O cano da pistola continuava apontado para o meu peito quando percebi que não tinha mais espaço para fingir que aquela era apenas uma contratação perigosa.
Dominic Rossi segurava a arma com a mão esquerda, enquanto o ombro direito permanecia coberto por curativos escuros e encharcados. A respiração dele era curta. O rosto estava febril. Ainda assim, havia força suficiente naquele olhar para deixar claro que ele não estava acostumado a ouvir recusas.
Eu mantive as mãos afastadas do corpo.

— Se queria que eu fosse embora, não precisava apontar uma arma — falei.
Os olhos cinzentos dele se estreitaram.
— Seis enfermeiras já entenderam isso.
— Seis enfermeiras foram embora.
A resposta pareceu irritá-lo mais do que deveria.
Meu olhar passou rapidamente pelo quarto, sem desafiar a arma e sem demonstrar que estava procurando alguma coisa. Eu precisava continuar viva tempo suficiente para descobrir o que estava acontecendo com aquele ferimento.
A primeira coisa que eu havia aprendido trabalhando no pronto-socorro era simples: um paciente pode esconder dor, medo e até informações, mas o corpo quase sempre deixa alguma pista.
O corpo de Dominic estava deixando muitas.
Suor frio.
Pele pálida.
Respiração alterada.
Curativo saturado.
E aquele cheiro.
Não era apenas sangue antigo.
Havia algo errado com o ferimento.
— Seu ombro está piorando — falei.
— Não pedi uma avaliação.
— Seu corpo não precisa pedir.
Por um instante, o dedo dele permaneceu imóvel sobre o gatilho.
Então Dominic ergueu ligeiramente a arma.
— Você fala demais.
— E você está perdendo tempo.
Foi a primeira vez que algo diferente da raiva apareceu no rosto dele.
Desconfiança.
Ele não baixou a pistola.
Também não me mandou embora.
Isso já era alguma coisa.
Eu me ajoelhei devagar ao lado da minha bolsa, sem tirar os olhos dele, e abri o zíper apenas o suficiente para alcançar minhas luvas.
— Se eu tocar no curativo sem sua permissão, você pode me mandar sair depois — falei. — Mas se continuar sangrando desse jeito, talvez não tenha condições de mandar ninguém para lugar nenhum.
Dominic ficou olhando para mim.
— Você sabe quem eu sou?
— Sei o suficiente.
— Então sabe o que acontece com pessoas que me desafiam.
— Também sei o que acontece com pessoas que deixam uma infecção avançar.
A arma finalmente baixou alguns centímetros.
Não era confiança.
Era necessidade.
Eu me aproximei da cama.
O curativo estava pior do que parecia de longe. O tecido tinha absorvido sangue em vários pontos, e a região ao redor apresentava sinais que me deixaram ainda mais alerta.
Eu não podia diagnosticar tudo naquele quarto, mas sabia reconhecer quando uma situação ultrapassava o limite de um simples cuidado domiciliar.
— Preciso trocar isso — falei.
— Não.
— Então vou precisar que você me diga exatamente por que não.
Ele soltou uma risada curta, sem humor.
— Porque todos que tentam tocar em mim acabam se arrependendo.
— Isso explica as seis enfermeiras.
— Explica você também.
— Não. Ainda não.
Ele me encarou por alguns segundos.
Depois estendeu a mão armada para o lado e apontou a pistola para o colchão, ainda pronta para voltar ao meu peito.
Foi quando pedi:
— Posso ver o frasco?
O olhar dele mudou imediatamente.
Segui a direção do meu próprio olhar até a mesa de cabeceira.
O frasco de antisséptico estava aberto.
Eu o tinha visto assim que entrei, mas só agora conseguia observá-lo com atenção.
O líquido não parecia certo.
Eu conhecia aquele tipo de produto. Tinha usado antissépticos semelhantes incontáveis vezes no pronto-socorro. Aquele líquido deveria ser transparente.
Não era.
Dominic percebeu que eu estava olhando.
— O que foi?
— Há quanto tempo esse frasco está aqui?
— Não sei.
— Quem cuida dos seus curativos?
Ele demorou a responder.
— Pessoas da casa.
— Quais pessoas?
— Isso importa?
— Agora importa mais do que sua arma.
