Do lado de fora da sala de parto, Dona Helena Ferraz apertava com tanta força a bengala de jacarandá recém-trocada que os nós dos dedos ficaram brancos.
Ela não estava sozinha naquele corredor, mas parecia incapaz de perceber qualquer pessoa ao redor.
A governanta permanecia a poucos passos, dois funcionários da família esperavam mais atrás e todos olhavam para a porta fechada da sala de parto como se o futuro inteiro dos Ferraz estivesse escondido do outro lado.

Então o médico apareceu.
Ele ainda sorria quando se aproximou.
— Parabéns! É outro menino! A mãe e o bebê estão muito bem!
Por alguns segundos, ninguém reagiu.
Era a terceira vez.
Dona Helena cambaleou como se tivesse recebido uma notícia terrível, e não o anúncio de que seu terceiro neto havia acabado de nascer saudável.
A governanta correu para segurá-la pelo braço antes que ela caísse.
Mesmo apoiada, a matriarca apertou os dentes e soltou uma frase que fez o corredor inteiro mergulhar em silêncio.
— Meu Deus, por que eu ainda não morri?
O médico perdeu o sorriso.
A governanta não respondeu.
E quem não conhecesse a história provavelmente pensaria que havia alguma coisa profundamente errada com aquela família.
Havia.
Só que o problema não tinha começado naquela maternidade.
Também não tinha começado com o terceiro menino.
Tudo havia começado anos antes, quando eu estava sentada na cama de um apartamento alugado, cercada de contas, mensagens de cobrança e uma sensação desesperadora de que minha vida estava sendo esmagada por problemas que nem sequer tinham começado comigo.
Meu nome é Juliana Nogueira.
Na época, eu tinha 23 anos, havia acabado de me formar e recebia R$ 3.500 por mês no meu primeiro emprego.
Para muita gente da minha idade, aquele salário poderia significar o começo de uma vida independente.
Para mim, significava tentar decidir qual conta ficaria atrasada naquele mês.
Meus pais tinham mantido durante anos um pequeno restaurante em Campinas.
Não era um negócio sofisticado, nem uma empresa capaz de transformar nossa família em gente rica.
Era apenas o restaurante deles, construído com trabalho, longas jornadas e a esperança de que um dia aquilo pudesse garantir alguma tranquilidade.
Mas vieram meses ruins.
As contas começaram a se acumular.
Fornecedores precisavam receber.
O banco cobrava.
Funcionários tinham valores pendentes.
Quando o restaurante finalmente fechou, deixou aproximadamente R$ 600 mil em dívidas.
Eu olhava para aquele número e tinha dificuldade de entender como uma família como a nossa poderia algum dia sair daquele buraco.
Então a situação ficou pior.
Meu pai sofreu um problema cardíaco e passou a precisar de uma cirurgia cujo custo era maior do que tudo o que nós conseguiríamos juntar em anos vivendo daquele jeito.
Depois de pagar aluguel, transporte e as despesas básicas do mês, quase nada sobrava do meu salário.
Mesmo comprar os remédios dele já exigia contas feitas várias vezes.
Eu tinha estudado acreditando que um diploma abriria portas.
Na prática, comecei minha vida profissional calculando se conseguiria pagar uma conta sem deixar outra vencer.
Não culpava meus pais.
As dívidas não tinham surgido porque eles haviam vivido de luxo ou desperdiçado dinheiro.
O restaurante simplesmente fracassara, e o problema de saúde do meu pai apareceu quando nossa família já estava no limite.
Isso tornava tudo ainda mais difícil.
Eu não tinha ninguém contra quem direcionar minha raiva.
Só tinha números.
R$ 600 mil em dívidas.
R$ 3.500 de salário mensal.
Uma cirurgia que nossa família não conseguia pagar.
E mensagens que chegavam quase todos os dias lembrando que o tempo não pararia só porque nós não tínhamos dinheiro.
Foi numa dessas noites que tudo mudou.
Eu estava sentada na cama, com o celular na mão, alternando entre mensagens de cobrança e contas relacionadas ao tratamento do meu pai, quando vi um assunto entre os mais comentados nas redes sociais.
O título parecia uma brincadeira de mau gosto.
Família Ferraz procura futura nora — remuneração jamais vista no país.
Eu conhecia o sobrenome.
Praticamente todo mundo conhecia.
Os Ferraz estavam associados a uma fortuna enorme e ao Grupo Ferraz, mas nada disso explicava aquele anúncio.
Cliquei por curiosidade.
No começo, achei que encontraria uma propaganda enganosa, alguma montagem ou uma história inventada apenas para chamar atenção.
Em vez disso, encontrei uma lista objetiva de requisitos.
Mulher entre 22 e 25 anos.
Boa saúde.
Sem vícios.
Aparência agradável.
Disposta a se casar com Henrique Ferraz, único herdeiro da família, e gerar descendentes.
