Clara se sentou, mas manteve os pés firmes no chão, como se aquela pequena resistência pudesse compensar o fato de que ainda sentia os dedos de Elio ao redor de seu pulso.
Ele a soltou imediatamente.
— Foi um desafio?

A pergunta veio sem raiva, o que a tornou ainda mais ameaçadora.
Clara olhou para Nah do outro lado da corda de veludo e encontrou a amiga parada com as duas mãos sobre a boca, dividida entre comemorar e chamar ajuda.
— Foi.
Elio apoiou o copo na mesa.
— E você costuma beijar desconhecidos para divertir suas amigas?
— Não costumo fazer quase nada para me divertir.
A resposta escapou antes que Clara pudesse filtrá-la, e algo no rosto dele mudou, não exatamente um sorriso, mas o reconhecimento de uma verdade que ele não esperava ouvir.
— Então por que hoje?
— Porque vou completar vinte e nove anos e estou cansada de sentir que minha vida acontece sempre em outra sala.
Elio baixou os olhos para a mão dela apoiada sobre a mesa.
Havia uma sequência de letras e números escrita de caneta azul perto do pulso, uma anotação feita às pressas durante o expediente e esquecida depois de tantos copos.
O pouco calor que existia no rosto dele desapareceu.
— Onde você viu esse código?
Clara tentou puxar a mão para perto do corpo.
— Numa nota de transporte do escritório.
— Qual escritório?
Ela hesitou, e Elio se inclinou apenas o suficiente para que a voz chegasse até ela sem alcançar os outros homens.
— Não estou perguntando por curiosidade.
Clara disse o nome da empresa.
Pela primeira vez desde que ela atravessara a corda, Elio olhou para um dos seguranças e fez um gesto curto.
O homem saiu imediatamente do reservado.
— Amanhã é sábado — disse Elio. — Na segunda-feira, não vá trabalhar.
— Você enlouqueceu?
— Provavelmente antes de você nascer.
— Não pode dar ordens sobre o meu emprego.
— Posso avisar que alguém usou a sua identificação para alterar documentos ligados a esse código.
Clara sentiu a vodca perder o efeito de uma vez.
— Como você sabe disso?
— Porque estou procurando quem fez a alteração.
— E o que isso tem a ver com você?
Elio sustentou o olhar dela por alguns segundos.
— Mais do que você deveria querer descobrir.
Ele pegou uma pequena bolsa preta caída ao lado da cadeira e a entregou a Clara.
Ela nem percebera que a deixara escorregar durante o beijo.
— Vá para casa com sua amiga — ordenou ele. — Não aceite carona de ninguém e não conte sobre o código.
— Inclusive para você?
Dessa vez, o sorriso apareceu.
— Principalmente para mim.
Clara se levantou, determinada a sair daquele canto sem demonstrar o quanto as pernas haviam voltado a tremer.
Antes que ela alcançasse a corda, Elio falou seu nome.
Ela olhou por cima do ombro.
— O desafio terminou — disse ele. — O problema, não.
Nah a puxou pelo braço assim que Clara voltou ao salão.
— Você beijou aquele homem como se estivesse numa despedida de novela e depois ficou sentada com ele.
— Vamos embora.
— Ele ameaçou você?
Clara procurou a resposta mais simples, mas nenhuma parecia verdadeira.
— Ainda não sei.
No apartamento de Nah, as duas passaram quase uma hora discutindo se deveriam levar o aviso a sério.
Nah defendia que nenhum homem normal mandava seguranças investigarem códigos rabiscados no braço de uma desconhecida.
Clara respondeu que nenhum homem normal tinha dois seguranças imóveis diante de uma corda de veludo enquanto todos ao redor fingiam não olhar.
Às três da manhã, decidiu que tudo fazia parte de uma encenação destinada a assustá-la.
Às nove, encontrou um brinco ausente.
