Aos 2h17 da manhã, Anna arrancou o celular das mãos do marido antes que ele pudesse esconder o que estava fazendo. O aparelho ainda estava aberto na conversa que explicava por que ele vinha preparando seu chá todas as noites, registrando seu corpo enquanto ela dormia e guardando pequenos pedaços de seu pijama.
Até aquele instante, Anna ainda tentava decidir se estava diante de uma explicação assustadora ou de uma verdade muito pior.
Dererick ficou parado ao lado da cama.

“Me devolve o celular.”
A voz dele estava baixa.
Não havia mais o tom cuidadoso que usava quando perguntava se ela tinha comido ou quando colocava a xícara de camomila na mesa de cabeceira.
Anna apertou o aparelho com as duas mãos.
“Por quê?”
Ele não respondeu imediatamente.
Aquela hesitação foi suficiente.
Ela deslizou o dedo pela conversa e encontrou datas.
Várias.
Algumas correspondiam exatamente às noites em que acordara com a cabeça pesada, a memória falhando e uma sensação estranha de ter passado horas fazendo alguma coisa que não conseguia recordar.
Ao lado das datas havia instruções curtas.
Imagens.
Tecido.
Horário.
Ângulo.
Tudo aquilo estava organizado como se as noites em que Dererick permanecera em casa fizessem parte de uma rotina planejada.
Anna sentiu o estômago apertar.
“Isso é sobre mim?”
Dererick respirou fundo.
“Anna, você não entende.”
“Então explica.”
Ele deu um passo na direção dela.
Anna recuou para o outro lado da cama sem soltar o celular.
Foi a primeira vez naquela noite que os dois deixaram de fingir que ainda estavam tendo uma conversa normal de marido e mulher.
Durante quase um mês, Dererick havia preparado chá de camomila para ela praticamente todas as noites.
Sempre com a mesma justificativa.
Ela trabalhava demais.
Precisava descansar.
Precisava dormir melhor.
Ele dizia aquilo com uma preocupação tão convincente que Anna se sentia até culpada por desconfiar.
Ela tocava uma empresa de design gráfico e vinha enfrentando dias longos por causa de um projeto importante.
Cansaço parecia uma explicação simples.
Era muito mais confortável acreditar nisso do que considerar que a pessoa ao seu lado poderia estar provocando deliberadamente aquilo que ela sentia.
Mas três semanas antes, algo começou a não fazer sentido.
Quando Dererick dormia em casa, Anna acordava pesada e confusa.
Quando ele viajava, ela dormia normalmente.
Não era uma diferença pequena.
Ela conseguia passar o dia seguinte sem aquela névoa persistente.
Não havia roupas desalinhadas de um jeito inexplicável.
Não havia marcas que ela não soubesse explicar.
Não havia conversas das quais se lembrasse apenas porque outra pessoa contava que elas tinham acontecido.
A ligação de Clare foi o primeiro aviso que Anna não conseguiu ignorar.
A irmã ligou numa terça-feira de manhã.
“Anna, você está bem?”
“Estou. Por quê?”
Clare ficou alguns segundos em silêncio.
“Você estava muito estranha ontem à noite.”
Anna parou de digitar.
“Como assim?”
“Parecia meio dormindo. Ou bêbada.”
“Eu não estava bebendo.”
“Eu sei. É justamente por isso que estou perguntando.”
Clare contou que elas haviam conversado por quase dez minutos.
Anna não lembrava de nenhum daqueles minutos.
A última lembrança daquela noite era Dererick entregando a xícara.
Depois, nada.
A partir dali, Anna decidiu testar uma única variável.
O chá.
Na primeira noite em que recusou a bebida, dormiu normalmente.
Na noite seguinte, tomou.
A névoa voltou.
Ela começou a prestar atenção em tudo.
Uma noite reclamou de dor de cabeça e não aceitou nada que Dererick ofereceu.
Ele permaneceu no andar de baixo por mais de uma hora.
Quando finalmente entrou no quarto, parecia irritado.
