Às 2h07 da madrugada, Julián Ramírez recebeu uma ligação que parecia não fazer sentido. Do outro lado, uma mulher chorava, com a voz fraca, pedindo por alguém chamado Sebastián.
— Sebastián… por favor. Estou no hospital. Quarto 914. Não me deixe morrer sozinha.
Julián olhou para o celular, certo de que era apenas um engano. Ele não conhecia aquela pessoa. Não sabia seu nome, sua história ou por que uma desconhecida estava procurando por alguém que claramente não estava atendendo.

— Acho que você ligou para o número errado. Meu nome é Julián.
Por alguns segundos, houve apenas uma respiração difícil.
Então veio a pergunta:
— Sebastián?
— Não. Julián.
Ele poderia ter desligado.
Poderia ter dito que não era problema dele.
Mas aquela voz trouxe de volta uma lembrança que ele tentava manter distante há anos.
Quatro anos antes, Julián tinha ouvido a mesma fragilidade na voz de Mariana, sua esposa, quando a doença começou a tirar dela a força que ainda tinha. Ele conhecia o medo de uma pessoa que percebe que está sozinha justamente quando mais precisa de alguém.
Por isso, vinte e cinco minutos depois, ele estava dirigindo pelas ruas quase vazias em direção ao hospital.
Ele ainda não sabia quem encontraria no quarto 914.
Não sabia que aquela ligação por engano colocaria seu nome no centro de uma disputa envolvendo bilhões de reais.
E muito menos imaginava que uma simples promessa de companhia revelaria uma traição dentro de uma das maiores empresas do país.
Quando abriu a porta do quarto, encontrou uma mulher jovem, pálida, ligada ao soro e usando um lenço bege na cabeça.
Ela abriu os olhos lentamente.
— Você não é Sebastián.
Julián apenas respondeu:
— Eu avisei.
Uma pequena risada escapou dela, apesar da fraqueza.
— Então sou oficialmente a mulher mais patética do país. Eu sou Valeria Moncada.
O sobrenome mudou tudo.
Julián conhecia o Grupo Moncada Comunicações. Era uma empresa gigante, com negócios em televisão, fibra óptica, satélites, centros de dados e contratos espalhados pelo país.
Valeria era a única filha de Arturo Moncada, o homem que construiu aquele império.
Mas naquela noite, ela não parecia uma herdeira poderosa.
Parecia apenas alguém com medo.
Pouco depois, a médica Elena Vargas explicou a situação.
Valeria tinha anemia aplástica grave. A medula dela havia parado de produzir células sanguíneas. Um transplante era urgente, e uma infecção tinha levado seu estado a uma situação perigosa naquela madrugada.
— Ela pediu que você ficasse — disse a médica. — O pulso dela melhorou quando soube que você estava vindo.
Julián voltou para o quarto.
Valeria contou que Sebastián era seu noivo.
Ou pelo menos era até ela receber o diagnóstico.
Duas semanas depois, ele foi embora dizendo que precisava “processar tudo”.
Para ela, aquela frase tinha sido apenas uma forma educada de desaparecer quando a vida ficou difícil.
Enquanto o hospital ficava mais silencioso perto do amanhecer, os dois conversaram sobre coisas que não apareciam nas manchetes.
Julián falou de Sofía, sua filha de dez anos, e da mania dela de desmontar objetos para descobrir como funcionavam.
Valeria falou do pai, dos funcionários e das pessoas do conselho que começaram a agir como se sua ausência definitiva fosse apenas uma questão de tempo.
— Quando você adoece, algumas pessoas começam a tomar decisões como se você já tivesse ido embora — disse ela.
Naquela noite, Valeria sobreviveu.
E antes de Julián sair, ela pediu seu número.
Ele achou que aquela seria a última vez que se veriam.
Estava errado.
Três dias depois, uma SUV preta parou diante da oficina onde Julián trabalhava.
Um motorista entregou um envelope dizendo que Valeria precisava falar com ele com urgência.
No dia seguinte, ele entrou na residência da família Moncada e encontrou uma mulher ainda debilitada, mas com a mesma determinação no olhar.
Ela foi direta.
— Quero contratar você por seis meses para fingir que é meu namorado.
Julián achou que fosse uma brincadeira.
Não era.
Então Valeria revelou o valor.
— Vou pagar R$ 220 milhões.
A surpresa não era apenas pelo dinheiro.
Era pelo motivo.
Valeria não queria comprar amor.
Ela precisava de tempo.
Enquanto lutava para sobreviver, alguém dentro do Grupo Moncada preparava uma movimentação para tirar o controle da empresa de suas mãos. No centro da disputa estava um projeto de conectividade rural que ela se recusava a vender.
Julián pensou em Sofía.
Pensou na oficina cheia de contas.
Pensou na possibilidade de oferecer à filha uma vida mais segura.
Mas deixou uma condição clara.
— Minha filha vem primeiro. E eu não vou mentir para ela.
Valeria aceitou.
O contrato apareceu sobre a mesa.
Mas Julián não assinou imediatamente.
Ele leu cada página.
Voltou às partes que envolviam Sofía.
Exigiu que nenhuma exposição pública colocasse a menina no meio daquela história.
Valeria concordou.
Só então ele pegou a caneta.
A assinatura transformou uma ligação errada de madrugada em um acordo capaz de mudar completamente o futuro dos dois.
Mas havia algo que Julián ainda não sabia.
Aquele contrato não protegeria apenas Valeria.
Também colocaria um alvo sobre ele.
Antes que ele saísse, Valeria fez uma exigência.
Ninguém fora de um grupo muito pequeno poderia saber quanto ele receberia ou onde o contrato original seria guardado.
— Se descobrirem isso, vão dizer que você me manipulou — explicou ela. — Vão usar você para provar que eu não tenho mais condições de comandar a empresa.
Julián percebeu que aquele falso relacionamento não era apenas uma encenação para proteger a imagem de uma bilionária.
Era uma disputa de poder.
Valeria levou os documentos até seu escritório particular e guardou o contrato dentro de um cofre conhecido por poucas pessoas da casa.
Por algumas horas, os dois acreditaram que tinham conseguido proteger o acordo.
Mas naquela mesma noite, alguém entrou no escritório.
Uma pessoa abriu o cofre particular de Valeria.
Pegou o contrato.
E fotografou cada página.
Julián e Valeria ainda não sabiam, mas aquelas imagens seriam o primeiro movimento de uma traição capaz de colocar o futuro do Grupo Moncada em risco.