante horas, eu tinha feito justamente o contrário do que todos os outros decidiram fazer.

Saí.

Levei o carrinho vazio comigo.

No corredor, encontrei o capitão perto da entrada da ala médica.

Ele olhou para mim como sempre olhava: primeiro para o uniforme, depois para o carrinho, só então para o meu rosto.

— Onde esteve?

— Lavanderia.

Ele apontou para a sala onde Lorenzo havia sido declarado morto.

— Abra.

— O código é restrito.

Ele deu um passo na minha direção.

— Você acabou de dizer que trabalha aqui.

Meu primeiro impulso foi abaixar a cabeça.

Não abaixei.

— O senhor quer alguma coisa lá dentro?

Ele me encarou por dois segundos longos demais.

Então mudou o tom.

— Só quero prestar respeito.

A mentira não estava na frase.

Estava na pressa.

Digitei o código.

Abri a porta.

O lençol branco que antes cobria Lorenzo estava estendido sobre a mesa, elevado por cobertores e toalhas que eu havia ajeitado rapidamente para formar o contorno de um corpo.

De longe, funcionava.

De perto, não.

Por isso fiquei junto à porta.

O capitão entrou sozinho.

Não fez nenhuma oração.

Não disse o nome de Lorenzo.

Não tocou no ombro do homem que supostamente tinha servido por anos.

Foi direto até a cabeceira.

Depois olhou para mim.

— Saia.

— Preciso recolher o material.

— Saia, senhorita Bell.

Ouvir meu sobrenome na boca dele fez minha pele arrepiar.

Ele lembrava.

O capitão esperou até eu recuar para o corredor.

Deixei a porta quase fechada.

Quase.

Pela abertura, vi sua mão entrar no bolso interno do paletó.

Quando saiu, segurava uma pequena seringa protegida por uma capa.

Meu corpo inteiro ficou frio.

Ele se aproximou do lençol.

Puxou a capa.

Não estava ali para se despedir.

Dei um passo para trás e esbarrei em alguém.

Uma mão segurou meu braço antes que eu caísse.

Dante.

Meu peito travou.

Por um segundo, pensei que tivesse acabado de entregar Lorenzo ao homem errado.

Dante olhou para mim, depois para a fresta da porta.

Eu não consegui explicar tudo.

Só sussurrei:

— Ele entrou com uma seringa.

Dante não perguntou quem.

Olhou.

O capitão já tinha levantado uma ponta do lençol quando percebeu que não havia corpo nenhum ali.

Ele recuou.

A seringa continuava em sua mão.

Foi nesse instante que Dante abriu a porta por completo.

— O que você está fazendo?

O capitão se virou rápido demais.

— Onde está Lorenzo?

Dante não respondeu.

Seus olhos desceram até a seringa.

— Você veio prestar respeito com isso?

O capitão fechou a mão.

— É medicamento.

— Para um homem morto?

Ele tentou guardar a seringa novamente.

Dante segurou seu pulso.

Não houve disparo.

Não houve golpe.

Só a mudança repentina de uma sala em que, pela primeira vez naquela madrugada, alguém precisava explicar por que carregava algo que não deveria estar ali.

O capitão puxou o braço.

— Isso não é da sua conta.

— Agora é.

Outros passos apareceram no corredor.

Homens que tinham passado a noite discutindo território começaram a se aproximar, atraídos pelas vozes.

Foi exatamente o que eu mais temia.

Se Lorenzo aparecesse naquele momento, não saberíamos quem ficaria aliviado e quem tentaria terminar o serviço.

Dante olhou para mim.

— Onde ele está?

Não respondi.

O capitão percebeu.

Foi uma mudança mínima.

O olhar dele saiu de Dante e veio para mim.

— Você entrou aqui de madrugada.

Eu me afastei um passo.

— Todo mundo sabe — continuou ele. — Você mexeu no corpo.

Dante virou o rosto para mim.

O capitão aproveitou.

— Ela fez alguma coisa. Talvez esteja tentando esconder o que fez.

Era uma boa mentira porque usava uma verdade.

Eu realmente tinha entrado escondida.

Eu realmente tinha tocado Lorenzo.

Eu realmente tinha removido o corpo da sala.

Durante três anos, aqueles homens me consideraram incapaz de fazer qualquer coisa importante.

Agora, de repente, minha invisibilidade podia ser transformada em culpa.

— Senhorita Bell — disse Dante. — Onde está Lorenzo?

Pensei na frase dele lá em cima, horas antes.

Pensei nos territórios sendo discutidos.

Pensei em como ele batera no vidro quando Caldwell declarou a morte.

Então lembrei de uma coisa que Lorenzo tinha acabado de me dizer: eu ouvira homens dividindo o império enquanto Dante dava ordens, mas não ouvira Dante entregar nada a ninguém.

