Humilhada no Baile, Ela Descobre Ser a Princesa Desaparecida-dieuphuong

O comandante continuou ajoelhado diante de mim e confirmou, sem desviar os olhos, que eu era a filha desaparecida da família real que ele servira durante toda a vida.

Por alguns segundos, não consegui ouvir nada além do sangue pulsando nos meus ouvidos e da chuva castigando as janelas da Wellington House.

Sessenta soldados permaneciam de joelhos, enquanto quinhentos convidados que haviam acabado de rir de mim agora evitavam até respirar alto demais.

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— Levantem-se — consegui dizer, embora minha voz mal parecesse minha. — Ninguém vai se ajoelhar enquanto eu não entender o que está acontecendo.

O comandante obedeceu primeiro, e os outros fizeram o mesmo em perfeita sincronia.

Foi então que vi um homem parado entre as duas primeiras fileiras, usando um casaco escuro sobre a roupa formal e observando meu rosto como se tivesse esperado quatro anos por aquele instante.

Angelo.

Meu corpo inteiro ficou rígido.

Ele parecia mais velho, mais magro e cansado, mas o jeito de apertar os lábios quando estava nervoso continuava exatamente igual ao da época de Oxford.

— Você escreveu o bilhete — eu disse.

— Escrevi.

— E sabia que isso aconteceria?

Angelo deu um passo em minha direção, mas ergui a mão antes que ele se aproximasse.

— Eu sabia quem você era — respondeu. — Não sabia até onde eles iriam para impedir que você descobrisse.

— Que encenação ridícula! — Lady Eleanor interrompeu, recuperando parte da arrogância. — Um uniforme e algumas pessoas ajoelhadas não transformam uma restauradora falida em princesa.

O comandante virou-se para ela.

— A senhora deve medir as próximas palavras.

— Eu não recebo ordens de homens que invadem uma propriedade privada — ela rebateu. — Essa mulher entrou sem autorização, atacou convidados e agora participa de uma fraude grotesca.

Khloe, que estivera escondida atrás de uma coluna, abriu a boca, mas Harrison lançou-lhe um olhar tão duro que ela se calou imediatamente.

Eu reconheci aquele medo.

Era o mesmo que sentia diante do meu senhorio quando ele ameaçava aumentar o aluguel ou mandar alguém trocar a fechadura do meu apartamento.

Harrison não estava apenas assustado com os soldados.

Ele estava tentando impedir Khloe de dizer alguma coisa.

— Josephine — Angelo falou, ainda mantendo distância —, o vestido verde não era apenas uma lembrança da sua avó.

Olhei para a seda rasgada e manchada que cobria meu corpo.

A barra havia se soltado durante a agressão, deixando à mostra uma fileira de pontos minúsculos feitos com linha de dois tons diferentes.

Eu já tinha visto aquela técnica.

Minha avó a usava para esconder remendos em encadernações antigas, criando um compartimento quase invisível entre duas camadas de tecido ou papel.

Antes que eu pudesse me abaixar, Harrison avançou.

Ele agarrou a ponta solta da barra e puxou com toda a força.

O som da seda se rasgando atravessou o salão.

Uma tira estreita de material amarelado caiu sobre o piso de mármore, ainda presa a alguns fios verdes.

— Não toque! — gritei.

Harrison já estendia a mão quando coloquei o salto sobre a manga do smoking dele e o impedi de alcançar o objeto.

Dois soldados se moveram, mas fiz um gesto para que permanecessem onde estavam.

Eu não precisava que ninguém me salvasse daquela vez.

Ajoelhei-me devagar e examinei a tira sem tocá-la diretamente.

Não era papel comum.

Era um fragmento de pergaminho fino, dobrado sobre si mesmo e protegido havia décadas por uma camada de seda encerada.

O vinho derramado sobre meu vestido havia penetrado apenas nas extremidades, mas o puxão de Harrison abrira uma fenda no centro.

— Preciso de linho branco limpo, duas espátulas sem corte e uma bandeja seca — pedi.

Ninguém se mexeu.

Olhei para os funcionários parados perto da cozinha.

— Agora.

Três deles correram para cumprir a ordem.

Talvez tenha sido naquele momento, e não quando os soldados se ajoelharam, que os convidados começaram a acreditar que eu não era a intrusa desamparada que imaginavam.

Eu sabia exatamente como proteger um documento antigo.

