Ela Descobriu Dois Filhos Secretos No Processo De Adoção-milee

A assistente social ergueu os olhos do nosso dossiê de adoção e perguntou ao meu marido: “Vocês já têm dois filhos biológicos, senhor Larrieu, por que declarou que não tinha nenhum?”

A sala ficou silenciosa de um jeito que eu nunca tinha ouvido antes.

Não era o silêncio educado de uma pausa desconfortável.

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Era o silêncio que vem depois de uma porta ser trancada por fora.

Meu nome é Ariane Larrieu.

Tenho quarenta e um anos.

Durante onze anos, eu morei numa casa que comprei antes do casamento e, mesmo assim, fui tratada como visita dentro da minha própria vida.

A casa tinha janelas largas, paredes claras, uma cozinha onde o café de manhã deixava cheiro no corredor e um quarto no fim da casa que, por muito tempo, eu mantive fechado.

Não porque faltasse espaço.

Porque sobrava esperança.

Na minha família e na família de Luc, eu tinha virado a mulher que todo mundo olhava com pena antes de mudar de assunto.

Coitada da Ariane, que não engravidava.

Coitada da Ariane, que sorria quando alguém anunciava mais uma gravidez.

Coitada da Ariane, que fazia exames, tomava hormônios, ia a consultas cedo demais e voltava para casa com o corpo cheio de marcas pequenas e a alma cheia de perguntas enormes.

A mãe de Luc era especialista nesse tipo de crueldade calma.

Ela não precisava gritar.

Ela servia sobremesa, alisava o guardanapo no colo e dizia, como quem comenta o tempo:

— Um homem precisa deixar alguma coisa no mundo.

Luc sempre colocava a mão sobre a minha.

— Mãe, chega.

Só que o “chega” dele nunca era forte o bastante para interromper nada.

Era um gesto para mim, não uma defesa contra ela.

Durante anos, eu aceitei isso porque achava que ele também estava ferido.

Achava que nós dois estávamos perdendo a mesma coisa.

Essa é uma das mentiras mais perigosas do casamento: acreditar que a pessoa sentada ao seu lado está sofrendo pelo mesmo motivo que você.

Às vezes, ela só está observando o quanto você ainda aguenta sem perceber.

A rotina de tentativas virou um calendário paralelo.

Segunda-feira, exame de sangue.

Quarta, ultrassom.

Sexta, consulta.

No dia 12 de maio, às 8h30, eu assinei um formulário de autorização para mais uma bateria de exames.

No dia 27, às 16h10, recebi uma ligação dizendo que os resultados não explicavam tudo.

No mês seguinte, outro médico folheou minha pasta e disse que o problema “parecia vir de mim”, como se meu corpo fosse uma máquina defeituosa com uma peça faltando.

Luc estava ao meu lado.

Ele ouviu.

Ele abaixou os olhos.

Ele não corrigiu ninguém.

Quando entrávamos no carro, ele dizia:

— Não é culpa sua, meu amor.

Mas a frase vinha sempre atrasada.

Vinha depois do olhar.

Vinha depois do silêncio.

Vinha depois de ele deixar o mundo me apontar primeiro.

Quando a adoção surgiu, foi ele quem falou.

Nós estávamos na cozinha, numa noite de chuva fina, com a louça ainda na pia e o som do ventilador girando devagar.

Luc encostou no balcão e disse:

— A gente não pode deixar esse vazio comer a nossa casa.

Eu lembro exatamente dessa frase.

Lembro porque ela me pareceu bonita.

Lembro porque eu chorei.

Lembro porque ele me abraçou como se estivesse oferecendo uma saída, quando na verdade já estava construindo outra armadilha.

— Tem crianças precisando de amor — ele disse.

Naquela noite, eu acreditei nele.

Começamos o processo.

Preenchemos formulários.

Reunimos comprovantes de renda.

Tiramos certidões.

Organizamos fotos da casa.

Eu comprei uma pasta azul para guardar tudo por ordem, com etiquetas pequenas: documentos pessoais, comprovantes, fotos, entrevistas.

Luc riu quando me viu escrevendo as etiquetas.

— Você sempre leva tudo a sério demais.

Eu sorri.

— Alguém precisa.

Hoje, essa lembrança me fere de um jeito quase físico.

Porque eu levei a sério aquilo que ele estava usando contra mim.

