Ele Acreditou Que Era Só Uma Vingança Até Descobrir Quem Ela Beijou-dieuphuong

Dois dias depois de transformar um desconhecido em seu falso marido diante de duas famílias, Daniela Arriaga recebeu uma pasta que poderia mudar completamente o significado daquele beijo. Adrián Salgado havia colocado o envelope sobre a mesa e agora esperava que ela descobrisse por conta própria o motivo de ele conhecer detalhes demais sobre sua vida.

Daniela ficou alguns segundos olhando para a pasta fechada.

O escritório de Adrián era exatamente como ela imaginava que seria: organizado, discreto e sem nada que parecesse colocado ali por acaso.

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Ela passou o polegar pela borda do papelão e finalmente abriu.

Não encontrou fotografias de Mateo Villarreal com Renata Vega.

Também não encontrou uma ameaça, uma chantagem ou qualquer documento que pudesse ser usado para destruir o ex-noivo.

Havia uma proposta.

— Durante alguns meses, vamos fingir que estamos juntos — disse Adrián.

Daniela ergueu os olhos.

— Você está falando sério?

— Estou.

Ele não parecia constrangido com a ideia.

Na verdade, parecia ter pensado nela muito antes de Daniela entrar naquele escritório.

— Você ganha proteção contra Mateo e a família dele — continuou. — Eu ganho uma vantagem estratégica contra os Villarreal.

Ela fechou a pasta parcialmente.

— Então é isso? Um acordo empresarial disfarçado de relacionamento?

— Não precisa ser disfarçado para mim.

Daniela soltou uma pequena risada, sem humor.

— Você realmente tem resposta para tudo.

— Não para tudo.

Adrián apoiou as mãos sobre a mesa.

— Só para aquilo que tive tempo de analisar.

A frase deveria tê-la irritado.

E irritou.

Mas também despertou uma pergunta que ela vinha tentando evitar desde a noite da festa.

Por que Adrián Salgado tinha aceitado aquele beijo tão rapidamente?

Qualquer outro homem teria se afastado.

Ele não apenas permitira que ela o beijasse diante de dezenas de convidados; também colocara o braço em sua cintura e sustentara a mentira com uma segurança desconcertante.

Naquela noite, Daniela acreditara que ele simplesmente tinha aproveitado a oportunidade para enfrentar Mateo.

Agora já não tinha tanta certeza.

— Por que eu? — perguntou.

Adrián demorou a responder.

Foi a primeira vez que Daniela percebeu alguma hesitação nele.

— Porque muitos anos atrás você já me salvou uma vez.

Ela franziu a testa.

— Eu?

— Você.

— Eu nem conhecia você.

— Conhecia.

A resposta foi baixa, mas definitiva.

Daniela tentou procurar na memória alguma lembrança que pudesse combinar com aquele homem.

Nada.

Adrián abriu uma segunda parte da pasta e retirou uma folha antiga, dobrada cuidadosamente.

Não a entregou imediatamente.

Primeiro, olhou para Daniela.

— Antes de você descobrir o que aconteceu, precisa entender uma coisa.

Ela esperou.

— Seu pai não começou a construir os negócios da sua família sozinho.

Daniela sentiu a expressão mudar.

— O que isso tem a ver comigo?

— Mais do que você imagina.

Adrián então contou que, muitos anos antes, quando ainda era jovem e sua própria empresa estava começando, ele havia enfrentado um problema que quase o tirou dos negócios para sempre.

Naquela época, ele havia perdido acesso a informações importantes, dinheiro e contatos que poderiam sustentar seu primeiro grande projeto.

Uma decisão tomada por adultos que disputavam poder quase destruiu o futuro que ele estava tentando construir.

E havia uma noite específica da qual Adrián jamais se esquecera.

Uma noite em que uma menina apareceu no lugar errado, ouviu uma conversa que não deveria ter ouvido e tomou uma decisão simples.

Ela avisou alguém.

Esse aviso impediu que Adrián cometesse um erro que poderia ter encerrado sua carreira antes mesmo de ela começar.

— Essa menina era você — disse ele.

Daniela permaneceu imóvel.