Era uma peça pequena, de metal dourado, presente da mãe no aniversário anterior, e Clara teve certeza de que o perdera no reservado quando Elio segurou seus cabelos.
Nah sugeriu que ela esquecesse o brinco e agradecesse por ter voltado com as duas orelhas.
Clara riu, mas o som morreu quando viu o sedã preto parado diante do prédio.
Um homem de camisa clara estava encostado na porta traseira.
Ele não parecia armado, embora Clara começasse a suspeitar que os homens ligados a Elio não precisavam parecer nada.
— Clara? Meu nome é Daario.
— Como sabe onde eu estou?
— O senhor Elio pediu que eu devolvesse isto.
Daario estendeu um envelope sem lacre.
Dentro estava o brinco.
Não havia flores, bilhete ou número de telefone.
A ausência de qualquer tentativa de charme tornou a visita mais inquietante.
— Ele mandou seguir a gente?
— Mandou garantir que chegassem em segurança.
— Isso é uma maneira educada de dizer sim?
Daario pensou antes de responder.
— É uma maneira exata de dizer que ninguém se aproximou sem que soubéssemos.
Clara fechou os dedos sobre o brinco.
— Diga a ele que não faça isso de novo.
— Posso dizer.
— Mas ele não vai obedecer.
— Provavelmente não.
Daario abriu a porta do motorista.
— E não vá ao trabalho na segunda-feira.
Clara passou o restante do fim de semana tentando convencer a si mesma de que obedecer seria mais absurdo do que ignorar Elio.
Na segunda-feira, chegou ao escritório quinze minutos mais cedo.
O diretor já a esperava dentro da sala de vidro.
Sobre a mesa estavam uma caixa vazia para seus objetos pessoais e uma cópia do relatório que rendera a promoção a outro funcionário.
Clara reconheceu cada tabela, cada cálculo e até um erro de digitação que cometera meses antes.
— Houve uma reestruturação — explicou o diretor, evitando encará-la. — Sua função deixou de ser necessária.
— Minha função ou eu?
— Não torne isso mais difícil.
Ele empurrou um documento de desligamento na direção dela e perguntou, num tom casual demais, se Clara ainda tinha o caderno em que costumava copiar números de remessas.
O aviso de Elio voltou inteiro à sua memória.
— Joguei fora.
O diretor finalmente levantou os olhos.
— Tem certeza?
— Absoluta.
Clara assinou apenas o recebimento da comunicação, recusou as outras páginas e colocou seus poucos objetos na caixa.
Quando passou pela recepção, viu dois homens desconhecidos aguardando perto dos elevadores.
Nenhum dos dois usava crachá.
Ela não esperou para descobrir por quem estavam esperando.
Saiu pela escada de serviço, atravessou o estacionamento e ligou para Nah.
Antes que a amiga atendesse, um sedã preto parou ao lado dela.
Clara se afastou bruscamente, mas reconheceu Daario quando o vidro baixou.
— Entre.
— Eu disse que não queria ser seguida.
— E eu disse que provavelmente ele não obedeceria.
Um dos homens sem crachá surgiu na saída do prédio.
Clara entrou.
Daario arrancou antes que ela terminasse de fechar a porta.
— Para onde está me levando?
— Para um lugar em que possamos conversar sem que tentem arrancar respostas de você.
— Que respostas?
— Onde está o caderno.
Clara ficou imóvel.
— Como você sabe sobre ele?
— Seu diretor não foi a primeira pessoa a perguntar.
O apartamento de Clara estava com a porta aberta quando chegaram.
A fechadura não fora quebrada.
Alguém entrara usando uma chave ou uma cópia perfeita.
As gavetas tinham sido esvaziadas, os livros jogados no chão e o colchão cortado na lateral.
Não levaram o computador, a televisão nem o pouco dinheiro guardado numa caixa da cozinha.
Procuravam apenas uma coisa.