Disse que estava tudo bem.
Mas não estava.
Pouco depois, Anna percebeu novas marcas inexplicáveis nos braços e nas pernas.
Dererick examinou uma delas com uma expressão de marido preocupado.
“Talvez você esteja andando dormindo.”
Depois sugeriu que ela fizesse alguns exames.
Durante algum tempo, aquilo quase funcionou.
Anna começou a duvidar de si mesma.
Talvez estivesse realmente exausta.
Talvez estivesse ficando paranoica.
Talvez o estresse estivesse transformando coincidências em provas.
Até que ela despejou o chá na pia.
Naquela noite, tudo mudou.
Anna fingiu que havia bebido.
Deitou-se.
Fechou os olhos.
E esperou.
Às 2h17, Dererick entrou na parte do quarto ao lado da cama.
“Bons sonhos, Anna.”
Ele estava usando luvas de látex.
Uma pequena câmera foi ajustada na direção da cama.
Depois veio a bolsa preta.
De dentro dela, ele tirou um caderno.
Em seguida, uma tesoura.
Anna permaneceu imóvel.
Dererick segurou a barra de sua roupa e cortou um pequeno pedaço do tecido.
Guardou o fragmento em um saco plástico transparente.
Depois fotografou seu braço.
Uma imagem.
Outra.
Mais uma.
Naquele momento, Anna ainda não sabia para que serviam aquelas fotografias.
Mas agora o celular estava em suas mãos.
E a conversa começava a responder algumas perguntas.
A mensagem mais recente terminava com uma instrução sobre o mesmo ângulo e sobre a necessidade de guardar também o tecido.
A mensagem anterior dizia algo ainda mais preocupante.
Às sete da manhã, Dererick deveria levar o caderno, os pedaços de tecido e um formulário de consentimento já assinado.
Anna leu novamente.
Sete da manhã.
Consentimento.
Assinado.
Ela ergueu os olhos.
“Eu não assinei isso.”
Dererick ficou em silêncio.
“Anna…”
“Eu não assinei nada.”
“Você não está entendendo o contexto.”
“Então me explica o contexto.”
Ele olhou para o celular.
Depois para o caderno.
Foi aí que Anna percebeu uma coisa que não havia entendido durante as últimas semanas.
O caderno não era apenas um registro do que acontecia.
Ele parecia ter sido montado para transformar aquilo em uma sequência organizada.
As datas estavam alinhadas com as noites em que Dererick estivera em casa.
Havia pequenas marcações ao lado de cada uma.
Anna se aproximou da cama e pegou o caderno antes que ele pudesse impedir.
Folheou as páginas.
As datas coincidiam.
Não apenas algumas.
Várias.
Ela reconheceu uma delas pela manhã em que Clare havia perguntado se estava bem.
Outra correspondia à noite em que acordara com uma marca no braço.
Outra era de uma sexta-feira em que passara horas sem conseguir organizar os próprios pensamentos.
A explicação estava diante dela.
Só faltava saber por quê.
“Quem está recebendo isso?”
Dererick apertou a mandíbula.
“Não é o que você está pensando.”
“Você me sedava?”
Ele não respondeu.
Anna sentiu o peito apertar.
A falta de resposta era mais assustadora do que qualquer desculpa.
“Você colocou alguma coisa no meu chá?”
“Eu nunca quis machucar você.”
Anna ficou olhando para ele.
A frase parecia cuidadosamente escolhida.
Não dizia que ele não havia colocado nada.
Não dizia que as noites tinham sido normais.
Não dizia que as fotografias não existiam.
Dizia apenas que ele não queria machucá-la.
“Então você sabia que podia acontecer alguma coisa comigo.”
“Anna, escuta.”
“Não.”
Ela levantou o celular.
“Agora você escuta.”
Dererick tentou se aproximar outra vez.
Anna ergueu uma das mãos.
“Fica aí.”
Ele parou.
A mudança foi pequena, mas importante.
Pela primeira vez, era Anna quem estabelecia a distância entre os dois.
