Antes que eu pudesse decidir o que fazer com aquela bomba escondida, ouvi o mecanismo da entrada da Suíte 914 se fechar do lado de fora.
Não foi o som normal de uma porta encostando.
Alguém havia usado a trava.

Meu primeiro impulso foi correr até lá, mas Roman moveu dois dedos sobre o lençol e balançou a cabeça quase imperceptivelmente.
— Não.
A voz dele era tão fraca que precisei me aproximar para ouvir.
— Finja que não viu nada.
Olhei para o tubo transparente que desaparecia entre os outros cabos ligados ao acesso intravenoso dele.
A pequena bolsa da bomba secundária estava quase vazia, e a ideia de que alguém pudesse entrar a qualquer momento para trocar aquilo fez meu estômago se contrair.
— A porta está trancada — sussurrei.
Roman fechou os olhos por dois segundos, como se estivesse procurando força dentro do próprio corpo.
— Eu sei.
Foi a maneira como ele respondeu que me assustou.
Não parecia surpresa.
Parecia reconhecimento.
Passos pararam do outro lado.
Ouvi um cartão encostar no leitor eletrônico e empurrei imediatamente a mesa auxiliar de volta para perto da cama, escondendo o equipamento atrás dos cabos exatamente como estava antes.
Roman voltou a ficar imóvel.
A porta se abriu.
Era a mesma enfermeira que havia entrado poucos minutos antes.
Desta vez, ela não perguntou se estava tudo bem.
Entrou, fechou a porta atrás de si e olhou primeiro para mim, depois para a cabeceira da cama.
— Você ainda está aqui?
Segurei o pano de limpeza com tanta força que meus dedos começaram a doer.
— O chão perto da cama ainda estava úmido.
Ela olhou para o piso.
Estava seco.
Eu tinha escolhido a pior mentira possível.
A enfermeira não me corrigiu.
Apenas caminhou até o lado de Roman.
Então percebi algo que não havia notado na primeira vez.
Ela não olhou para o monitor principal.
Não verificou a pressão.
Não examinou o rosto dele.
Sua atenção foi direto para os tubos próximos ao travesseiro.
Meu coração bateu tão forte que achei que ela conseguiria ouvir.
Ela passou a mão atrás da cama.
Parou.
Seus olhos vieram imediatamente para mim.
— Você mexeu aqui?
— Só afastei a mesa para limpar.
— Não deveria fazer isso.
— Eu não sabia.
Ela continuou me observando.
Então puxou a mesa alguns centímetros para o lado e verificou a bomba escondida.
A bolsa ainda estava conectada.
A enfermeira tocou no equipamento, conferiu alguma coisa e soltou o ar discretamente.
Alívio.
Foi rápido.
Mas eu vi.
Roman também deve ter percebido, porque a mão dele se moveu sob o cobertor e encontrou a ponta dos meus dedos quando ninguém podia enxergar.
Foi um toque mínimo.
Um aviso.
A enfermeira endireitou o corpo.
— Seu turno termina quando?
— Às quatro.
Era mentira outra vez.
Meu turno terminava às três.
— Então termine este quarto e vá para o oitavo andar.
— Certo.
Ela caminhou até a porta, mas antes de sair se virou.
— Elena.
Congelei.
Eu não me lembrava de ter dito meu nome a ela naquela noite.
Talvez tivesse lido no crachá.
Talvez.
— Não volte a mover a cama do senhor DeLuca.
— Tudo bem.
Ela saiu.
Ouvi novamente o clique da fechadura.
Esperei até os passos desaparecerem.
Roman abriu os olhos.
— Ela sabe.
— Que você acordou?
— Ainda não.
Ele respirou com dificuldade.
— Sabe que você encontrou a bomba.
Ajoelhei-me perto da cama para que ele não precisasse elevar a voz.
— Como pode ter certeza?
Roman olhou para a porta.
— Porque ela nunca entra duas vezes.
Aquilo mudou tudo.
Eu estivera pensando no equipamento como uma descoberta terrível, mas isolada.
Roman estava me dizendo que havia rotina.
Horário.
Pessoas.
Um método repetido tantas vezes que ele reconhecia até quem devia aparecer e quando.
— Você ficava consciente?
Os olhos dele demoraram a voltar para mim.
— Às vezes.
Cada palavra parecia arrancada de um lugar profundo.
— Minutos. Talvez mais. Nunca conseguia mexer o corpo.
— Durante quanto tempo?
Roman fechou os olhos e tornou a abri-los.
— Meses.