Passei anos salvando páginas que homens ricos consideravam apenas objetos decorativos, enquanto aceitava pagamentos atrasados e almoçava biscoitos para conseguir pagar o aluguel.

Minha avó dizia que uma página frágil nunca deveria ser aberta pela força.

Era preciso descobrir onde ela já queria ceder.

Quando os materiais chegaram, sequei as bordas do pergaminho e usei as espátulas para separar as duas superfícies aderidas.

Havia escrita no interior.

Uma caligrafia delicada surgia sob as manchas avermelhadas, acompanhada por datas, nomes e uma declaração registrada no dia do meu nascimento.

No rodapé, reconheci a letra da minha avó.

Não porque tivesse visto aquele texto antes, mas porque ela desenhava a letra J como se estivesse reparando uma rachadura: primeiro uma linha firme, depois uma pequena curva voltando ao ponto de origem.

Minhas mãos começaram a tremer.

— Leia — Lady Eleanor exigiu. — Vamos ouvir a fantasia inteira.

Eu não li imediatamente.

Observei a linha de costura aberta na barra e percebi que alguns pontos haviam sido refeitos recentemente com uma fibra sintética, muito mais nova que a seda original.

Alguém procurara aquele compartimento antes de mim.

— Quem mexeu neste vestido? — perguntei.

Lady Eleanor empalideceu por uma fração de segundo.

Harrison tentou recuar, mas meu salto ainda prendia sua manga contra o piso.

— Eu nunca vi esse trapo — ele respondeu.

— Então como sabia exatamente onde puxar?

O salão inteiro pareceu se inclinar em nossa direção.

Harrison abriu a boca, mas nenhum som saiu.

Khloe foi quem quebrou o silêncio.

— Ele me disse que o documento estava na barra.

Harrison virou-se para ela com tanta violência que dois soldados avançaram por instinto.

Khloe recuou até bater na coluna.

— Você está mentindo — ele rosnou.

— Você prometeu apagar a dívida do apartamento do meu pai — ela disparou, com a voz falhando. — Disse que eu só precisava derramar o vinho, apontar para ela e fazer os seguranças levá-la pela saída de serviço.

Lady Eleanor fechou os olhos por um instante, como se já calculasse quanto daquela confissão ainda poderia controlar.

— E o que aconteceria no beco? — perguntei.

Khloe olhou para Harrison.

— Havia dois homens esperando dentro de uma van.

O comandante fez um gesto curto, e quatro soldados saíram pela porta lateral.

Minutos depois, um deles voltou e confirmou que uma van vazia estava estacionada perto do beco, com a porta traseira aberta e ferramentas usadas para cortar tecido espalhadas no interior.

A humilhação não tinha sido espontânea.

A Mesa 89, a falsa acusação, o vinho, os seguranças e a ordem para me jogar na chuva faziam parte do mesmo plano.

Eles não queriam apenas me expulsar do gala.

Queriam retirar o vestido, encontrar o pergaminho e fazer com que eu desaparecesse novamente.

— Por quê? — perguntei a Angelo. — Por que esse pedaço de pergaminho importa tanto?

Ele olhou para o comandante antes de responder.

— Porque, à meia-noite, você seria oficialmente declarada morta.

Um murmúrio atravessou o salão.

Angelo explicou que, depois de vinte e quatro anos sem uma herdeira reconhecida, a administração dos bens ligados à família real passaria definitivamente para um conselho provisório.

Lady Eleanor ocupava o posto de maior influência nesse conselho, e Harrison herdaria o controle depois dela.

A cerimônia discreta seria realizada naquela mesma noite, diante de testemunhas escolhidas entre os convidados do gala.

Minha presença, acompanhada do registro escondido no vestido, impediria a transferência.

— Então me convidou para aparecer no mesmo lugar onde eles planejavam apagar minha existência — eu disse.

— Era o único evento em que todos os responsáveis estariam reunidos — Angelo respondeu.

— Você poderia ter me contado.

— Se a mensagem fosse interceptada, eles fugiriam ou chegariam até você antes de nós.

— E decidiu que me usar como isca era aceitável?

A pergunta atingiu-o com mais força do que qualquer acusação de Lady Eleanor.

Angelo baixou os olhos.

— Não — disse. — Decidi que era necessário. E passei quatro anos confundindo necessidade com direito.