A expressão dele endureceu.
— Cuidado, enfermeira.
— Estou tendo.
Peguei o frasco apenas depois de ele fazer um pequeno gesto permitindo.
Não toquei no líquido.
Não precisava.
A alteração já era suficiente para me deixar desconfiada.
Mas ainda faltava uma coisa.
Eu precisava saber se aquela alteração era acidental ou fazia parte de alguma rotina.
E precisava descobrir sem avisar quem quer que estivesse envolvido.
— Quem preparou seu último curativo? — perguntei.
Dominic respondeu imediatamente:
— Leo.
O nome me fez lembrar do homem de terno que havia me recebido na entrada.
Leo administrava a propriedade.
Ele conhecia as regras.
Conhecia as enfermeiras anteriores.
Sabia que Dominic estava ferido.
E sabia exatamente onde eu estava naquele momento.
Mas isso não significava que ele fosse responsável por qualquer coisa.
Eu precisava de fatos.
— Ele troca seus curativos todos os dias?
— Quando quer.
— E você permite?
— Eu permito que ele faça o que é necessário.
— Então por que seu ombro está assim?
Dominic não respondeu.
Eu me aproximei mais um pouco.
— Quero retirar o curativo.
— Não.
— Dominic.
Foi a primeira vez que usei o nome dele.
A pistola voltou a subir.
— Não use meu nome como se me conhecesse.
— Não conheço.
Olhei diretamente para o ombro dele.
— Mas conheço esse tipo de infecção.
Ele permaneceu imóvel.
— Se você me matar, outra pessoa terá que descobrir por que seu ferimento não está cicatrizando. E, pelo que vi até agora, essa pessoa pode não ter a mesma curiosidade que eu.
A frase atingiu alguma coisa.
Dominic baixou os olhos por um segundo.
Foi o bastante.
Eu comecei a trabalhar.
Devagar.
Sem movimentos bruscos.
Sem fingir que a arma não estava ali.
Quando retirei parte do material, Dominic contraiu o maxilar, mas não reclamou.
O ferimento exigia atenção médica urgente.
Eu podia cuidar do que fosse possível naquele momento, mas havia um limite que nenhum salário conseguiria me fazer ignorar.
— Você precisa de atendimento profissional — falei.
— Não.
— Isso não é negociável.
— Tudo nesta casa é negociável.
— Seu corpo não.
Ele me encarou.
Eu sabia que estava chegando perto de uma linha perigosa.
Mas então percebi outra coisa.
Havia marcas no material usado anteriormente, pequenas alterações que não combinavam com uma troca cuidadosa de curativo.
Não era apenas negligência.
Parecia haver um padrão.
A cada nova observação, a história mudava.
Dominic não estava simplesmente recusando tratamento.
Ele estava aceitando cuidados de pessoas em quem talvez não pudesse confiar.
E alguém parecia estar garantindo que ele continuasse piorando.
— Você acha que alguém está tentando me matar? — ele perguntou.
A pergunta veio tão baixa que quase pareceu outra voz.
Eu parei.
Não por medo da arma.
Pelo significado daquela pergunta.
— Acho que alguém pode estar interferindo no seu tratamento.
— Isso não respondeu.
— Porque ainda não tenho prova suficiente para responder.
Dominic ficou me observando.
— As outras enfermeiras perceberam?
— Não sei.
— Você é a primeira a dizer isso.
— Talvez eu seja a primeira a olhar.
Ele se recostou na cama.
Por alguns segundos, nenhum de nós falou.
Dessa vez, porém, não havia desafio naquela pausa.
Havia cálculo.
Dominic estava tentando decidir se podia confiar em mim.
Eu estava tentando decidir se sobreviveria tempo suficiente para ajudá-lo.
A porta se abriu.
Leo apareceu.
— Está tudo bem aqui?
Dominic não respondeu.
Eu continuei trabalhando.
Leo olhou para o curativo aberto e depois para o frasco sobre a mesa.
Foi uma fração de segundo.
Mas eu vi.
O olhar dele parou no frasco.
Depois voltou para Dominic.
— A enfermeira está tendo dificuldades? — perguntou.
— Não — respondi antes que Dominic falasse.
Leo entrou mais um passo.