Reli aquela última parte.
Casar com Henrique Ferraz.
Gerar descendentes.
O texto não tentava disfarçar a finalidade da proposta.
Mas foi a remuneração que me fez ficar completamente imóvel.
R$ 4 milhões por uma gravidez confirmada.
R$ 24 milhões pelo nascimento de um menino.
R$ 16 milhões pelo nascimento de uma menina.
E havia mais uma condição que tornava tudo ainda mais inacreditável.
Sem limite de gestações.
Enquanto houvesse filhos, a família Ferraz pagaria.
Contei os zeros várias vezes.
Depois conferi de novo, convencida de que tinha interpretado alguma coisa errado.
Não tinha.
Um único pagamento daqueles poderia resolver as dívidas dos meus pais, custear o tratamento do meu pai e ainda deixar uma quantia que eu jamais conseguiria acumular trabalhando por um salário de R$ 3.500.
Mas era impossível olhar apenas para o dinheiro.
A proposta inteira parecia construída em torno de uma única obsessão: produzir herdeiros.
A família não estava simplesmente procurando alguém que pudesse se apaixonar pelo filho deles.
Aquele anúncio parecia procurar uma mulher disposta a transformar o próprio corpo no futuro de uma dinastia.
Fiquei olhando para a tela por muito tempo.
A parte racional da minha cabeça dizia que aquilo era absurdo.
Eu tinha 23 anos.
Tinha acabado de começar minha vida adulta.
Nunca imaginara que casamento, gravidez e filhos entrariam na minha vida por meio de uma proposta financeira publicada na internet.
Mas bastou outra mensagem de cobrança aparecer na tela para todo o conflito moral perder força.
Pensei no restaurante vazio.
Pensei nos R$ 600 mil.
Pensei no meu pai tomando remédios enquanto esperava por uma cirurgia que nós não sabíamos como pagar.
Pensei em quantos anos eu levaria para conseguir ajudar minha família usando apenas o meu salário.
Mesmo que eu economizasse uma parte impossível daquilo que recebia, ainda pareceria pouco diante do tamanho do problema.
Então voltei ao anúncio.
Li cada requisito mais uma vez.
Eu tinha a idade exigida.
Era saudável.
Não tinha vícios.
Não sabia exatamente o que os Ferraz consideravam uma aparência agradável, mas aquela era a única exigência que não dependia da minha própria avaliação.
A última condição continuava sendo a mais difícil de encarar.
Casar com Henrique Ferraz e gerar descendentes.
Eu ainda não conhecia Henrique.
Não sabia como ele era longe das fotografias associadas ao sobrenome da família.
Não sabia como uma família capaz de publicar um anúncio daquele tipo trataria a mulher escolhida.
E, principalmente, não sabia até que ponto aqueles milhões vinham acompanhados de regras que não apareciam na publicação.
Mesmo assim, abri meu currículo.
Revisei rapidamente as informações, escolhi uma fotografia simples e fiquei alguns segundos com o dedo parado sobre a tela.
Na foto, eu aparecia de rabo de cavalo, camiseta branca e sorriso aberto.
Nada de produção elaborada.
Nada de tentativa de parecer alguém que eu não era.
Era só eu.
Enviei naquela mesma noite.
Depois disso, larguei o celular ao meu lado e fiquei olhando para o teto, tentando me convencer de que provavelmente milhares de mulheres fariam a mesma coisa e que eu nunca receberia resposta.
Talvez fosse melhor assim.
Uma candidatura enviada por desespero poderia desaparecer no meio de tantas outras, e no dia seguinte eu voltaria ao trabalho, às contas e à vida que já conhecia.
Mas o telefone tocou no dia seguinte.
A entrevista seria no último andar da sede do Grupo Ferraz, em um dos prédios comerciais mais caros de São Paulo.
Quando desliguei, precisei reler minhas próprias anotações para acreditar que tinha entendido corretamente.
Eu havia passado pela primeira seleção.
Foi nesse momento que o anúncio deixou de parecer uma história absurda da internet.
Aquilo estava acontecendo comigo.
Para a entrevista, escolhi o melhor vestido que possuía.
Custara R$ 280 e eu o tinha comprado para apresentar meu trabalho de conclusão da faculdade.
Até então, aquela apresentação tinha sido o momento em que eu mais precisara parecer confiante diante de pessoas que avaliariam meu futuro.
Agora eu vestia a mesma roupa para entrar num prédio onde uma das famílias mais ricas do país decidiria se eu poderia servir ao projeto particular deles de continuar uma linhagem.
Quando cheguei diante do prédio de vidro, parei por alguns segundos.
A diferença entre aquele lugar e a minha vida parecia quase ofensiva.
Ali, tudo transmitia dinheiro, organização e poder.
Eu vinha de um apartamento alugado onde havia passado a noite olhando contas que não podia pagar.