A honestidade não apagou minha raiva.

Ele havia desaparecido sem uma despedida, deixando-me acreditar que eu não merecia sequer uma explicação.

Agora descobria que ele acompanhara minha vida à distância, sabendo quem eu era, enquanto eu trabalhava até os dedos sangrarem para não perder um apartamento caindo aos pedaços.

— Conte tudo — ordenei.

Angelo respirou fundo.

Quatro anos antes, em Oxford, ele levara à biblioteca um volume danificado que pertencera à antiga coleção da família real.

Eu havia restaurado a lombada usando a técnica que aprendera com minha avó, alternando duas tonalidades de linha para distribuir a tensão sem marcar o couro.

Um pesquisador reconheceu o padrão como o método pessoal de Beatrice Harrington, conservadora responsável por livros privados da família real e desaparecida na mesma noite em que a princesa recém-nascida sumira.

Beatrice era minha avó.

Ou, pelo menos, a mulher que me criara como neta.

Quando Angelo tentou consultar os registros sobre ela, os documentos foram retirados do arquivo, seu quarto foi invadido e ele recebeu uma fotografia minha saindo da universidade, acompanhada de uma ameaça.

Ele desapareceu porque acreditou que afastar-se de mim faria os perseguidores perderem o interesse.

Depois, passou anos seguindo os rastros financeiros do conselho administrado por Lady Eleanor.

— Você podia ter confiado em mim — falei.

— Podia.

— Podia ter me dado uma escolha.

— Devia.

Não houve desculpa grandiosa nem pedido imediato de perdão.

Pela primeira vez naquela noite, Angelo não tentou controlar o que aconteceria depois.

Voltei minha atenção ao pergaminho.

A escrita principal declarava meu nascimento, mencionava o nome de minha mãe e registrava que Beatrice recebera a responsabilidade de me retirar da residência real caso houvesse ameaça interna.

Na margem inferior, minha avó acrescentara uma mensagem anos depois.

Ela dizia que esperara contar a verdade quando eu pudesse escolher entre uma vida comum e o peso que me fora imposto ao nascer.

Mas alguém descobrira onde estávamos antes que ela se sentisse segura.

Por isso me proibira de vender o vestido.

Não era apego sentimental.

Era a única maneira de manter o registro perto de mim sem revelar que ele existia.

Uma lembrança voltou com tanta nitidez que quase senti o cheiro de chá e cola de encadernação da pequena oficina dela.

Eu tinha quinze anos quando perguntei por que deveria guardar uma peça cara enquanto faltava dinheiro para pagar a eletricidade.

Minha avó segurou meu rosto e respondeu que algumas coisas não tinham valor porque podiam ser vendidas, mas porque um dia poderiam devolver nosso nome.

Na época, achei que ela falava da dignidade do trabalho.

Agora compreendia que falava literalmente.

— Isso não prova que ela é a criança mencionada — Lady Eleanor insistiu. — Beatrice poderia ter entregado o vestido a qualquer pessoa.

O comandante pediu minha permissão antes de se aproximar do documento.

Assenti.

Ele apontou para uma sequência de pequenas marcas próximas à data, não como quem revelava uma nova prova, mas como quem explicava a que já estava diante de todos.

Eram registros de características que os responsáveis pelo meu nascimento haviam anotado: uma pequena cicatriz curva perto do ombro esquerdo, causada durante um procedimento realizado poucas horas depois do parto, e uma deformação discreta no dedo mínimo da mão direita.

Eu sempre tivera as duas marcas.

Minha avó dizia que a cicatriz vinha de uma infecção infantil e que meu dedo torto era herança de família.

O comandante não precisou mandar que eu mostrasse nada.

Afastei a alça rasgada do vestido o suficiente para revelar a cicatriz e ergui a mão direita.

Vários convidados se levantaram para enxergar melhor.

Lady Eleanor fitou meu ombro e, pela primeira vez, perdeu completamente o controle da expressão.

Não era surpresa.

Era reconhecimento.

— Você já me viu antes — falei.

Ela não respondeu.

— Não hoje. Quando eu era criança.

Harrison olhou para a mãe.

A dúvida no rosto dele foi tão genuína que percebi que nem mesmo ele conhecia toda a história.

— Mãe? — murmurou.

Lady Eleanor apertou a bolsa contra o corpo.

— Não diga mais nada — ordenou.