— Não pode ser.

— Você tinha poucos anos.

— Eu não me lembro.

— Eu sei.

A tranquilidade dele tornou aquilo ainda mais perturbador.

Daniela pegou a folha.

Era uma cópia de um registro antigo, com nomes que ela reconhecia apenas parcialmente.

Um deles era o de seu pai.

Outro era o de Adrián.

Ela leu novamente.

— Por que meu pai nunca falou disso?

Adrián recostou-se na cadeira.

— Talvez porque ele não saiba que você se lembra de parte da história.

— Eu não me lembro.

— Talvez não conscientemente.

Daniela apertou o papel entre os dedos.

Aquela explicação não resolvia nada.

Pelo contrário.

Criava mais perguntas.

Se Adrián realmente conhecia sua família havia tantos anos, por que nunca tinha aparecido antes?

Por que esperara justamente aquela noite?

E por que o beijo de Daniela parecera tão conveniente para ele?

Ela colocou o documento sobre a mesa.

— Você sabia quem eu era antes de eu chegar até você na festa?

Adrián não respondeu imediatamente.

Daniela percebeu a pausa.

— Sabia.

— Desde quando?

— Antes daquela noite.

— Quanto antes?

Ele sustentou o olhar dela.

— Tempo suficiente.

A resposta fez Daniela se levantar.

— Então você me deixou beijar você sabendo exatamente quem eu era.

— Sim.

— E ainda aceitou fingir que era meu marido.

— Você precisava de uma saída.

— E você precisava de alguma coisa dos Villarreal.

— Sim.

Pelo menos ele não mentia.

Isso tornava tudo mais complicado.

Daniela caminhou até a janela do escritório e ficou olhando para fora.

Na noite da festa, ela havia pensado apenas em humilhar Mateo.

Agora começava a perceber que o beijo talvez tivesse aberto uma porta que já estava esperando por ela.

E alguém do outro lado daquela porta conhecia seu passado melhor do que ela própria.

Quando voltou para a mesa, Adrián ainda estava esperando.

— Qual é exatamente a vantagem que você quer contra os Villarreal? — perguntou.

Ele empurrou outro documento na direção dela.

Dessa vez, Daniela reconheceu alguns nomes imediatamente.

E sentiu o estômago apertar.

Eram pessoas ligadas a negócios que seu pai vinha discutindo havia meses.

— O grupo Villarreal está tentando assumir uma posição que não consegue sustentar sozinho — explicou Adrián. — Seu casamento com Mateo faria essa estrutura parecer muito mais sólida.

— E se eu não casar com ele?

— A estrutura fica mais fraca.

— Então meu casamento era parte de uma estratégia empresarial.

— Desde o começo.

Daniela lembrou das palavras da mãe.

Você não está se casando apenas com um homem.

Está garantindo o futuro da família.

Pela primeira vez, aquela frase adquiriu um significado diferente.

Talvez Teresa soubesse mais do que dizia.

Talvez Mateo também.

Talvez todos naquela festa estivessem olhando para Daniela como uma peça de um acordo que ela nunca teve permissão para questionar.

Adrián interrompeu seus pensamentos.

— Se você voltar para Mateo, tudo continua como estava.

Daniela olhou para ele.

— E se eu aceitar seu acordo?

— Sua família terá que reagir.

— Minha mãe vai me pressionar.

— Provavelmente.

— Mateo vai tentar me reconquistar.

— Com certeza.

— E você?

Adrián permaneceu em silêncio por um instante.

— Eu vou fazer todos acreditarem que você me escolheu.

Daniela cruzou os braços.

— E se eles acreditarem?

— Então Mateo perde a principal coisa que ainda pode usar contra você.

— Qual?

— A ideia de que você vai voltar.

Aquilo atingiu Daniela de uma maneira inesperada.

Porque, desde o beijo na varanda, ninguém havia perguntado o que ela queria.

Sua mãe queria uma reconciliação.

Mateo queria recuperar a aparência do relacionamento.

Os Villarreal queriam o casamento.

Os negócios queriam a aliança.

E agora Adrián queria um acordo.

Mas, pela primeira vez, alguém colocava a escolha nas mãos dela.