Elio estava parado no meio da sala, com a camisa preta dobrada até os antebraços e uma expressão que fazia o pequeno apartamento parecer ainda menor.
— Você foi trabalhar.
Clara colocou a caixa sobre o balcão.
— Você invadiu minha casa.
— Cheguei depois.
— Mas mandou me seguir.
— Mandei.
— Pedi para não fazer isso.
— E eu sabia que você iria ignorar o aviso.
Ela avançou até ficar diante dele.
— Não confunda conhecer minha decisão com ter o direito de tomá-la por mim.
Daario permaneceu junto à porta, atento ao corredor, enquanto Elio estudava o rosto de Clara.
— Tem razão.
A resposta a desarmou mais do que uma discussão faria.
— Isso não parece um pedido de desculpas.
— Porque ainda não me arrependo de ter impedido que colocassem você naquele outro carro.
Clara olhou para Daario.
— Que outro carro?
Daario explicou que dois homens haviam preparado um sedã semelhante ao dele na garagem vizinha ao escritório.
O plano parecia simples: Clara acreditaria que Elio mandara buscá-la, entraria por vontade própria e desapareceria antes que alguém percebesse a troca.
— Quem são eles? — perguntou ela.
Elio pegou do chão uma folha amassada que os invasores haviam deixado cair.
Era uma cópia de um manifesto da empresa, marcado com o mesmo código que Clara rabiscara no pulso.
— Pessoas que estão desviando dinheiro e mercadorias por meio da empresa onde você trabalhava.
— E você é o quê nessa história?
— O homem de quem tentaram roubar.
Clara soltou uma risada sem humor.
— Claro.
— Não vou fingir ser alguém seguro, Clara.
— Então pare de agir como se fosse minha única segurança.
Elio se aproximou, mas não a tocou.
— Eles acreditam que você viu os registros originais e guardou uma cópia no seu caderno.
— Eu copiava números porque meu chefe alterava relatórios depois que eu entregava o trabalho.
— Por isso você perdeu a promoção.
A frase atingiu Clara com uma força inesperada.
Durante semanas, ela se acusara de não ser competente, firme ou ambiciosa o suficiente.
Agora compreendia que o diretor não escolhera outra pessoa por considerar o trabalho dela inferior.
Ele a mantivera numa posição fraca porque Clara estava perto demais de perceber o que ele fazia.
— O caderno não estava aqui — disse Elio. — Onde está?
— Num lugar que você não precisa saber.
Os olhos dele se estreitaram.
— Se eu quisesse tomar isso de você, já teria tomado.
— Essa frase deveria me tranquilizar?
— Não.
Elio respirou fundo e recuou um passo.
— Você não pode ficar aqui esta noite.
— Eu vou para a casa da Nah.
— Eles sabem quem estava com você no clube.
O pensamento de levar o perigo até a amiga eliminou a próxima recusa.
Clara aceitou ir para um apartamento vazio usado por Elio, mas impôs condições antes de entrar no carro.
Nah seria avisada de que ela estava segura.
Daario seria o único homem autorizado a levá-la a qualquer lugar.
Nenhum guarda entraria no apartamento sem permissão.
E Elio não tocaria no caderno caso Clara decidisse entregá-lo.
— Mais alguma coisa? — perguntou Elio.
— Não apareça sem avisar.
— Essa será a parte mais difícil.
O apartamento era amplo, discreto e impessoal, com móveis que pareciam nunca ter sido usados por tempo suficiente para guardar lembranças.
Clara telefonou para Nah e explicou apenas que o problema estava ligado ao trabalho.
Nah ouviu em silêncio e, no fim, perguntou se o homem do beijo estava envolvido.
— Ele é o problema ou está tentando resolver o problema? — quis saber.
Clara olhou para Elio do outro lado da sala.
— Ainda não consegui separar uma coisa da outra.
O caderno estava com Nah desde a noite da promoção perdida.