— Você me disse que ela era filha de uma golpista.

— Cale-se.

Harrison soltou uma risada curta e nervosa.

— Você sabia que era verdade?

Lady Eleanor tentou caminhar em direção à saída, mas os soldados bloquearam o caminho sem encostar nela.

O comandante informou que ninguém deixaria o local até que os fatos daquela noite fossem registrados e que a tentativa de me levar pela saída de serviço fosse esclarecida.

Eu poderia ter permitido que ele assumisse tudo a partir dali.

Poderia ter saído cercada por soldados, trocado o vestido rasgado por roupas impecáveis e deixado que homens treinados transformassem minha vida em relatórios secretos.

Mas eu passara vinte e quatro anos sofrendo as consequências de decisões tomadas em meu nome.

Não aceitaria começar uma nova existência repetindo o mesmo padrão.

— Abram as portas internas — pedi. — Ninguém aqui será mantido pela força.

O comandante hesitou.

— Alteza, há risco de fuga.

— Então registrem quem decidir fugir diante de quinhentas testemunhas.

As portas foram liberadas.

Ninguém saiu.

Até os convidados que haviam erguido taças durante minha humilhação permaneceram imóveis, talvez por curiosidade, talvez por medo de que a própria pressa os transformasse em cúmplices.

Apontei para Harrison.

— Tire a manga debaixo do meu sapato e fique de pé.

Ele obedeceu, massageando o braço.

— Você sabia que havia algo no vestido, organizou a falsa acusação e mandou que me levassem para uma van — falei. — Quem contou sobre o compartimento?

Harrison encarou a mãe.

Lady Eleanor permaneceu em silêncio.

— Ela encontrou uma fotografia antiga de Beatrice usando o vestido — ele disse, finalmente. — Havia uma anotação sobre o registro costurado na barra.

— Onde estava essa fotografia?

— Nos arquivos privados do meu pai.

A resposta alterou o ar do salão.

Se o pai de Harrison guardara aquela informação, a família Cole sabia havia anos que minha avó protegera documentos dentro do vestido.

Lady Eleanor percebeu que o filho acabara de destruir sua última defesa.

— Você é um ingrato — ela sussurrou.

— Você disse que era apenas uma fraude antiga — Harrison respondeu. — Disse que pegaríamos o documento e ela voltaria para o apartamento miserável de onde veio.

— E isso justificaria rasgar minhas roupas e me entregar a homens escondidos numa van? — perguntei.

Ele não conseguiu me encarar.

Khloe começou a chorar.

— Eu não sabia da van até chegar aqui — disse. — Harrison falou que os homens só pegariam o vestido e a colocariam num táxi.

— Mas sabia que a acusação era falsa.

— Sabia.

— E fez mesmo assim.

Ela assentiu.

Não senti prazer em vê-la quebrar diante de todos.

Durante anos, Khloe usara a segurança financeira da família para me tratar como se pobreza fosse uma falha moral.

Naquela noite, porém, ela também descobria que Harrison a considerava descartável.

Isso não a tornava inocente.

Apenas tornava a verdade menos confortável.

Lady Fiona, que até então fingira estar passando mal perto da mesa principal, tentou deslizar um pedaço de papel para dentro da bolsa.

Reconheci o veludo do envelope que chegara ao meu apartamento.

— Esse convite é meu — falei.

Ela congelou.

O comandante retirou o envelope de suas mãos e o entregou a mim.

Lady Fiona admitiu que recebera ordens para permitir minha entrada, colocar meu nome na Mesa 89 e garantir que os seguranças me conduzissem exclusivamente pela saída de serviço caso surgisse qualquer confusão.

Ela jurou não saber sobre a van.

Talvez fosse verdade.

Talvez todos naquela cadeia tivessem aceitado conhecer apenas a parte do plano necessária para cumprir sua função.

Era assim que pessoas poderosas transformavam crueldade em procedimento: dividindo-a em pequenas tarefas para que ninguém se sentisse responsável pelo resultado inteiro.

Lady Eleanor percebeu que não recuperaria o controle pela negação.

Então tentou negociar.

— Josephine, podemos resolver isso de maneira reservada — disse, mudando de tom. — Seu reconhecimento pode ser formalizado, os bens podem ser devolvidos e tudo o que você sofreu será compensado.

— Em troca de quê?

— Discrição.