Daniela voltou a se sentar.

— Quanto tempo?

— Alguns meses.

— E depois?

— Depois cada um segue seu caminho, se ainda quiser.

Ela estudou o rosto dele.

— Você já pensou em tudo.

— Não.

— Parece que sim.

— Pensei no que poderia impedir que você fosse obrigada a voltar para Mateo.

— Isso não é exatamente altruísmo.

— Nunca disse que era.

Daniela quase sorriu.

Quase.

— Certo — disse ela. — Eu aceito.

Adrián não comemorou.

Apenas estendeu a mão.

Ela apertou.

O acordo estava feito.

Mas o primeiro problema apareceu antes mesmo de Daniela deixar o escritório.

Seu celular vibrou.

Era uma mensagem de sua mãe.

Teresa queria vê-la naquela mesma noite.

Daniela mostrou a tela a Adrián.

— Parece que minha família recebeu a notícia antes de mim.

Adrián olhou para a mensagem.

— Não.

— Não?

— Eles receberam outra notícia.

— Qual?

Ele pegou o próprio celular e mostrou uma publicação que já começava a circular entre os convidados da festa.

Uma fotografia de Daniela beijando Adrián.

A imagem tinha sido tirada no instante exato em que Mateo estava diante dos dois.

Daniela sentiu o rosto esquentar.

— Quem tirou isso?

— Ainda não sei.

— Então você não controla tudo.

— Não.

Adrián guardou o celular.

— Mas sei quem está se beneficiando dela.

Daniela ficou séria.

— Mateo?

— Talvez.

— Você disse que queria usar isso contra os Villarreal.

— Quero.

— Então por que parece preocupado?

Adrián finalmente mostrou uma expressão diferente.

Não era medo.

Era cautela.

— Porque aquela foto não é o problema.

Daniela esperou.

— O problema é o que aconteceu antes de alguém tirar a foto.

Ela não entendeu.

Adrián abriu uma mensagem antiga no celular.

Havia uma informação sobre a festa, enviada antes do evento.

Uma informação que só algumas pessoas poderiam ter.

Daniela leu.

Depois olhou para ele.

— Você sabia que Mateo encontraria Renata naquela varanda?

Adrián não respondeu.

Daniela levantou-se lentamente.

— Você sabia?

— Eu suspeitava.

— E não me avisou?

— Se eu tivesse avisado, você talvez tivesse ido embora antes de descobrir quem Mateo realmente era.

Daniela sentiu a raiva crescer.

— Então você deixou acontecer.

— Não.

— Mas sabia.

— Sabia que alguma coisa estava sendo preparada. Não sabia exatamente o que aconteceria.

Ela apontou para a pasta.

— E tudo isso?

— É justamente por isso que eu queria falar com você.

Daniela respirou fundo.

O acordo que parecera uma saída simples começava a revelar outra coisa.

Adrián não estava apenas entrando na vida dela depois de uma traição.

Ele já estava investigando o terreno ao redor dela.

E talvez soubesse que sua família escondia mais do que Daniela jamais imaginara.

Naquela noite, ela foi encontrar Teresa.

Sua mãe estava esperando em casa.

Assim que Daniela entrou, percebeu que a conversa seria diferente das outras.

Não havia bronca imediata.

Não havia tentativa de convencê-la a voltar para Mateo.

Teresa apenas perguntou:

— Você está mesmo com Adrián Salgado?

Daniela tirou a bolsa do ombro.

— Estou.

A resposta foi uma mentira.

Mas, naquele momento, era a mentira necessária.

Teresa fechou os olhos por alguns segundos.

— Você não sabe no que está entrando.

— Então me conte.

A mãe levantou o rosto.

— Não é tão simples.

— Nunca é quando alguém diz isso.

Teresa caminhou até um armário e abriu uma gaveta.

Retirou uma caixa antiga.

Daniela reconheceu imediatamente.

Era uma das caixas que pertenciam às coisas guardadas de sua infância.

— O que tem aí?

— Uma lembrança que eu deveria ter destruído há muitos anos.

Daniela sentiu o coração acelerar.

Teresa abriu a caixa.