Preparei o quarto amarelo com o cuidado de quem tem medo de assustar a própria felicidade.

Escolhi prateleiras brancas.

Comprei uma luminária em forma de lua.

Coloquei um tapete macio no chão.

Dobrei uma manta clara sobre a cama.

Na parede, deixei espaço para desenhos que ainda não existiam.

A cada objeto que entrava naquele quarto, eu sentia uma vergonha secreta de amar alguém que eu ainda não conhecia.

Era um amor prudente.

Um amor que entrava na casa na ponta dos pés.

A entrevista com a assistente social foi marcada para uma terça-feira, às 10h.

Chegamos quinze minutos antes.

Eu estava com uma blusa azul-clara, o cabelo preso e as mãos frias.

Luc estava calmo demais.

Eu achei que fosse confiança.

A sala era simples.

Mesa clara.

Duas cadeiras de um lado.

Uma cadeira do outro.

Uma garrafa de água no canto.

Uma janela deixando entrar luz de fim de manhã.

A assistente social era uma mulher de uns cinquenta anos, óculos finos e uma voz que parecia treinada para não assustar ninguém.

Ela nos recebeu com educação, abriu a pasta, conferiu nossos nomes e começou a repassar o dossiê.

Casa estável.

Renda compatível.

Casamento de longa duração.

Projeto amadurecido.

Quarto preparado.

Eu mostrei as fotos.

Quando ela viu a imagem do quarto amarelo, seus olhos suavizaram.

— Está muito bonito — ela disse.

Eu senti um pequeno orgulho subir na garganta.

Luc apertou minha mão por baixo da mesa.

Por alguns minutos, tudo pareceu possível.

Então ela virou uma página.

O som daquele papel ainda mora no meu ouvido.

Foi seco.

Pequeno.

Final.

O olhar dela parou numa linha.

Ela ficou imóvel por um instante.

Depois ergueu os olhos para Luc.

— Senhor Larrieu, vocês já têm dois filhos biológicos. Por que declararam que não tinham nenhum?

Eu achei que tinha ouvido errado.

A frase era absurda demais para entrar inteira.

Olhei para Luc, esperando que ele risse, franzisse a testa, pedisse explicação.

Ele não fez nada disso.

Ele apenas sorriu.

Um sorriso torto.

Um sorriso de homem pego antes da frase ensaiada.

— Deve ser algum erro administrativo — ele disse.

A assistente social não se mexeu.

Ela olhou de novo para o documento.

— Jules Barel-Larrieu, nascido em 3 de abril de 2016. Lison Barel-Larrieu, nascida em 18 de setembro de 2019. Reconhecimento de paternidade assinado por Luc Larrieu em cartório.

Cartório.

Reconhecimento.

Datas.

Nomes.

Não eram boatos.

Não eram suspeitas.

Eram registros.

A mentira tinha documento.

Eu senti o ar diminuir dentro da sala.

— Luc? — eu disse.

Minha voz saiu tão baixa que mal reconheci.

Ele colocou a mão sobre meu braço.

— Ariane, não aqui.

Não aqui.

Como se a vergonha estivesse na sala, não nele.

Como se o problema fosse a presença de uma terceira pessoa, e não a existência de duas crianças que ele havia escondido de mim.

A assistente social me olhou.

A calma dela mudou de temperatura.

— A senhora não tinha conhecimento disso?

Eu tentei responder.

Nada saiu.

Luc se inclinou para a mesa.

— É uma situação complicada. As crianças moram com a mãe. Isso não tem nada a ver com o nosso projeto.

Nosso projeto.

A palavra me atingiu com uma violência limpa.

Até a traição dele vinha embrulhada em plural.

A assistente social fechou a pasta devagar.

— Senhor, num processo de adoção, ocultar dois filhos biológicos não é um detalhe.

Ela falou sem levantar a voz.

Talvez por isso cada palavra tenha pesado mais.

— Isso levanta questões de sinceridade, de estabilidade familiar e de proteção da criança que poderia vir.

Eu me levantei.

A cadeira raspou no chão.

Luc disse meu nome.

Eu não olhei para ele.

Saí da sala e entrei no corredor.

Ali, longe da mesa, longe da pasta, longe daquela mulher que tinha acabado de me devolver a verdade em linguagem institucional, eu encostei a mão na parede.

