O Filho Chamou Pelo Pai, E Alejandro Descobriu Que Nunca Estaria Seguro-criss

Quando a caminhonete blindada deixou o hospital para trás, Mariana percebeu que a volta de Alejandro para a vida dela não terminaria naquela estrada. Emiliano dormia no colo do pai, com o coelho de pelúcia preso entre os dois, enquanto Alejandro mantinha os olhos sobre o menino como se qualquer mudança na respiração pudesse ser um aviso.

Mariana entrou no veículo convencida de que aquilo seria apenas uma medida temporária.

Era pela segurança de Emiliano.

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Só por isso.

Dois anos antes, ela tinha saído da vida de Alejandro porque ele próprio havia ordenado que desaparecesse.

Naquela época, Mariana não sabia se odiava mais a crueldade da frase ou a facilidade com que ele a pronunciara.

Agora, sentada a poucos centímetros dele, ela descobria uma coisa que não esperava: Alejandro Moncada, o homem que parecia incapaz de demonstrar medo, estava apavorado.

Ele verificava a temperatura do filho com a mão, ajeitava a manta, observava o peito pequeno subir e descer e perguntava ao motorista quanto faltava para chegar.

Uma vez.

Depois outra.

Na terceira, Mariana não aguentou.

— Ele está dormindo, Alejandro.

— Eu sei.

— Então pare de olhar para ele como se fosse desaparecer.

Alejandro demorou alguns segundos para responder.

— Eu já perdi dois anos.

A frase atingiu Mariana de um jeito diferente.

Ela virou o rosto para a janela.

— Você não perdeu dois anos. Você mandou que eles acabassem.

Ele não discutiu.

A fazenda ficava afastada o bastante para que a movimentação do hospital não pudesse acompanhá-los facilmente, mas não parecia um esconderijo improvisado. Era uma propriedade grande, cercada por árvores e com uma casa antiga reformada sem ostentação excessiva.

Assim que chegaram, Alejandro não entregou Emiliano a ninguém.

Levou o menino para dentro nos próprios braços.

Mariana o acompanhou.

Havia um quarto preparado para a criança, embora Alejandro tivesse jurado que não sabia da existência de Emiliano até aquela madrugada.

Foi a primeira coisa que a incomodou.

O quarto tinha uma cama pequena, roupas infantis ainda com etiquetas e uma prateleira vazia esperando brinquedos.

— Você preparou isso antes de saber que ele existia?

Alejandro olhou para o quarto.

— Não.

— Então quem preparou?

Ele não respondeu imediatamente.

Foi Ramiro quem apareceu na porta.

— Eu mandei comprar algumas coisas quando soube que vocês viriam.

Mariana soltou o ar devagar.

— Há quanto tempo você sabia que eu tinha um filho?

Ramiro hesitou.

Alejandro virou-se para ele.

— Responda.

— Eu não sabia que era filho dele. Só recebi a ordem de preparar o quarto quando o hospital ligou.

A resposta parecia simples, mas Mariana percebeu uma coisa.

Ramiro não olhava para Alejandro.

O homem que costumava fazer piadas no corredor do hospital agora evitava seus olhos.

— O que foi? — Mariana perguntou.

Ramiro apertou o copo de café que carregava.

— Nada.

Alejandro se aproximou.

— Ramiro.

— Eu só acho que você deveria ver uma coisa.

Ele tirou o celular do bolso.

Mariana sentiu o estômago apertar.

— É sobre Emiliano?

— Não diretamente.

Ramiro mostrou uma mensagem recebida naquela mesma manhã.

Era curta.

Não havia ameaça explícita.

Apenas uma frase perguntando se o menino havia sobrevivido à noite.

Mariana sentiu o sangue gelar.

— Quem mandou isso?

— Um número que não está salvo — respondeu Ramiro.

Alejandro pegou o celular.

— Você respondeu?

— Não.

— Fez certo.

Mariana olhou para o filho.

— Eles sabem que ele saiu do hospital.

Alejandro assentiu.

— E agora sabem que está comigo.

Foi naquele instante que Mariana entendeu por que ele havia insistido na fazenda.

Não era apenas paranoia.

Alguém estava acompanhando os passos de Emiliano.

Mas ainda havia uma pergunta maior.