Ela voltou à conversa.
Havia mensagens anteriores.
Algumas eram curtas demais para explicar tudo.
Outras indicavam que aquilo vinha sendo planejado havia algum tempo.
O que mais a perturbou não foi encontrar as datas.
Foi perceber que alguém do outro lado da conversa conhecia detalhes que apenas Dererick poderia ter fornecido.
As mensagens falavam do horário.
Do tecido.
Das imagens.
Da posição do braço.
E agora exigiam um formulário.
Anna olhou para o documento que ainda estava parcialmente escondido entre as páginas do caderno.
Pegou a folha.
O papel já estava preenchido.
Havia uma assinatura.
Ela aproximou o rosto.
Não precisava ser especialista para reconhecer o próprio nome.
Mas reconhecer não significava aceitar.
A assinatura parecia a dela.
E isso tornava tudo ainda pior.
“Você assinou por mim?”
Dererick desviou os olhos.
Foi a resposta que ela precisava.
Anna colocou o formulário sobre a cama.
Depois segurou o celular mais perto do corpo.
“Você falsificou minha assinatura?”
“Eu precisava entregar a documentação.”
“Para quem?”
Ele não respondeu.
“Para quem, Dererick?”
Dessa vez, ele fechou os olhos por um instante.
Quando abriu, parecia menos um marido tentando acalmar a esposa e mais alguém tentando decidir qual versão da história ainda poderia controlar.
“Era um procedimento.”
“Que procedimento?”
“Eu não posso explicar tudo agora.”
Anna soltou uma risada curta, sem humor.
“Você conseguiu preparar um caderno, uma câmera, sacos para guardar tecido e um formulário com uma assinatura que eu não fiz. Mas não conseguiu preparar uma explicação?”
Ele permaneceu quieto.
Anna olhou para a câmera.
Depois para a bolsa.
Depois para o caderno.
Aquela sequência de objetos tinha mudado de significado.
O chá que parecia cuidado agora era suspeita.
O caderno que poderia parecer uma anotação pessoal agora era parte de algo maior.
A câmera que poderia ser apenas um dispositivo qualquer estava apontada para a cama.
E o pedaço de pijama dentro do saco plástico não era um acidente.
Tudo tinha uma função.
Só faltava descobrir qual.
Dererick tentou recuperar o celular mais uma vez.
Anna afastou a mão.
“Não.”
Ele respirou fundo.
“Se você continuar lendo, vai interpretar tudo errado.”
“Já estou interpretando o que você fez.”
“Você não sabe o que estava acontecendo com você.”
Anna congelou.
A frase tinha sido dita rápido demais.
Ela voltou os olhos para ele.
“O que você acabou de dizer?”
Dererick percebeu o próprio erro.
“Eu quis dizer que você não sabe o que estava acontecendo.”
“Não. Você disse que eu não sei o que estava acontecendo com você.”
Ele não respondeu.
Anna sentiu uma nova pergunta surgir.
Talvez o chá não fosse o objetivo final.
Talvez as noites em que ela ficava confusa fossem apenas uma parte de algo que Dererick estava tentando documentar.
Mas por quê?
Ela abriu novamente a conversa.
Havia uma mensagem mais antiga que ainda não tinha lido.
Dessa vez, o texto era mais longo.
Anna leu devagar.
Depois leu novamente.
O remetente perguntava se Dererick tinha conseguido manter o mesmo procedimento durante todas as noites.
Perguntava se Anna havia percebido alguma coisa.
E pedia que ele não alterasse o padrão antes da próxima etapa.
Anna levantou os olhos.
“Próxima etapa?”
Dererick não respondeu.
“Qual próxima etapa?”
Ele ficou olhando para ela.
Foi então que Anna percebeu que o medo dele não era apenas de ser descoberto.
Era de perder alguma coisa que ainda esperava receber às sete da manhã.
Ela olhou para o relógio.
Ainda faltavam algumas horas.
Pela primeira vez, o horário deixou de parecer uma simples informação.
Era um prazo.