Respirei fundo e falei baixinho para mim mesma:
— Juliana, é pelo dinheiro. Você consegue.
Não era uma frase heroica.
Também não era uma tentativa de fingir que eu estava confortável.
Era apenas o lembrete de por que eu tinha ido até ali.
Quem me recebeu foi Dona Vera, a governanta dos Ferraz.
Ela tinha postura rígida e um olhar atento que parecia registrar cada pequeno detalhe.
Eu havia imaginado uma entrevista longa, perguntas sobre minha formação, minha personalidade, meus objetivos ou talvez sobre o motivo de eu ter me candidatado.
Nada disso aconteceu.
Dona Vera não perguntou sobre minha faculdade.
Não perguntou sobre meu primeiro emprego.
Não quis saber quais eram meus planos para os próximos anos.
Ela simplesmente colocou diante de mim uma solicitação de exames médicos.
— Se estiver levando a proposta a sério, compareça a este hospital para uma avaliação completa. Todas as despesas serão pagas pela família Ferraz.
Olhei para o documento.
Aquela era a primeira confirmação concreta de que a proposta realmente funcionava da maneira descrita.
Antes de qualquer conversa sobre casamento, antes de qualquer encontro com Henrique, antes até de conhecer Dona Helena Ferraz, o que a família queria saber era se meu corpo atendia ao que procuravam.
A sensação deveria ter me feito levantar e ir embora.
Em vez disso, pensei no meu pai.
A organização daquilo tudo também me convenceu de que, pelo menos, não parecia um golpe improvisado.
Havia hospital, exames, procedimentos claros e uma pessoa responsável por me orientar.
Peguei a solicitação.
Fiz todos os exames pedidos.
Durante aqueles dias, tentei continuar minha rotina normalmente, mas era impossível não pensar no que estava acontecendo.
Em algum lugar, pessoas que eu nem conhecia analisariam resultados médicos para decidir se eu avançaria numa seleção que poderia mudar completamente a vida da minha família.
Eu ainda não sabia se queria ser escolhida.
Essa era a parte que eu não admitia nem para mim mesma.
Uma parte de mim desejava que ligassem imediatamente dizendo que meus exames eram perfeitos.
Outra parte quase torcia para que alguma informação comum e inofensiva me eliminasse do processo, poupando-me de tomar uma decisão muito maior depois.
Três dias se passaram.
Naquela noite, eu estava no apartamento comendo macarrão instantâneo quando o celular tocou.
Olhei para a tela antes de atender.
Era Dona Vera.
Minha mão ficou parada por um instante.
Então aceitei a chamada.
— Seus exames apresentaram resultados excelentes — informou ela.
Não houve suspense na voz.
Não houve elogio.
A frase foi dita com a mesma objetividade com que ela havia me entregue a solicitação no escritório.
Antes que eu conseguisse responder qualquer coisa, veio a segunda parte.
— Dona Helena gostaria de conhecê-la pessoalmente.
Segurei o garfo no ar.
O macarrão esfriava diante de mim, mas eu já não conseguia prestar atenção em nada dentro daquele apartamento.
Alguns dias antes, eu era apenas uma jovem de 23 anos procurando uma forma de impedir que as dívidas e a doença do meu pai arrastassem toda a minha família para o fundo.
Depois, eu tinha sido uma candidata entre sabe-se lá quantas mulheres que clicaram num anúncio inacreditável.
Agora meus exames tinham sido aprovados.
E a própria Dona Helena Ferraz queria me conhecer.
Foi naquele instante que compreendi que eu já não estava apenas observando de longe a vida de uma família poderosa.
Eu tinha atravessado a primeira porta.
Ainda não conhecia Henrique.
Ainda não sabia quais condições os Ferraz colocariam diante de mim.
Ainda não sabia por que aquela família estava disposta a pagar R$ 4 milhões por uma gravidez confirmada, R$ 24 milhões pelo nascimento de um menino e R$ 16 milhões pelo nascimento de uma menina.
Muito menos imaginava que, anos depois, eu estaria ligada àquela mesma família no momento em que um médico sairia de uma sala de parto para anunciar o nascimento de outro menino saudável.
O terceiro.
O bebê cuja chegada faria Dona Helena Ferraz perder as forças no corredor e perguntar, diante de todos, por que ainda não tinha morrido.
Naquela noite, porém, eu não sabia de nada disso.
Eu só tinha o celular encostado no ouvido, uma dívida de aproximadamente R$ 600 mil pesando sobre minha família e um convite para conhecer pessoalmente a mulher que podia mudar todas as nossas vidas.
Dona Vera esperava minha resposta.
Olhei para as contas sobre a mesa.
Pensei no meu pai.
E entendi que, depois daquela ligação, fingir que o anúncio dos Ferraz era apenas uma curiosidade já não seria possível.