Havia diferença.

Escolhi.

— Está vivo.

O capitão ficou imóvel.

Dante não.

Ele deu meio passo em minha direção.

— Repita.

— Lorenzo está vivo.

O corredor atrás dele virou um emaranhado de vozes.

O capitão foi o único que não perguntou como.

Ele perguntou:

— Onde?

Dante ouviu também.

E foi aí que a pergunta que controlava aquela madrugada mudou.

Já não era quem acreditava na minha história.

Era por que aquele homem precisava tanto saber onde Lorenzo estava.

Dante soltou o pulso dele apenas para tirar a seringa de sua mão e entregá-la a um dos homens que permanecera no corredor.

Depois apontou para uma cadeira.

— Sente.

— Você não manda em mim.

— Enquanto Lorenzo não aparecer, mando o suficiente para você não sair daqui.

O capitão olhou novamente para mim.

Dessa vez, não havia desprezo.

Havia cálculo.

Eu sabia o que aquele olhar significava.

Eu sabia que ele estava tentando descobrir se eu tinha contado tudo.

Eu sabia que, se eu revelasse a sala de apoio na frente de todos, poderia colocar Lorenzo novamente ao alcance da pessoa que tentara chegar até seu corpo com uma seringa.

Por isso não disse nada.

Dante percebeu.

— Você confia em mim? — perguntou.

— Ainda não.

Alguns homens se entreolharam.

Ninguém falava assim com Dante Voss.

Ele poderia ter se ofendido.

Em vez disso, assentiu.

— Justo.

Então fez algo que eu não esperava.

Mandou todos saírem da ala, menos o capitão.

O homem protestou.

Dante repetiu a ordem.

Dessa vez, as vozes desapareceram corredor afora.

Quando ficamos apenas nós três, Dante tirou a própria arma do coldre e a colocou sobre uma bancada, longe das mãos.

— Agora você decide — disse para mim.

Aquilo me deu a resposta que eu precisava.

Levei Dante até a sala de apoio sem revelar o caminho ao capitão.

Quando abri a porta, Lorenzo estava sentado exatamente onde eu o deixara, mas parecia ter envelhecido dez anos em quinze minutos.

Dante parou.

A expressão dele mudou antes que qualquer palavra saísse.

— Chefe.

Lorenzo ergueu os olhos.

— Você dividiu minhas docas rápido.

Dante soltou uma respiração curta.

— Eu não dividi nada. Deixei que falassem.

Lorenzo esperou.

Dante explicou que, depois da declaração de morte, metade dos homens começara a reivindicar posições e a outra metade exigira vingança imediata.

Ele mandara todos dizerem o que queriam antes de agir porque queria saber quem estava preocupado com Lorenzo e quem estava preocupado com o espaço vazio que Lorenzo deixaria.

Aquilo não o tornava automaticamente inocente.

Mas explicava o que eu tinha ouvido pelas aberturas do teto.

Então contei sobre a seringa.

Pela primeira vez, Lorenzo demonstrou algo parecido com raiva.

Não foi explosivo.

Foi pior.

Ele perguntou apenas qual homem estava na sala.

Quando respondi que era o mesmo capitão da despensa, Lorenzo fechou os olhos por um instante.

Uma lembrança antiga tinha acabado de ganhar outro sentido para ele também.

— Naquela noite — disse Lorenzo — eu não o ameacei por causa de uma xícara.

Esperei.

— Eu disse que já tinha percebido que ele estava usando gente abaixo dele para testar até onde podia ir. Disse que a próxima vez custaria seu posto.

— Então ele tinha motivo para odiar você.

— Motivo não é prova.

A frase me surpreendeu vindo dele.

Dante colocou a seringa, ainda protegida, sobre uma prateleira.

— Isto chega perto.

O plano seguinte nasceu daquele objeto.

Lorenzo não apareceu imediatamente.

Dante voltou sozinho ao corredor e anunciou que o corpo não seria removido até segunda ordem.

O capitão não sabia se Lorenzo estava consciente, escondido ou sendo levado para outro lugar.

Essa incerteza fez o que nenhuma ameaça conseguiria fazer.

Ele começou a pressionar.

Queria sair.

Queria falar com determinados homens.

Queria saber se os médicos voltariam.

Queria saber se eu tinha entrado na sala depois das duas.

Cada pergunta apertava mais a corda ao redor da própria versão.

Quando Lorenzo finalmente saiu da sala de apoio, apoiado em meu ombro de um lado e em Dante do outro, o capitão perdeu o controle da expressão.

Não houve comemoração.

Os homens que estavam no corredor apenas encararam o chefe que tinham dividido mentalmente durante a madrugada.

Lorenzo parecia fraco demais para intimidar alguém.

Mesmo assim, ninguém avançou.

Ele parou diante do capitão.

— Você veio se despedir de mim?