Clara o deixara na casa da amiga dentro de uma caixa com roupas, com medo de rasgar as páginas durante um momento de raiva.
Na manhã seguinte, Nah o entregou pessoalmente a Daario, que levou o pacote fechado até Clara.
Elio cumpriu a promessa e permaneceu longe enquanto ela analisava as anotações.
Durante meses, Clara registrara números antes de inseri-los no sistema, principalmente quando o diretor exigia mudanças de última hora.
As diferenças pareciam pequenas quando vistas isoladamente.
Datas deslocadas em um dia.
Pesos arredondados.
Iniciais trocadas.
Quando ela organizou tudo em sequência, porém, surgiu um padrão claro.
O diretor usava as credenciais de Clara para alterar documentos depois do expediente e redirecionar remessas para depósitos que não pertenciam à empresa.
A promoção havia sido entregue ao funcionário que aceitava assinar sem conferir.
Clara não era apenas uma testemunha inconveniente.
Estava sendo preparada para assumir a culpa quando o esquema fosse descoberto.
Elio apareceu naquela noite depois de enviar uma mensagem perguntando se poderia entrar.
Clara permitiu.
Ele trouxe comida em embalagens simples, colocou tudo sobre a mesa e esperou que ela mostrasse as páginas por vontade própria.
— Você reconhece os destinos? — perguntou Clara.
Elio leu os códigos sem tocar no caderno.
— Reconheço dois.
— São seus?
— Eram controlados por pessoas que trabalhavam comigo.
— Trabalhavam?
— Não trabalham mais.
Clara decidiu não perguntar por quê.
— Você sabia sobre a empresa antes de me conhecer?
— Sabia que alguém lá dentro estava alterando registros.
— E quando viu a anotação no meu braço, entendeu que eu estava envolvida.
— Entendi que você podia estar em perigo.
— Não foi isso que perguntei.
Elio apoiou as mãos na mesa.
— Também entendi que você poderia me levar até quem estava roubando de mim.
A honestidade doeu, embora Clara não tivesse o direito de esperar outra coisa.
— Então o beijo foi conveniente.
— O beijo não foi conveniente para ninguém.
Ele se aproximou devagar.
— Desde aquela noite, tenho pensado em você quando deveria pensar em todas as razões para ficar longe.
— Isso não transforma obsessão em cuidado.
— Eu sei.
— Sabe mesmo?
Elio ergueu a mão, mas parou antes de tocar o rosto dela.
— Posso?
Clara deveria ter recusado.
Em vez disso, inclinou o rosto contra a palma dele.
O beijo seguinte não teve plateia, desafio ou álcool suficiente para servir de desculpa.
Foi mais lento do que o primeiro e muito mais perigoso, porque Clara permaneceu consciente de cada escolha.
Nos dias seguintes, ela e Elio se aproximaram dentro de limites que precisavam ser renegociados a todo momento.
Ele tinha o hábito de mandar antes de pedir.
Clara tinha o hábito de se calar até a raiva se transformar em distância.
Quando Elio ordenava que ela ficasse no apartamento, Clara exigia uma explicação.
Quando ela tentava enfrentar tudo sozinha, ele lembrava que independência não significava ignorar riscos reais.
Daario tornou-se o ponto de equilíbrio entre os dois.
Ele dirigia sem fazer perguntas, conferia os arredores antes de Clara entrar e nunca tentava convencê-la de que a vigilância era normal.
Foi também Daario quem sugeriu um protocolo simples.
Todos os dias, às sete da noite, Clara enviaria uma mensagem específica a Nah.
Caso a mensagem não chegasse, a amiga deveria entregar cópias das páginas do caderno ao setor responsável por apurar irregularidades na empresa e aos integrantes do conselho.
Elio considerou o plano frágil.
Clara considerou indispensável que a prova saísse do alcance dele.