Senti um frio subir pelos braços.
Dois anos cercado por pessoas que acreditavam que ele não ouvia nada.
Dois anos de conversas sobre empresas, propriedades e votos familiares diante de um homem incapaz de responder.
— O acidente deixou você assim?
Roman demorou antes de responder.
— No começo, sim.
A frase seguinte saiu quase sem voz.
— Depois eu comecei a melhorar.
Olhei novamente para a bomba.
Não precisei perguntar o restante.
Roman explicou mesmo assim.
Havia começado a perceber o quarto em intervalos curtos muitos meses antes.
Primeiro, vozes.
Depois, luz.
Depois, a sensação das mãos de alguém mexendo nos acessos intravenosos durante a madrugada.
Em algumas ocasiões, conseguira mover um dedo.
Em outras, tentou abrir os olhos.
Sempre acabava mergulhando novamente naquela névoa pesada antes que pudesse fazer qualquer coisa.
— Achei que estava enlouquecendo — murmurou.
Então seus olhos foram para o equipamento escondido.
— Até começar a ouvir as conversas.
— Que conversas?
Roman apertou os lábios antes de responder.
— Eles falavam como se eu já estivesse enterrado.
Eu me lembrei dos homens de terno que apareciam na suíte e discutiam negócios ao lado da cama.
Nunca gritavam.
Nunca demonstravam medo de serem ouvidos.
Por que demonstrariam?
Para todos, Roman DeLuca era incapaz de compreender qualquer coisa.
— Ouvi uma frase várias vezes — continuou ele.
Esperei.
— Até a votação.
A palavra me fez lembrar de uma discussão que eu mesma presenciara três semanas antes.
Dois homens haviam ficado perto da janela falando sobre participações em empresas e sobre alguém que precisava convencer mais dois membros da família antes de uma decisão.
Eu não entendera nada.
Nem precisava entender.
Estava ali para trocar o lixo.
Agora aquela conversa ganhava outro peso.
— Eles precisam que você continue incapaz de responder — concluí.
Roman não confirmou imediatamente.
— Precisam que eu continue fora do caminho.
Foi então que compreendi por que ele não queria que eu chamasse qualquer médico ou enfermeiro.
Nós não sabíamos quem estava envolvido.
Pior: não sabíamos quem não estava.
Eu tirei meu celular do bolso.
— Tem alguém em quem você confia?
Roman olhou para o aparelho e depois para mim.
— Minha irmã.
Pensei nas flores brancas que apareciam todas as sextas-feiras.
— A mulher que traz as flores?
Ele assentiu.
— Ela ainda vem?
— Toda semana.
A expressão dele se transformou por um instante.
Não chegou a ser alívio.
Foi alguma coisa mais frágil.
A confirmação de que uma parte de sua vida ainda existia.
— Você lembra o número dela?
Roman ditou os dígitos lentamente.
Digitei.
Antes de enviar qualquer coisa, mostrei a tela para ele.
Eu havia escrito apenas: Roman acordou. Não fale com ninguém do hospital. Venha sozinha para o nono andar.
Ele leu duas vezes.
— Tire meu nome.
Apaguei.
— Por quê?
— Se pegarem seu telefone, não quero que saibam o que você viu.
Reescrevi a mensagem: Seu irmão falou comigo. Venha sozinha para o nono andar e não avise ninguém.
Roman assentiu.
Enviei.
A mensagem levou poucos segundos para ser entregue.
Depois disso, não havia como voltar atrás.
— Agora você precisa sair — disse ele.
Olhei para a porta trancada.
— Excelente ideia.
Por um instante, algo quase parecido com humor passou pelos olhos dele.
Sumiu tão rápido quanto surgiu.
— O carrinho.
— O que tem ele?
— Faça barulho.
Entendi.
Empurrei o carrinho contra a lateral da porta com força suficiente para derrubar um frasco plástico e um pacote de papel no chão.
Depois bati duas vezes.
— Ei! A porta travou!
Nenhuma resposta.
Bati novamente.
— Tem alguém aí?
Demorou quase um minuto.
Então ouvi passos rápidos.
A trava foi liberada.
Um segurança apareceu do lado de fora, o mesmo homem que eu via cochilando perto da suíte em várias madrugadas.
— O que aconteceu?
— A porta não abriu.
Ele testou o mecanismo.
Funcionou normalmente.
— Deve ter dado algum erro.
Olhou para Roman.
Depois para mim.
— Terminou?
— Terminei.
Saí empurrando o carrinho sem olhar para trás.