Dentro havia fotografias antigas, documentos e um pequeno papel dobrado.

Ela pegou o papel.

— Seu pai me pediu para nunca falar sobre isso.

Daniela estendeu a mão.

— Sobre Adrián?

Teresa assentiu.

— Sobre a noite em que você o conheceu.

Daniela pegou o papel.

Dessa vez, a letra era familiar.

Era a letra de seu pai.

Ela começou a ler.

E entendeu por que Adrián havia dito que ela o salvara.

Mas havia uma diferença entre a versão dele e a versão registrada naquele papel.

Na lembrança de Adrián, Daniela havia impedido uma decisão que poderia destruir sua empresa.

Na anotação de seu pai, porém, o episódio tinha outra consequência.

A decisão não ameaçava apenas Adrián.

Também envolvia os Villarreal.

Daniela levantou os olhos para a mãe.

— O que vocês fizeram?

Teresa não respondeu.

— Mãe.

— Tentamos proteger você.

— De quem?

A mãe olhou para a fotografia que estava sobre a mesa.

Era uma imagem antiga de Daniela ainda criança.

E, ao fundo, quase escondido entre os adultos, estava Adrián.

Daniela reconheceu o rosto imediatamente.

Ele realmente estivera ali.

Anos antes.

Muito antes do beijo.

Muito antes de Mateo.

Muito antes de ela saber o nome Salgado.

Ela virou a fotografia.

No verso havia uma data e uma frase escrita à mão.

Daniela leu uma vez.

Depois outra.

A frase explicava por que Adrián jamais havia esquecido aquela noite.

E também revelava por que seu pai tinha medo de que os dois voltassem a se encontrar.

Daniela ergueu o olhar.

— Mãe, o que aconteceu naquela noite não terminou.

Teresa empalideceu.

— Não.

— Então quando Mateo entrou na minha vida…

A mãe interrompeu.

— Mateo não entrou por acaso.

Daniela ficou olhando para ela.

Foi naquele instante que a história deixou de ser sobre um noivo infiel e uma vingança pública.

Mateo podia ter traído Daniela.

Adrián podia estar usando o casamento falso para enfraquecer os Villarreal.

Mas havia uma história anterior aos dois.

E sua própria família estava no centro dela.

No dia seguinte, Daniela voltou ao escritório de Adrián.

Dessa vez, não levou apenas a pasta.

Levou a fotografia.

Colocou-a diante dele.

— Você sabia disso?

Adrián olhou para a imagem.

Sua expressão mudou apenas o suficiente para Daniela perceber que aquela fotografia não era uma surpresa completa.

— Eu sabia que ela existia.

— E por que nunca me contou?

— Porque eu queria que você escolhesse por vontade própria.

— Mesmo que sua escolha fosse contra você?

— Principalmente nesse caso.

Daniela ficou em silêncio.

Então percebeu algo que não havia entendido antes.

Adrián não precisava daquele acordo apenas para vencer Mateo.

Ele precisava saber se Daniela conseguiria olhar para o passado e ainda assim escolher o próprio futuro.

Ela colocou a mão sobre a fotografia.

— Então vamos fazer isso.

— O acordo?

— O acordo.

Ela respirou fundo.

— Mas com uma condição.

Adrián esperou.

— Dessa vez, ninguém decide por mim.

Ele assentiu.

— Fechado.

Daniela pegou a pasta, guardou a fotografia dentro dela e se levantou.

O casamento que sua família havia planejado ainda poderia ser desfeito.

O relacionamento falso que ela acabara de aceitar ainda poderia se tornar um desastre.

E Mateo certamente não desistiria tão facilmente.

Mas havia uma diferença agora.

Daniela finalmente sabia que o beijo naquela festa não tinha sido apenas uma vingança.

Tinha sido a primeira escolha que ela fizera sem pedir permissão a ninguém.

E, enquanto saía do escritório, percebeu que a verdadeira pergunta já não era se Adrián Salgado conseguiria ajudá-la a escapar de Mateo.

Era se ela estava pronta para descobrir por que sua família tinha passado tantos anos tentando impedir que os dois se encontrassem novamente.

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