— Você ainda acha que vou roubar o caderno — disse Elio.
— Acho que você faria qualquer coisa para vencer.
— Inclusive perder você?
— Essa é a pergunta que você precisa responder sozinho.
Na sexta-feira anterior ao aniversário de vinte e nove anos, Clara decidiu voltar ao próprio apartamento durante algumas horas.
A fechadura fora trocada, as gavetas estavam no lugar e o corte no colchão havia sido costurado de maneira desajeitada.
Elio queria acompanhá-la.
Clara recusou.
Daario a levaria e buscaria às seis.
Às cinco e cinquenta e oito, o sedã preto parou diante do prédio.
Clara viu o modelo conhecido, a película escura e o pequeno arranhão perto da porta traseira.
Entrou sem esperar que o motorista saísse.
As portas travaram com um clique diferente.
Não era o som discreto do sedã de Daario, mas uma batida seca, metálica, que pareceu fechar também o ar ao redor dela.
Clara ergueu os olhos.
As mãos no volante não eram as de Daario.
O perfume no interior do carro era doce e forte, enquanto o veículo verdadeiro sempre cheirava a café e ao produto usado no painel.
O motorista fez uma curva para uma rua que Clara nunca tinha visto durante os trajetos anteriores.
Ela puxou o celular.
A bateria estava cheia uma hora antes, mas a tela não respondia.
Não estava descarregando.
Estava morto.
— Você não é Daario.
O motorista encontrou os olhos dela pelo retrovisor e sorriu como se já conhecesse o final.
— Ele devia ter ensinado você a olhar melhor.
Clara tentou a maçaneta.
Travada.
O vidro não descia.
Uma divisória escura começou a subir entre os bancos.
Antes que bloqueasse completamente a visão, Clara viu um crachá preso perto do câmbio.
Era do mesmo tipo usado pelos prestadores de serviço da empresa.
Ela memorizou o número impresso abaixo da fotografia.
O carro entrou num galpão de distribuição desativado e parou entre fileiras de estruturas metálicas vazias.
O motorista abriu a porta traseira e segurou o braço de Clara com força suficiente para deixar marcas.
Ela não gritou.
Ninguém naquela região ouviria, e demonstrar pânico só entregaria a vantagem que ainda possuía.
O diretor a esperava dentro de uma sala envidraçada acima do piso do galpão.
Sem o terno impecável e as paredes do escritório, ele parecia menor.
Também parecia mais desesperado.
— Onde está o caderno?
— Você me demitiu por causa dele?
— Eu demiti você porque nunca soube aceitar o lugar que tinha.
— O lugar em que eu fazia o trabalho e outra pessoa recebia o crédito?
O diretor bateu a mão sobre a mesa.
— O lugar em que você deveria ter parado de fazer perguntas.
Clara olhou ao redor.
Havia apenas o diretor, o motorista e outro homem junto à porta.
Nenhuma pilha de documentos, nenhuma equipe organizada, nenhuma demonstração de poder.
Eles estavam com pressa porque o esquema já começava a desmoronar.
— Elio sabe que você me trouxe aqui.
O diretor riu.
— Elio sabia que sua empresa estava envolvida antes de você sentar à mesa dele naquela noite.
Clara sentiu a primeira rachadura surgir na calma que vinha tentando manter.
— O que está dizendo?
— Ele não manteve você por perto apenas porque gostou do beijo.
O diretor se inclinou.
— Enquanto você acreditava que ele estava protegendo sua vida, ele esperava que você encontrasse a prova de que precisava.
Clara recordou todas as perguntas de Elio, os trajetos controlados, as mensagens exigindo que ela avisasse onde estava e a maneira como ele observava o caderno sem tocá-lo.
A obsessão podia ser verdadeira e ainda assim servir aos interesses dele.
Esse pensamento doeu mais do que Clara gostaria de admitir.
— Onde está? — repetiu o diretor.