— Quer que eu finja que foi um mal-entendido.

— Quero evitar uma crise que destruiria instituições inteiras.

Olhei ao redor.

Havia marcas dos meus sapatos no piso, vinho no vestido, madeira quebrada perto das portas e dois seguranças olhando para os próprios dedos, como se finalmente percebessem a força que haviam usado contra meus braços.

— A crise começou quando decidiram que minha vida valia menos do que a reputação de vocês — respondi. — O silêncio só faria com que ela continuasse invisível.

Lady Eleanor se aproximou um passo.

— Você não conhece o mundo para o qual está prestes a entrar.

— Conheço pessoas que escondem danos sob capas bonitas.

Segurei o pergaminho estabilizado sobre o linho.

— Passei a vida restaurando coisas que homens importantes estragaram e depois abandonaram. A diferença é que, desta vez, eu posso perguntar quem causou o rasgo.

O comandante informou que Lady Eleanor, Harrison e os homens encontrados perto da van seriam mantidos sob custódia até que uma investigação independente examinasse a tentativa de sequestro e a manipulação dos registros sobre meu desaparecimento.

Khloe e Lady Fiona permaneceriam como testemunhas, sem garantia de que escapariam das consequências pelas próprias escolhas.

Não pedi punições específicas.

Também não ofereci perdão público para parecer generosa.

A verdade daquela noite não precisava de uma frase elegante para se tornar suportável.

Precisava de registro, testemunhas e tempo.

Quando Lady Eleanor passou por mim, cercada por guardas, inclinou-se o suficiente para falar sem que os convidados ouvissem.

— Você acha que venceu porque eles se ajoelharam.

— Não — respondi. — Eu venci quando mandei que se levantassem.

Ela foi levada sem dizer mais nada.

O salão permaneceu em silêncio mesmo depois que Harrison desapareceu pelo corredor.

Alguns convidados tentaram se aproximar para pedir desculpas.

Uma mulher que rira quando fui colocada na Mesa 89 afirmou que apenas acompanhara os outros porque não entendera o que estava acontecendo.

Um homem que levantara a taça durante minha expulsão disse que pensara que tudo fazia parte de uma apresentação.

Não discuti com nenhum deles.

Pedi apenas que dessem seus nomes e descrevessem exatamente o que tinham visto, inclusive o próprio comportamento.

Muitos hesitaram diante dessa última parte.

Ainda assim, um a um, começaram a falar.

Os dois seguranças que haviam torcido meus braços admitiram que Harrison ordenara força suficiente para rasgar o vestido e que Lady Fiona insistira para que não usassem a entrada principal.

Um garçom contou ter ouvido Harrison perguntar se a van estava posicionada.

Uma funcionária da cozinha confirmou que Khloe ensaiara o tropeço duas vezes num corredor vazio antes de derramar o vinho.

A verdade não surgiu como uma revelação única.

Veio em fragmentos, cada um pequeno demais para explicar tudo, mas fortes quando colocados na ordem correta.

Era exatamente assim que eu restaurava um livro destruído.

Primeiro, reunia as partes.

Depois, descobria quais bordas realmente pertenciam umas às outras.

Pouco antes do amanhecer, o pergaminho foi colocado numa caixa de conservação provisória.

Recusei a limousine preparada para me levar dali e pedi alguns minutos sozinha na cozinha.

Sentei-me perto da mesma porta onde os seguranças haviam me lançado contra a parede horas antes.

Meus pulsos estavam inchados, a pele coberta de manchas roxas e o vestido pendia aberto na lateral.

Angelo apareceu na entrada, mas não avançou.

— Posso entrar?

Quatro anos antes, ele teria entrado sorrindo, colocado café diante de mim e começado a explicar qualquer coisa sem esperar resposta.

Agora aguardou.

— Pode.

Ele sentou-se do outro lado da mesa de metal.

Por um tempo, nenhum de nós falou.

— Eu não sei quem devo ser amanhã — confessei.

— Você não precisa decidir amanhã.

— Todos parecem achar que preciso.

— Todos passaram muito tempo decidindo por você.

A frase quase soou como um pedido de desculpas, mas ele não tentou usá-la para conseguir absolvição.

Perguntei se ainda me amava.

Angelo demorou a responder.

— Sim.

— Isso não conserta o que fez.

— Eu sei.

— E eu não sei se consigo confiar em você novamente.