E o prazo estava se aproximando.
Anna pegou o caderno.
Passou o polegar pela borda das páginas.
No final havia uma folha diferente das demais.
Não continha as mesmas anotações.
Era uma espécie de lista.
Caderno.
Tecido.
Imagens.
Formulário.
Entrega às sete.
Ao lado da última linha havia uma pequena marca.
Anna não sabia o que significava.
Mas percebeu que era a única anotação daquela página feita depois das outras.
“Você escreveu isso hoje?”
Dererick não respondeu.
“Você escreveu?”
“Sim.”
“Por quê?”
“Porque eu precisava lembrar do que levar.”
Anna apertou os lábios.
“E depois da entrega?”
Ele olhou para a bolsa preta.
“Depois, isso acaba.”
A resposta não trouxe alívio.
Trouxe outra dúvida.
O que exatamente acabaria?
As fotografias?
O chá?
A coleta de tecido?
As noites em que ela acordava sem memória?
Ou alguma coisa que ainda nem havia começado?
Anna se levantou da cama.
Dererick imediatamente deu um passo para trás.
Ela pegou o saco plástico com o pedaço do pijama.
Depois o caderno.
Por último, o formulário.
“Você vai comigo.”
Ele franziu a testa.
“Para onde?”
“Você sabe.”
“Anna, não faça isso.”
“Você queria entregar isso às sete da manhã. Então nós vamos descobrir o que acontece às sete.”
Dererick tentou argumentar.
Disse que ela estava assustada.
Disse que precisava dormir.
Disse que a conversa poderia esperar.
Mas Anna já tinha ouvido aquelas frases de outras formas durante semanas.
Descanse.
Você está cansada.
Talvez esteja andando dormindo.
Faça alguns exames.
Não era mais suficiente.
Ela colocou o celular no bolso.
Então fez algo que Dererick não esperava.
Devolveu a ele apenas a bolsa preta.
“Leva.”
Ele segurou a alça.
“E o celular?”
“Fica comigo.”
“Anna…”
“Se você realmente não queria me machucar, não deveria ter medo de eu descobrir a verdade.”
Dererick ficou parado.
A resposta dele demorou.
Quando finalmente falou, sua voz estava diferente.
“Você vai se arrepender de abrir essa conversa inteira.”
Anna olhou diretamente para ele.
“Talvez.”
Ela colocou o caderno debaixo do braço.
“Mas não vou mais me arrepender de não ter aberto.”
Dererick não tentou impedi-la.
Ainda não.
E isso foi o que mais preocupou Anna.
Porque, se ele realmente acreditava que tinha uma explicação capaz de justificar tudo, por que parecia tão preocupado com o que ela descobriria antes das sete?
Ela deixou o quarto.
No corredor, parou por alguns segundos.
Não para voltar.
Para olhar novamente o celular.
Havia uma última notificação.
Uma nova mensagem havia acabado de chegar.
Anna abriu.
Leu a primeira linha.
Depois a segunda.
E então percebeu que o problema nunca tinha sido apenas o que Dererick fazia enquanto ela dormia.
O problema era que alguém já estava esperando o resultado.
E essa pessoa sabia exatamente quando ele deveria chegar.
Anna fechou a tela.
Dessa vez, não apagou a mensagem.
Guardou o aparelho.
O caderno continuava debaixo do braço.
O formulário estava dobrado na outra mão.
E o pedaço de tecido, que poucas horas antes parecia insignificante, agora era a única coisa na casa que ela tinha certeza de que não deveria entregar a ninguém.
Às sete da manhã, Dererick deveria levar tudo.
Mas Anna já tinha decidido que, antes disso, descobriria para onde aquelas coisas deveriam ir.
E quando finalmente encontrou a informação escondida no histórico da conversa, percebeu que a pergunta havia mudado completamente.
Já não era apenas por que o marido colocava alguma coisa em seu chá.
Era quem precisava provar alguma coisa sobre Anna — e por que Dererick estava disposto a fazer isso sem que ela soubesse.