— Num lugar que você não alcança.
Ele empurrou algumas folhas para ela.
Era uma declaração afirmando que Clara alterara os registros para esconder erros próprios e vender informações a terceiros.
— Assine.
— E depois?
— Depois você vai embora.
— Você preparou minha demissão durante meses, invadiu meu apartamento e me colocou num carro falso, mas espera que eu acredite que vai me deixar sair?
O diretor não respondeu.
Clara olhou para o crachá do motorista novamente.
O número começava com a mesma sequência anotada ao lado de três remessas fraudulentas.
— Ele colocou sua identificação nos manifestos — disse Clara, voltando-se para o motorista.
O homem franziu a testa.
— Cala a boca.
— Quando investigarem os depósitos, o seu número vai aparecer em todas as entradas.
Clara apontou para o diretor.
— O nome dele não está nos registros. O meu está. O seu também. Ele preparou dois culpados para desaparecer quando não precisasse mais de vocês.
— Ela está tentando ganhar tempo — rosnou o diretor.
— Então mostre os documentos a ele.
O motorista olhou para as folhas espalhadas sobre a mesa.
O diretor as puxou para perto do corpo.
Foi um gesto pequeno, porém suficiente.
A desconfiança atravessou o rosto do homem.
— Você disse que meu número não aparecia.
— Não aparece.
— Então deixa eu ver.
O segundo homem afastou-se da porta para intervir.
Clara agarrou a cadeira de metal e a empurrou contra as pernas dele.
Enquanto os três se chocavam no espaço estreito, ela correu para fora da sala.
Desceu a escada, ouviu passos atrás de si e entrou entre as estruturas vazias do galpão.
Perto da antiga área de carga, encontrou o painel que controlava uma grade de segurança.
Clara apertou o botão no instante em que o motorista atravessou a passagem.
A grade começou a descer.
Ele tentou voltar, mas Clara empurrou um carrinho de metal contra os trilhos, prendendo o mecanismo na altura da cintura.
O motorista ficou bloqueado do outro lado, sem espaço para avançar ou recuar rapidamente.
O diretor apareceu no alto da escada com o rosto deformado pela raiva.
— Você acabou com a própria vida!
— Não — respondeu Clara. — Você fez isso quando usou meu nome.
Faróis atravessaram as janelas sujas do galpão.
O sedã verdadeiro de Daario entrou seguido por outro carro.
Nah percebera que Clara não enviara uma mensagem confirmando a chegada em casa e telefonara diretamente para Daario.
Ele descobrira a troca ao encontrar o próprio sedã ainda estacionado onde o deixara.
Elio saiu do segundo carro antes que ele parasse completamente.
Ao ver as marcas no braço de Clara, sua expressão se tornou tão fria que o diretor recuou.
Elio avançou na direção dele.
Clara ficou entre os dois.
— Não.
— Saia da frente.
— Se transformar isso numa vingança sua, amanhã todos vão dizer que os documentos fazem parte de uma disputa entre vocês.
— Ele colocou as mãos em você.
— E eu estou mandando você parar.
O galpão inteiro pareceu esperar pela resposta.
Durante alguns segundos, Clara viu o homem que estava acostumado a ser obedecido lutar contra o impulso de tomar mais uma decisão em nome dela.
Então Elio recuou.
— Daario — chamou ele.
Daario tomou conta da saída enquanto Clara recuperava as folhas que o diretor pretendia obrigá-la a assinar.
No canto de uma delas, havia uma anotação feita pela própria mão dele, ligando a declaração falsa aos mesmos códigos registrados no caderno.
Aquela era a peça que faltava para demonstrar que Clara não apenas fora usada, mas preparada deliberadamente para assumir a culpa.
Na manhã seguinte, Nah entregou o material conforme o combinado.
O diretor foi afastado, o acesso dele aos sistemas foi bloqueado e as movimentações ligadas às remessas entraram em investigação.