— O senhor Rossi não gosta de ser contrariado.
— Eu já percebi.
Ele olhou para mim.
— Talvez seja melhor seguir as instruções da casa.
Eu levantei os olhos.
— Estou seguindo as instruções médicas.
O maxilar dele ficou rígido.
Dominic percebeu.
E, pela primeira vez desde que entrei naquele quarto, ele não estava olhando apenas para mim.
Estava olhando para Leo.
— Saia — disse Dominic.
Leo pareceu surpreso.
— Senhor?
— Eu disse para sair.
Leo hesitou antes de obedecer.
A porta fechou.
Dominic voltou os olhos para mim.
— Continue.
Foi uma única palavra.
Mas mudou tudo.
Terminei o cuidado provisório e expliquei que ele precisava ser levado para avaliação médica. Dominic recusou no início, como eu esperava.
Então perguntei:
— Por que você não quer sair desta casa?
Ele ficou em silêncio.
— Não confia em hospital? — perguntei.
— Não confio em quem sabe que estou lá.
A resposta fez sentido de uma maneira que eu não queria que fizesse.
Se alguém estivesse tentando prejudicá-lo, qualquer deslocamento poderia ser uma oportunidade para outra pessoa interferir.
Mas permanecer naquela mansão também significava continuar sob o controle de quem preparava seus cuidados.
Dominic fechou os olhos por alguns segundos.
— Você precisa de uma coisa — falei.
Ele abriu os olhos.
— O quê?
— Alguém que possa confirmar o que está acontecendo sem depender das pessoas desta casa.
— E você conhece alguém?
— Conheço um serviço médico.
— Isso não é a mesma coisa.
— Não. É melhor.
Ele olhou para a arma.
Depois para mim.
— Se eu chamar alguém, todos vão saber.
— Então não chame todos.
A ideia ficou entre nós.
Eu não precisava de uma multidão.
Precisava de uma verificação independente e objetiva.
E precisava fazer isso antes que o próximo curativo fosse aplicado.
Dominic pegou o celular que estava sobre a mesa.
— Diga o que você precisa.
— Preciso que ninguém toque nesse ferimento até que outro profissional examine você.
— Isso inclui Leo.
— Principalmente quem você não consegue identificar como confiável.
Ele assentiu uma única vez.
Depois fez uma ligação.
Não disse quem era.
Não explicou tudo.
Apenas pediu orientação médica urgente.
Enquanto esperávamos, eu voltei ao frasco.
Dominic acompanhou meu olhar.
— Você tem certeza? — perguntou.
— Tenho certeza de que está diferente do que deveria estar.
— Isso significa que alguém tentou me envenenar?
— Não vou dizer isso sem saber o que há dentro.
Ele apertou os lábios.
— Então o que você acha?
— Acho que alguém mexeu em algo que deveria permanecer intacto.
E então ouvi passos no corredor.
Leo não havia voltado sozinho.
Uma segunda pessoa caminhava atrás dele.
Dominic imediatamente pegou a pistola outra vez.
Eu levantei uma mão.
— Não.
Ele me olhou.
— Por quê?
— Porque, se essa pessoa veio até aqui para verificar seu tratamento, apontar uma arma pode impedir que descubra o que precisamos saber.
— E se veio para terminar o serviço?
Eu olhei para a porta.
Depois para Dominic.
— Então precisamos descobrir antes de reagir.
A maçaneta começou a girar.
Dominic não baixou a arma.
Eu não me afastei da cama.
A porta abriu lentamente.
E a pessoa que entrou olhou primeiro para o curativo de Dominic, depois para o frasco aberto sobre a mesa.
O rosto dela mudou.
Não foi surpresa.
Foi reconhecimento.
Naquele instante, Dominic percebeu exatamente a mesma coisa que eu.
Aquela pessoa já tinha visto aquele frasco antes.
E sabia que ele não deveria estar daquele jeito.
Mas antes que qualquer um de nós pudesse perguntar alguma coisa, Leo fechou a porta atrás dela.
A pistola de Dominic voltou a apontar para o corredor.
E eu entendi que o problema nunca tinha sido apenas manter o chefe da máfia vivo.
Era descobrir quem, dentro daquela casa, precisava que ele morresse antes que alguém pudesse descobrir a verdade.