Respirei como quem tenta voltar ao próprio corpo.

Onze anos passaram por mim em segundos.

Os exames.

As agulhas.

As festas de família.

A sogra servindo torta e me chamando de forte quando queria dizer incompleta.

Luc olhando para o chão no consultório.

Luc me abraçando no estacionamento.

Luc dizendo que não era culpa minha enquanto sabia, desde 2016, que já era pai.

Ele me alcançou perto do elevador.

— Eu ia te contar.

Eu virei.

— Antes ou depois que uma criança entrasse na nossa casa?

Ele ficou pálido.

— Não é o que você está pensando.

— Você tem dois filhos.

Ele engoliu em seco.

— Tenho.

O mundo às vezes acaba numa palavra curta.

Não precisa de grito.

Não precisa de cena.

Basta um “tenho” dito tarde demais.

— Quem é a mãe? — perguntei.

Ele olhou para o chão.

— Camila Barel.

O nome abriu uma gaveta na minha memória.

Camila.

Eu a tinha visto uma vez num evento do trabalho de Luc.

Morena, delicada, vestindo um vestido largo, a mão pousada sobre a barriga de grávida.

Luc a apresentou como colega.

— O marido foi embora — ele disse, na época. — História triste.

O marido.

Eu ri no corredor.

Não por humor.

Por nojo.

— Você me apresentou a mãe dos seus filhos como uma colega abandonada pelo marido?

Ele passou as mãos pelo rosto.

— Eu não sabia como sair disso.

— Disso?

— Ariane, por favor.

— Você me deixou decorar um quarto para uma criança desconhecida enquanto já tinha dois filhos.

Ele fechou os olhos.

E então disse a frase que transformou a mentira em plano.

— Camila está doente. Muito doente. Talvez as crianças precisem de uma casa estável.

Eu parei de respirar.

— O que você está dizendo?

Ele não respondeu de imediato.

Não precisou.

Naquele atraso minúsculo, tudo se encaixou.

A adoção.

O dossiê.

As fotos.

O quarto amarelo.

A entrevista.

A casa estável.

O projeto amadurecido.

Eu não estava sendo preparada para adotar uma criança que precisava de família.

Eu estava sendo preparada para receber os filhos dele sem ter tido o direito de saber que existiam.

Dei um tapa em Luc.

Não foi forte.

Não foi cinematográfico.

Foi apenas o suficiente para o som existir entre nós.

Ele levou a mão ao rosto.

Eu saí.

No carro, meu celular vibrou tantas vezes que parecia um inseto preso no banco do passageiro.

Luc.

Luc.

Luc.

A mãe dele.

Luc de novo.

Eu não atendi.

Dirigi de volta para casa com as mãos tão firmes no volante que meus dedos doeram.

A rua parecia normal demais.

Gente atravessando.

Um cachorro latindo atrás de um portão.

Uma mulher saindo da padaria com pão.

O mundo tem essa indecência de continuar funcionando no dia em que a sua vida desmorona.

Quando cheguei, a casa estava quieta.

A geladeira fazia seu ruído constante.

A pia tinha uma xícara esquecida.

A luz do corredor estava acesa.

Fui direto ao quarto amarelo.

A luminária em forma de lua brilhava sobre a escrivaninha.

Eu não lembrava de tê-la deixado ligada.

No tampo da mesa havia um desenho.

Um papel simples, com lápis de cor, feito três semanas antes por uma menina que Luc tinha trazido para passar a tarde.

Lison.

Ele disse que era filha de uma colega doente.

Disse que precisava ajudar em algumas quartas-feiras.

Disse que era só por gentileza.

Eu fiz panquecas naquele dia.

Prendi o cabelo dela com uma presilha minha.

Ajudei Jules com a lição.

Quando ele travou numa conta, sentei ao lado dele e expliquei devagar.

Lison me perguntou se a luminária era de verdade uma lua.

Eu respondi que, se ela quisesse, podia ser.

No fim da tarde, enquanto eles calçavam os tênis perto da porta, eu disse a Luc:

— Essas crianças são adoráveis.

Ele olhou para elas de um jeito estranho.

— Elas merecem tanto mais.

Na hora, pensei que era tristeza por Camila.

Agora eu entendia.

Era posse.

Era culpa.