— Eu sei disso também.

Tirei do bolso o bilhete que acompanhara o convite.

A tinta borrara um pouco com a chuva e o vinho, mas as palavras ainda estavam legíveis: use o vestido verde, estarei esperando por você.

— Você esperou quatro anos para me dizer a verdade — falei. — Agora será minha vez de decidir quanto tempo preciso.

Ele assentiu.

Não houve beijo, promessa eterna ou reconciliação conveniente.

Angelo saiu da cozinha quando pedi, deixando o bilhete sobre a mesa.

Nos meses seguintes, minha vida não se transformou num conto de fadas.

Passei por exames, entrevistas, audiências privadas e longas sessões em que pessoas desconhecidas tentavam explicar tradições que supostamente me pertenciam.

Os registros preservados no vestido foram confirmados, e a declaração de minha morte foi cancelada antes de entrar em vigor.

Lady Eleanor perdeu o controle do conselho, e a investigação revelou que documentos relacionados ao meu nascimento haviam sido escondidos, transferidos ou classificados de forma enganosa durante anos.

Harrison respondeu pela tentativa de me retirar à força e por organizar a armadilha no gala.

Khloe prestou depoimento completo e admitiu sua participação sem tentar transformar inveja em desculpa.

Meu senhorio não apagou a dívida dela porque, pela primeira vez, não havia favor poderoso capaz de reescrever o que todos tinham visto.

Eu mantive meu apartamento em Nova York por mais seis meses.

Não porque precisasse continuar ali, mas porque não queria abandonar cada parte da minha vida comum no instante em que alguém me oferecesse um quarto maior.

Também voltei à oficina de restauração.

Alguns clientes passaram a me tratar com uma reverência constrangedora, enquanto outros tentaram usar meu nome para promover coleções privadas.

Recusei ambos os extremos.

Eu ainda era a mulher que sabia retirar mofo de uma página sem destruir a tinta.

Um título não tornava minhas mãos mais habilidosas.

Apenas fazia mais pessoas observarem o que eu fazia com elas.

O vestido verde levou quase um ano para ser restaurado.

Eu mesma executei o trabalho, reforçando a seda rasgada sem esconder completamente as marcas daquela noite.

Mantive uma sombra discreta da mancha de vinho perto da barra e preservei a seção onde Harrison puxara o tecido.

Não queria que a peça parecesse intacta.

Intacto significaria fingir que nada acontecera.

Minha avó não me ensinara a apagar danos.

Ela me ensinara a impedir que eles destruíssem o restante.

No primeiro aniversário do gala, organizei uma pequena exposição de livros restaurados por profissionais que trabalhavam sem reconhecimento em oficinas modestas.

Não houve tronos, desfiles nem convidados obrigados a se curvar.

Na entrada, dentro de uma caixa simples, coloquei o vestido verde e o pergaminho que ele protegera.

Ao lado, deixei apenas uma frase escrita por minha avó sobre devolver nomes às coisas que o tempo tentara apagar.

Angelo compareceu usando um casaco comum e ficou perto da porta, sem tentar chamar minha atenção.

Durante aquele ano, ele respondera a todas as perguntas que fizera, entregara os registros de sua investigação e aceitara cada limite que estabeleci.

Ainda não confiava nele como antes.

Talvez nunca confiasse da mesma maneira.

Mas confiança restaurada não deveria parecer uma cópia perfeita do original.

Ela precisava mostrar onde havia sido rompida e por que agora podia suportar peso novamente.

Quando a exposição terminou, caminhei até ele e devolvi o antigo bilhete dentro de um envelope novo.

No verso, escrevi apenas uma linha.

Desta vez, não desapareça.

Angelo leu, ergueu os olhos e esperou que eu desse o primeiro passo.

Eu dei.

Não como a princesa perdida que sessenta soldados finalmente haviam encontrado, nem como a mulher humilhada que quinhentos bilionários viram ser arrastada para a chuva.

Caminhei como Josephine Harrington, restauradora de livros, neta de Beatrice e dona do nome que tentaram esconder dentro da barra de um vestido.

Desta vez, ninguém decidira onde eu deveria sentar, por qual porta deveria sair ou qual verdade eu estava preparada para conhecer.

E quando Angelo perguntou para onde iríamos, respondi que ele podia caminhar ao meu lado.

O destino, porém, seria escolhido por mim.

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