Por que uma criança de três anos seria importante para alguém que conhecia o nome de Alejandro Moncada?

Naquela tarde, Emiliano acordou melhor.

Pediu água.

Depois perguntou pelo coelho.

Quando Mariana entregou o brinquedo, ele o abraçou e olhou para Alejandro.

— Papai fica?

Alejandro ficou imóvel.

Mariana esperou que ele respondesse.

— Se sua mãe deixar, eu fico.

Emiliano sorriu.

— Fica.

Foi uma palavra pequena.

Para Alejandro, pareceu uma sentença.

Ele se sentou no chão ao lado da cama e começou a montar um brinquedo simples que Ramiro havia comprado às pressas.

Mariana observava da porta.

Aquele homem não sabia onde ficavam as peças.

Não sabia qual desenho Emiliano gostava.

Não sabia que o menino dormia abraçado ao coelho.

Não sabia que ele odiava sopa de macarrão.

Mas estava tentando aprender.

E Mariana odiava perceber que aquilo mexia com ela.

Mais tarde, quando Emiliano voltou a dormir, Alejandro encontrou Mariana na cozinha.

Ela preparava café.

Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.

— Por que você me expulsou? — ela perguntou.

Alejandro permaneceu de pé junto à bancada.

— Porque eu acreditava que qualquer pessoa perto de mim acabaria sendo usada contra mim.

— E então você decidiu me afastar.

— Sim.

— Sem me explicar.

— Sim.

— Sem saber que eu estava grávida.

Ele fechou os olhos por um instante.

— Eu não sabia.

Mariana segurou a caneca com força.

— Eu contei naquela noite.

Alejandro ergueu a cabeça.

— O quê?

— Eu ia contar que estava grávida.

Ele não respondeu.

— Você não me deixou terminar.

A revelação mudou alguma coisa entre os dois.

Não apagou o que havia acontecido.

Não transformou Alejandro em um homem inocente.

Mas explicou por que Mariana carregava tanta raiva.

Ele não havia apenas expulsado uma mulher.

Tinha tomado uma decisão sobre uma vida que nem sabia que estava começando.

— Eu sinto muito — disse ele.

Mariana olhou para ele.

— Não diga isso para me fazer ficar.

— Não estou dizendo.

— Então diga porque é verdade.

Alejandro sustentou o olhar dela.

— É verdade.

Antes que Mariana respondesse, Ramiro entrou novamente.

Dessa vez, não havia café.

Havia preocupação.

— Alejandro, o médico ligou.

Os dois se viraram.

— O resultado complementar saiu.

Alejandro esperou.

— A bactéria encontrada em Emiliano não prova que alguém o infectou de propósito. Mas há uma característica que deixou o médico preocupado.

Mariana aproximou-se.

— Que característica?

Ramiro respondeu:

— A equipe quer rever tudo o que aconteceu nos dias anteriores à internação.

Alejandro ficou sério.

— Inclusive quem teve contato com ele.

— Sim.

Mariana começou a pensar.

Padaria.

Casa.

Parquinho.

Consulta.

Mercado.

A rotina comum de uma criança.

Então se lembrou de algo.

— Emiliano ficou doente depois de uma visita.

Alejandro virou-se para ela.

— Que visita?

— Uma mulher foi à padaria.

— Quem?

Mariana demorou a responder.

— Ela disse que conhecia você.

Alejandro ficou imóvel.

— Como ela se chamava?

— Não sei.

— O que ela queria?

— Perguntou se o menino era meu filho.

A expressão de Alejandro mudou.

— E você respondeu?

— Disse que sim.

— Ela tocou nele?

— Não lembro.

Mariana levou a mão à testa.

— Ela trouxe um presente.

Alejandro imediatamente perguntou:

— Que presente?

— Um coelho de pelúcia.

O mundo pareceu diminuir dentro daquela cozinha.

Mariana olhou para o corredor.

O brinquedo estava no quarto de Emiliano.

O mesmo coelho que o menino abraçava desde aquela madrugada.

Alejandro não correu.

Não gritou.

Apenas pegou o telefone.

— Ramiro, ninguém toca naquele brinquedo.

Mariana sentiu a garganta fechar.

— Você acha que foi isso?

— Eu não sei.