O homem olhou para a seringa sobre a bancada.

— Posso explicar.

— Então explique por que pretendia injetar alguma coisa em um cadáver.

A resposta não veio.

Dante pediu que dois homens mantivessem o capitão sob vigilância e que ninguém o tocasse até que soubessem exatamente quem mais participara da emboscada.

Lorenzo não queria uma execução improvisada.

Também não queria uma guerra iniciada com base em suspeitas.

Sua falsa morte tinha revelado uma coisa maior do que o homem com a seringa: bastaram poucas horas para aliados, subordinados e oportunistas mostrarem o que fariam quando acreditassem que ele não podia mais observar.

Nos dias seguintes, a tentativa de tomar o lugar de Lorenzo perdeu força porque o fato mais importante já não podia ser negociado.

Ele estava vivo.

O capitão perdeu acesso à casa, aos homens e às rotas que antes conhecia.

A seringa permaneceu como a peça central da investigação interna sobre a emboscada, enquanto Lorenzo se recusava a aceitar novas acusações que não estivessem ligadas a fatos verificáveis.

Dante continuou ao lado dele, mas não saiu ileso da madrugada.

Lorenzo deixou claro que permitir uma disputa aberta de territórios enquanto todos acreditavam que ele estava morto tinha colocado gente demais em risco.

Dante respondeu que precisava descobrir quem mostraria a mão.

Lorenzo disse que quase havia descoberto tarde demais.

Os dois continuaram trabalhando juntos.

Mas alguma coisa tinha mudado entre eles.

Comigo, a mudança foi diferente.

Durante os primeiros dias da recuperação, eu ainda empurrava o mesmo carrinho pelos mesmos corredores.

Os guardas, porém, pararam de fazer piadas quando eu passava.

Alguns começaram a abrir caminho.

Outros me chamavam de senhorita Bell.

Eu detestava aquilo quase tanto quanto detestava ser ignorada.

Não tinha aquecido Lorenzo durante horas para conquistar respeito de homens armados.

Eu o fiz porque ele estava sozinho e porque ninguém deveria ser abandonado daquela maneira.

Quando Lorenzo conseguiu sentar sem ajuda, pediu que eu fosse até seu escritório.

Havia uma xícara sobre a mesa.

Por coincidência ou intenção, parecia muito com a que eu deixara cair meses antes na despensa.

Ele não mencionou o capitão.

Não mencionou Dante.

Perguntou sobre Buffalo.

Depois perguntou se minha mãe ainda morava lá.

Por fim, perguntou sobre enfermagem.

Eu tinha contado tudo aquilo enquanto acreditava que ele não podia me ouvir.

— Você estava consciente? — perguntei.

— Não durante tudo.

— Quanto ouviu?

— O suficiente.

Senti meu rosto esquentar.

Lorenzo empurrou um envelope na minha direção.

Não toquei.

— O que é?

— Matrícula. Mensalidades. O necessário para você voltar a estudar.

— Não posso aceitar isso.

— Pode.

— Porque salvei sua vida?

Ele demorou antes de responder.

— Porque você disse que tinha desistido por causa de uma dívida que não era sua, e eu prefiro devolver uma escolha a comprar gratidão.

Ainda assim, não aceitei naquele dia.

Levei três dias para voltar ao assunto.

Quando voltei, impus minhas próprias condições.

Eu aceitaria ajuda apenas com os estudos.

Não ficaria presa à mansão.

Não trabalharia para Lorenzo pelo resto da vida para pagar uma dívida moral que ninguém sabia calcular.

E, quando começasse as aulas, reduziria meus turnos até poder sair de vez.

Lorenzo ouviu tudo.

— Mais alguma ordem, senhorita Bell?

Dessa vez, eu sorri.

— Por enquanto, não.

Meses depois, na minha última manhã como funcionária da casa Moretti, passei pela ala médica subterrânea uma vez mais.

A sala onde Lorenzo fora declarado morto estava aberta e limpa.

O aquecedor funcionava.

As mesas estavam vazias.

Nenhum homem armado discutia território no corredor.

Perto da lavanderia, encontrei o velho carrinho.

Uma funcionária nova estava tentando equilibrar toalhas demais nele.

Aproximei-me, tirei metade da pilha e mostrei como distribuir o peso para que as rodas não travassem na curva.

Ela agradeceu sem saber que aquele mesmo carrinho já tinha carregado o homem mais temido daquela casa enquanto todos o procuravam em outro lugar.

Eu não contei.

Não precisava.

Coloquei minha última pilha de toalhas no lugar, tirei o crachá do uniforme e o deixei sobre o tecido dobrado.

Depois peguei a mochila com meus materiais do curso de enfermagem, passei pelo carrinho que durante três anos me ajudara a desaparecer e atravessei a porta sem baixar a cabeça.

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