Cada passo pelo corredor parecia errado.
Eu tinha acabado de abandonar um homem que despertara depois de dois anos e me dissera que alguém dentro do hospital estava mantendo-o sedado de propósito.
Mas ficar na suíte também seria uma maneira de chamar atenção.
Fui até a sala de materiais no fim do corredor e comecei a organizar toalhas que não precisavam ser organizadas.
Onze minutos depois, meu celular vibrou.
A resposta tinha apenas quatro palavras.
Estou chegando. Fique perto.
Não respondi.
Voltei ao corredor com o carrinho.
A enfermeira estava diante da Suíte 914.
Desta vez, carregava uma pequena bandeja.
Sobre ela havia uma seringa preparada.
Meu corpo reagiu antes que eu pudesse pensar.
Comecei a empurrar o carrinho na direção dela.
— Precisa que eu troque o lixo?
A enfermeira virou o rosto.
— Eu mandei você para o oitavo andar.
— O elevador de serviço está demorando.
— Então espere lá.
Ela abriu a porta.
Vi Roman imóvel na cama.
A seringa continuava em sua mão.
— O que é isso? — perguntei.
Ela me encarou.
— Medicação do paciente.
— Qual?
A expressão dela endureceu.
— Elena, isso não é assunto seu.
Talvez não fosse.
Mas naquele momento percebi que havia uma diferença entre ultrapassar um limite e assistir alguém ser empurrado de volta para uma prisão que ninguém conseguia ver.
Coloquei o carrinho atravessado junto à entrada.
Não impedi a passagem.
Apenas não fui embora.
— Ele falou comigo.
A enfermeira não se mexeu.
Foi a primeira confirmação que recebi de que Roman estava certo.
Uma profissional surpreendida por um paciente em coma acordando teria feito perguntas.
Teria chamado alguém.
Teria olhado para os monitores.
Ela não fez nada disso.
Apenas perguntou:
— O que ele disse?
Minha boca secou.
— Então você acredita em mim.
Ela percebeu o erro.
Tarde demais.
— Saia do quarto.
— Não até você me dizer o que tem nessa seringa.
Ela deu um passo na minha direção.
— Você pode perder seu emprego por interferir no tratamento de um paciente.
A ameaça funcionou melhor do que ela imaginava.
Eu precisava daquele emprego.
Precisava do aluguel pago.
Precisava do dinheiro que mandava para minha família.
Durante alguns segundos, pensei em tudo isso.
Então pensei na mão trêmula de Roman prendendo meu pulso e pedindo para não chamar ninguém.
Ele não me prometera dinheiro.
Não me prometera proteção.
Não sabia sequer meu sobrenome.
Só havia confiado em mim porque eu era a única pessoa presente quando ele finalmente conseguiu abrir os olhos.
— Pode ser — respondi.
Empurrei o carrinho para o lado e entrei na suíte.
A enfermeira veio atrás de mim.
Roman continuava com os olhos fechados.
— Senhor DeLuca — falei.
Nada.
A enfermeira soltou uma respiração curta.
— Viu? Você interpretou algum movimento involuntário como…
Roman abriu os olhos.
A enfermeira parou de falar.
Ele virou o rosto lentamente na direção dela.
Nunca vou esquecer aquela transformação.
O homem na cama continuava fraco.
Mal conseguia levantar a cabeça.
Mas, pela primeira vez, eu entendi por que tantas pessoas tinham medo dele antes do acidente.
Não foi por causa de gritos.
Foi porque Roman olhou para a seringa e depois para a mulher que a segurava como se estivesse registrando cada detalhe.
— Tire — disse ele.
A enfermeira não reagiu.
— Roman… você está desorientado.
Ele tentou erguer a mão.
Não conseguiu mais do que alguns centímetros.
Mesmo assim, apontou para seu acesso intravenoso.
— Sua mão. Tire.
Ela afastou a seringa.
— Preciso chamar o médico.
— Não você.
A enfermeira olhou para mim.
— Elena, saia e chame o segurança.
Antes que eu respondesse, ouvimos passos no corredor.
Uma mulher apareceu na porta.
Eu a reconheci imediatamente.
Era a irmã das flores brancas.
Ela olhou primeiro para mim, depois para a enfermeira e finalmente para a cama.
Roman estava com os olhos abertos.
A mulher levou as duas mãos à boca.
— Roman?
Ele virou a cabeça na direção dela.
A voz saiu baixa, mas clara.
— Não deixe ninguém colocar nada no meu acesso.