Era ensaio.

Peguei o desenho.

Havia uma casa amarela.

Um homem.

Duas crianças.

E uma mulher de cabelo castanho perto da janela.

Acima, escrito com letras infantis, estava:

“A casa do papai e da Ariane.”

Senti minhas pernas fraquejarem.

Aquela frase parecia ter sido escrita para me alcançar naquele exato dia.

Antes que eu conseguisse pensar no que fazer, a campainha tocou.

Um toque só.

Depois outro.

Fui até a porta ainda segurando o desenho.

Quando abri, Jules e Lison estavam no batente.

Os dois com mochilas pequenas.

Lison tinha os olhos vermelhos.

Jules olhava para o chão.

Atrás deles, a mãe de Luc estava parada com a postura de quem já tinha decidido o final da conversa antes de começar.

Ela não disse boa tarde.

Não pediu licença.

Não perguntou se eu estava bem.

Olhou por cima do meu ombro, viu o corredor, talvez viu o amarelo do quarto ao fundo, e disse:

— Camila está no hospital. As crianças ficam aqui. Afinal, você não queria tanto ser mãe?

Por um segundo, eu não respondi.

Não porque faltassem palavras.

Porque havia crianças ouvindo.

E essa era a única coisa que parecia importar naquela porta.

Lison apertou a alça da mochila.

— A vovó disse que agora você não vai poder mandar a gente embora, porque o papai já assinou.

A mãe de Luc perdeu um pouco da cor.

Foi pouco.

Mas eu vi.

— Assinou o quê? — perguntei.

Ela endureceu.

— Não faça cena na frente das crianças.

— Assinou o quê?

O celular dela vibrou.

Ela olhou rápido demais.

Eu vi o nome de Luc na tela antes que ela escondesse o aparelho.

Atrás dela, perto do portão, o carro continuava ligado.

No banco de trás havia duas malas pequenas e uma pasta azul.

A mesma cor da pasta que eu tinha comprado para o processo.

Jules começou a chorar sem som.

Não era birra.

Não era medo comum.

Era o choro de uma criança que já aprendeu a diminuir o próprio sofrimento para não atrapalhar adultos.

— Eu não queria vir sem a mamãe — ele disse.

O rosto da mãe de Luc se contraiu, irritado.

Não com a dor dele.

Com o fato de eu ter escutado.

A pasta azul escorregou do braço dela e caiu aberta no chão da entrada.

Folhas se espalharam pelo tapete.

Cópias de documentos.

Uma declaração assinada.

Uma folha com meu endereço.

Uma foto impressa do quarto amarelo.

A foto que eu mesma tinha mostrado na entrevista.

Agachei devagar.

Minhas mãos tremiam.

A primeira linha tinha meu nome completo.

A segunda usava uma palavra que ninguém tinha o direito de colocar ali sem mim.

Responsável.

Não mãe.

Não esposa.

Não madrasta.

Responsável.

Como se eu fosse uma estrutura disponível.

Como se minha casa, meu corpo, minha dor e meus onze anos de humilhação pudessem ser reorganizados numa folha para resolver o problema de todos os outros.

Olhei para a mãe de Luc.

— Quem escreveu isso?

Ela levantou o queixo.

— Luc só fez o que precisava ser feito.

— Usando meu nome?

— Usando a casa que você vive dizendo que está pronta para uma criança.

Foi ali que alguma coisa dentro de mim ficou fria.

Não a frieza da falta de amor.

A frieza da lucidez.

Eu olhei para Jules e Lison.

Eles eram inocentes.

Isso era o pior.

Eles tinham sido colocados na minha porta como argumento, como culpa, como escudo humano contra a verdade.

Abaixei-me até a altura deles.

— Vocês podem entrar para beber água — eu disse com cuidado. — Mas ninguém vai decidir a vida de vocês na base de mentira.

Lison começou a chorar.

Jules respirou como se tivesse segurado o ar por muito tempo.

A mãe de Luc deu um passo à frente.

— Não complique.

Eu me levantei.

— A senhora está na minha casa.

— Eles são família.

— Eles são crianças. E exatamente por isso eu não vou deixar vocês continuarem usando os dois desse jeito.

Pela primeira vez, ela pareceu não encontrar resposta.

Peguei meu celular.

Luc atendeu no segundo toque.