Outros funcionários confirmaram que recebiam ordens para utilizar as credenciais de Clara fora do horário normal.
A promoção roubada deixou de ser a maior perda daqueles meses.
Clara compreendeu que quase perdera o próprio nome, transformado em assinatura para crimes que nunca cometera.
Elio esperou até que ela estivesse em segurança para procurá-la.
Clara o recebeu no apartamento, mas não permitiu que ele se aproximasse.
— Você sabia que minha empresa fazia parte do esquema.
— Sabia.
— E me deixou acreditar que tudo era apenas sobre me proteger.
— No começo, eu precisava saber o que você tinha visto.
— E depois?
Elio demorou a responder.
— Depois eu não conseguia suportar a ideia de perder você.
— Então tentou controlar cada lugar a que eu ia.
— Sim.
— Mandou pessoas me seguirem mesmo quando pedi que parasse.
— Sim.
— E chamou isso de cuidado.
Elio baixou os olhos.
— Chamei porque era mais fácil do que admitir que não sei gostar de alguém sem tentar cercar essa pessoa.
Clara sentiu a garganta apertar, mas não desviou.
— Eu não saí de um homem que queria usar meu nome para entrar numa vida em que outro homem decide por mim.
— O que você quer que eu faça?
— Vá embora.
Ele ficou imóvel.
Clara viu a recusa surgir no rosto dele, seguida pela mesma luta que ocorrera no galpão.
Dessa vez, Elio não discutiu.
Saiu sem ordenar que Daario permanecesse, sem deixar um segurança no corredor e sem exigir uma promessa de reencontro.
Três semanas se passaram.
Clara completou vinte e nove anos numa mesa pequena, cercada pela mãe, por Nah e por pessoas que não sabiam metade do que acontecera.
Encontrou outro emprego, menor e menos bem pago, mas escolheu cada condição antes de aceitar.
Elio não telefonou.
Nenhum sedã apareceu diante do prédio.
Nenhum desconhecido observou seus passos.
Na quarta semana, Daario entregou um envelope à portaria e foi embora antes que Clara descesse.
Dentro estava o segundo brinco do par usado na noite do desafio.
Clara nem percebera que o perdera durante os dias no apartamento protegido.
Havia apenas uma frase escrita à mão.
Você não me deve nada.
Naquela noite, Clara voltou ao Onyx.
A batida grave ainda fazia o chão vibrar, os bartenders continuavam correndo e a corda de veludo permanecia diante do reservado.
Elio estava sentado sozinho.
Quando a viu, não fez sinal para que os seguranças levantassem a corda.
Esperou.
Clara se aproximou, e o segurança mais alto olhou para Elio antes de permitir a passagem.
Elio não se levantou até que ela entrasse por vontade própria.
— Eu disse que precisava que você fosse embora — falou Clara.
— E fui.
— Não significa que esqueci o que fez.
— Eu sei.
— Não aceito vigilância escondida, decisões tomadas por mim ou ameaças contra qualquer pessoa que eu ame.
— Entendido.
— Não quero que prometa uma vida segura, porque sei que não pode oferecer isso.
Elio sustentou o olhar dela.
— O que posso oferecer?
— A verdade, mesmo quando achar que ela vai me afastar.
— E se afastar?
— Você vai deixar que eu escolha.
Ele assentiu.
Clara parou diante da mesma mesa em que o beijara por causa de uma aposta irresponsável.
Elio continuou imóvel, embora cada parte dele parecesse querer diminuir a distância.
— Posso tocar em você? — perguntou.
Clara se inclinou, mas parou antes que seus lábios se encontrassem.
— Desta vez, não é um desafio.
Então ela o beijou porque havia escolhido ficar naquele instante, e Elio não fechou a mão em seu pulso, não a puxou nem tentou impedir que pudesse partir.
Apenas esperou que Clara decidisse a distância entre os dois.