— Mas está pensando.

— Estou pensando em tudo.

Ele pediu que o coelho fosse isolado e que o médico fosse informado, sem permitir que ninguém o manipulasse além do necessário para a avaliação.

Mariana ficou parada.

O objeto que havia confortado seu filho durante a doença agora carregava outro significado.

Mas Alejandro percebeu algo antes dela.

— Mariana.

— O quê?

— Você disse que ela perguntou se ele era seu filho.

— Sim.

— Ela não perguntou quem era o pai.

Mariana sentiu um arrepio.

Era uma diferença pequena.

Mas importante.

A mulher já sabia.

Naquela noite, ninguém dormiu direito.

Emiliano descansava em segurança no quarto, acompanhado de perto por Mariana.

Alejandro ficou no corredor.

Ramiro permaneceu perto da entrada da casa.

Quando o telefone de Alejandro vibrou, ele atendeu imediatamente.

Do outro lado, uma voz desconhecida disse apenas:

— Você devia ter deixado a família fora disso.

Alejandro não respondeu.

A ligação terminou.

Ele olhou para a porta do quarto de Emiliano.

Depois para Mariana.

Ela havia ouvido.

— Agora você entende — disse ele.

Mariana assentiu.

— Entendo.

— O quê?

— Por que você queria que eu viesse para cá.

Alejandro respirou fundo.

— Eu queria proteger vocês.

Mariana corrigiu:

— Não. Você queria controlar o perigo.

Ele não contestou.

— E agora vai precisar aprender que não pode controlar tudo.

Alejandro olhou para o quarto do filho.

— Eu sei.

Foi a primeira vez que Mariana acreditou nele.

Não porque tivesse esquecido o passado.

Mas porque percebeu que Alejandro finalmente estava diante de uma coisa que dinheiro, influência e medo não podiam resolver sozinho.

Ele precisava ser pai.

E, para isso, teria de permanecer presente mesmo quando não pudesse garantir o resultado.

Na manhã seguinte, Emiliano pediu pão doce.

Mariana sorriu pela primeira vez desde o hospital.

— Eu faço.

Alejandro apareceu na porta.

— Eu posso ajudar.

— Você sabe fazer?

— Não.

Emiliano, sentado à mesa, levantou o coelho de pelúcia e declarou:

— Papai não sabe.

Ramiro, que passava pelo corredor, riu.

Alejandro lançou um olhar para ele.

— Você quer continuar empregado?

Ramiro levantou as mãos.

— Eu não disse nada.

Mariana riu.

Foi um momento pequeno.

Quase normal.

E talvez fosse justamente isso que tornava tudo mais importante.

Porque, depois de dois anos separados, uma doença que quase levou Emiliano havia colocado os três na mesma casa.

O passado ainda estava ali.

A ameaça também.

Mas agora havia algo diferente.

Alejandro tinha um filho que o chamava de pai.

Mariana tinha uma razão para não fugir imediatamente.

E os dois tinham uma pergunta que não podia mais ser ignorada: quem havia descoberto Emiliano antes de Alejandro, e por que alguém queria que aquela criança adoecesse?

Naquele dia, o coelho de pelúcia foi retirado do quarto para ser examinado.

Emiliano reclamou.

Mariana prometeu que devolveria o brinquedo assim que fosse seguro.

Alejandro se abaixou ao lado do menino.

— Enquanto isso, eu fico com você.

Emiliano segurou o dedo dele.

— Promete?

Alejandro olhou para Mariana antes de responder.

— Prometo tentar.

Ela percebeu a escolha daquela palavra.

Não era uma promessa de poder.

Era uma promessa de presença.

E, pela primeira vez, talvez fosse exatamente a única que Emiliano precisava.

Do lado de fora, porém, um carro passou lentamente pela estrada da fazenda.

Ninguém dentro da casa percebeu.

Mas, alguns minutos depois, o telefone de Ramiro recebeu uma nova mensagem.

Dessa vez, havia apenas uma frase:

“Agora sabemos onde eles estão.”

Ramiro levantou os olhos para a casa.

E entendeu que a proteção de Alejandro acabara de deixar de ser uma precaução.

Tinha virado uma corrida contra alguém que já estava muito mais perto do que eles imaginavam.

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