— Ariane, escuta—

— Não. Agora você escuta.

A mãe dele tentou pegar a pasta do chão.

Eu pisei em cima de uma das folhas, não para rasgar, mas para impedir que ela recolhesse a prova.

— Você colocou meu nome num documento sem meu consentimento?

Do outro lado da linha, houve silêncio.

O mesmo tipo de silêncio da sala da assistente social.

Só que agora eu sabia ouvi-lo.

— Ariane, eu estava desesperado — ele disse.

— Desesperado não é autorização.

— Camila está internada.

— E você achou que isso te dava o direito de transformar minha casa em solução para uma vida que você escondeu de mim?

Ele começou a chorar.

Talvez fosse real.

Talvez fosse teatro.

Naquele momento, não importava.

— São meus filhos — ele disse.

Olhei para as duas crianças.

— Eu sei. E é a primeira verdade que você disse hoje.

A mãe dele cochichou:

— Cruel.

Eu ri baixo.

— Cruel é deixar uma mulher acreditar por onze anos que era incapaz de dar um filho ao marido enquanto todo mundo já sabia que ele tinha dois.

Ela desviou os olhos.

Foi rápido.

Mas foi o suficiente.

Meu estômago virou.

— A senhora sabia?

Ela não respondeu.

— A senhora sabia desde quando?

Luc ficou mudo no telefone.

A mãe dele apertou a bolsa contra o corpo.

— Isso não muda nada agora.

Mudava tudo.

Claro que mudava.

Aquela família nunca teve pena de mim.

Eles estavam me preparando.

Preparando para aceitar qualquer coisa que viesse com o nome de maternidade.

Preparando para sentir culpa antes de sentir raiva.

Preparando para abrir a porta.

Eu mandei Luc ir para casa imediatamente.

Depois liguei para a assistente social.

Expliquei, com a voz firme e as mãos tremendo, que duas crianças tinham sido deixadas na minha porta sem combinação clara, com documentos envolvendo meu nome, e que eu precisava registrar aquilo pelo canal correto de proteção.

Ela não pareceu surpresa.

Isso me assustou mais do que se ela tivesse ficado.

— A senhora pode manter as crianças em segurança até a chegada da orientação? — ela perguntou.

Olhei para Jules e Lison sentados no sofá, cada um segurando um copo de água com as duas mãos.

— Posso — eu disse. — Mas quero deixar registrado que não autorizei nenhum documento.

— Registre tudo. Fotografe as folhas. Não entregue originais a ninguém sem orientação.

Foi a primeira instrução honesta que recebi naquele dia.

Fotografei cada página.

A declaração.

A assinatura de Luc.

Meu endereço.

A foto do quarto.

As datas.

A pasta azul caída no chão.

Às 12h43, Luc chegou.

Ele entrou pelo portão com o rosto destruído.

A mãe dele foi até ele como se fosse a vítima.

— Ela está transformando isso num escândalo.

Luc olhou para mim.

— Ariane, por favor.

— Não olhe para mim como se eu fosse o obstáculo.

Ele tentou se aproximar das crianças.

Jules recuou.

Foi quase imperceptível.

Mas Luc viu.

E aquilo o atingiu mais do que o tapa.

— Filho… — ele começou.

Jules perguntou:

— A mamãe vai morrer?

Luc desabou ali.

Não no chão.

Mas por dentro.

O rosto dele perdeu toda a defesa.

— Eu não sei — ele disse.

Foi a segunda verdade.

Lison começou a soluçar.

Eu sentei ao lado dela.

Ela encostou no meu braço com cuidado, como se não soubesse se tinha permissão.

E eu odiei Luc por me colocar naquele lugar impossível.

Odiá-lo não diminuía a compaixão que eu sentia por ela.

Sentir compaixão por ela não diminuía a violência do que fizeram comigo.

As duas coisas podiam existir juntas.

Talvez maturidade seja isso: não permitir que uma dor inocente seja usada para apagar uma culpa adulta.

A orientação veio no início da tarde.

As crianças seriam encaminhadas temporariamente com registro formal, sem que nenhum documento irregular envolvendo meu nome fosse aceito como consentimento.

A mãe de Luc protestou.

Disse que eu estava abandonando crianças.

Eu respondi baixo:

— Não. Estou impedindo que vocês as abandonem dentro de uma mentira.

Luc não disse nada.

Quando a equipe chegou, eu entreguei cópias das fotos, expliquei a sequência e pedi que constasse em registro que eu não tinha conhecimento dos filhos, nem autorizei uso do meu nome.

A assistente social me olhou com uma tristeza séria.

— A senhora fez a coisa certa ao ligar.

Eu não me senti heroica.

Eu me senti quebrada.

Depois que as crianças saíram, Lison voltou correndo do portão.

Ela me abraçou pela cintura.

Foi rápido.

Apertado.

Desesperado.

— Você vai jogar meu desenho fora? — ela perguntou.

Eu quase não consegui responder.

— Não.

— Promete?

Olhei para Luc, para a mãe dele, para a pasta azul, para a porta aberta.

— Prometo.

Ela foi embora segurando a mão de Jules.

Quando o carro desapareceu, Luc tentou falar.

— Ariane, eu amo você.

A frase me pareceu velha.

Pequena.

Inútil.

— Você me amou como quem usa uma ponte — eu disse. — Só até atravessar.

Ele chorou.

A mãe dele me chamou de fria.

Eu fechei a porta.

Naquela noite, dormi no sofá.

Não porque o quarto fosse longe.

Porque a casa inteira parecia outra.

No dia seguinte, eu procurei orientação jurídica.

Reuni mensagens.

Fotografei documentos.

Anotei horários.

Pedi cópia do registro da entrevista.

Guardei o desenho de Lison dentro de uma pasta, não como prova contra ela, mas como lembrança de que criança nenhuma deve ser transformada em ferramenta de adulto.

Luc saiu de casa três dias depois.

Não por grandeza.

Porque eu pedi.

E porque, pela primeira vez em onze anos, eu não pedi licença para escolher a mim mesma.

A mãe dele mandou mensagens por semanas.

Disse que eu tinha perdido minha chance de ser mãe.

Disse que nenhuma mulher de coração recusaria duas crianças na porta.

Disse que eu morreria sozinha naquela casa amarela.

Eu bloqueei.

Luc tentou voltar ao processo de adoção depois.

Não comigo.

Não naquela casa.

E, pelo que soube, a omissão dos filhos pesou do jeito que deveria pesar.

Camila sobreviveu à internação.

Não sei todos os detalhes, e não vou inventá-los.

Só sei que, meses depois, recebi uma carta curta.

A letra era adulta, firme, diferente da letra infantil no desenho.

Camila escreveu que sentia muito.

Que Luc tinha mentido para ela também, de outras maneiras.

Que as crianças falavam de mim com carinho.

Que ela esperava, um dia, poder explicar sem transformá-las em juízes de ninguém.

Eu chorei lendo aquela carta.

Não por Luc.

Por nós duas.

Duas mulheres colocadas em lados opostos de uma história que ele escreveu sozinho.

Guardei a carta junto do desenho.

A casa amarela continuou sendo minha.

O quarto amarelo ficou fechado por um tempo.

Depois eu abri as janelas.

Tirei a luminária da tomada.

Dobrei a manta.

Não joguei nada fora no primeiro mês.

Às vezes, cura não começa com coragem.

Começa com inventário.

O que é meu.

O que não é.

O que me deram.

O que me usaram para carregar.

Por onze anos, eu pensei que meu corpo fosse uma casa fechada.

Na verdade, a casa fechada era o casamento.

E naquele dia, quando uma assistente social ergueu os olhos do nosso dossiê e perguntou por que meu marido tinha escondido dois filhos biológicos, alguém finalmente abriu a janela.

A verdade entrou sem pedir desculpas.

Fez bagunça.

Derrubou móveis.

Espalhou papéis pelo chão.

Mas também deixou uma coisa limpa atrás dela.

Eu não era a coitada da Ariane.

Eu não era a mulher vazia.

Eu não era a solução disponível para a mentira de uma família inteira.

Eu era a pessoa que abriu a porta, viu duas crianças inocentes, viu uma armadilha cruel, e ainda assim escolheu não permitir que uma verdade sangrando fosse escondida debaixo de um quarto amarelo.

E até hoje, quando penso em Lison perguntando se eu jogaria o desenho fora, sinto a mesma dor e a mesma certeza.

Eu não joguei.

Só parei de confundir maternidade com aceitar ser usada.

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