A irmã atravessou o quarto.
Ela não tentou abraçá-lo.
Não fez perguntas.
Apenas se colocou ao lado da cama e olhou para a seringa na mão da enfermeira.
— O que é isso?
— Medicação prescrita.
— Por quem?
A enfermeira começou a explicar que Roman precisaria ser avaliado e que todos deviam manter a calma.
A irmã apontou para a bomba escondida.
— E aquilo?
A enfermeira ficou em silêncio por tempo demais.
Eu contei exatamente o que tinha encontrado.
Não falei em assassinato.
Não falei em conspiração.
Disse apenas onde o equipamento estava, como estava conectado e o que Roman havia me pedido para não tocar.
A irmã se abaixou para olhar.
Quando tornou a levantar, sua expressão havia mudado.
— Essa bomba não estava aqui ontem à tarde.
Roman fechou os olhos por um instante.
— Então alguém coloca à noite — falei.
A enfermeira respondeu depressa demais.
— Equipamentos podem ser substituídos conforme necessidade clínica.
A irmã estendeu a mão.
— Então me mostre a identificação dela.
Não havia identificação.
Nenhum adesivo visível com o padrão dos outros equipamentos da suíte.
Nenhuma etiqueta como as que eu via diariamente ao limpar quartos.
A enfermeira tentou pegar a bomba.
Roman abriu os olhos outra vez.
— Não.
Desta vez, a irmã segurou o equipamento antes dela.
Não arrancou o tubo.
Não desconectou nada.
Apenas impediu que desaparecesse atrás da cama novamente.
— Ninguém toca nisso até outra equipe avaliar — disse ela.
A enfermeira encarou a mão dela sobre a bomba.
Depois olhou para a porta.
Foi quando Roman perguntou:
— Quanto pagaram?
A mulher ficou imóvel.
— Você está confuso.
— Toda terça e quinta, depois das duas.
O rosto da enfermeira perdeu a rigidez profissional.
Roman continuou.
— Você vinha depois que o corredor esvaziava.
Ela tentou responder, mas ele ainda não havia terminado.
— Eu ouvia seus sapatos.
A irmã me olhou.
Eu não sabia se aquilo era verdade ou uma armadilha.
A enfermeira também não.
E foi exatamente por isso que funcionou.
— Eu só fazia o que estava prescrito — disse ela.
Roman respirou fundo.
— Por quem?
Ela não respondeu.
A irmã fez a pergunta novamente.
— Por quem?
A enfermeira apertou a seringa na mão.
— As ordens vinham por intermédio da administração particular do paciente.
Roman fechou os olhos.
Não porque estivesse desmaiando.
Pareceu reconhecer aquelas palavras.
— Os homens de terno — murmurei.
Ele me ouviu.
— Um deles.
A irmã se inclinou sobre o irmão.
— Qual?
Roman não deu nome algum.
Em vez disso, disse uma frase que eu já havia ouvido sem compreender algumas semanas antes.
— Depois da votação, não importa.
A irmã recuou como se tivesse recebido um golpe invisível.
Então tudo começou a se encaixar.
A reunião sobre as empresas.
As propriedades.
As conversas ao lado da cama.
A pressa para tomar decisões enquanto Roman continuava legal e praticamente incapaz de participar delas.
A bomba não era o objetivo.
Era o meio.
O verdadeiro objetivo era tempo.
Roman precisava permanecer exatamente como estava até que as pessoas ao redor dele terminassem de reorganizar uma vida que ainda pertencia a ele.
A enfermeira tentou sair.
A irmã não a segurou.
Roman também não mandou ninguém persegui-la.
Ele apenas pediu que o equipamento não fosse removido e que tudo o que estivesse conectado a ele fosse examinado por profissionais que não tivessem participado daquele plantão.
Foi a primeira decisão que o vi tomar depois de dois anos sendo tratado como um corpo sem vontade.
Nas horas seguintes, a Suíte 914 deixou de ser o quarto silencioso que eu conhecia.
Outras pessoas foram chamadas, mas a irmã foi cuidadosa em não deixar que a história se transformasse em boato antes de Roman conseguir ser avaliado.
A bomba e a bolsa quase vazia foram preservadas.
O acesso de Roman foi examinado.
A medicação escondida deixou de ser uma suspeita sussurrada atrás de uma cama e passou a ser uma pergunta que exigia resposta.
E Roman continuou acordado.
Isso era o mais importante.
Ele falava pouco.
Dormia por períodos longos.
Tremia quando tentava mover os braços.
Mas despertava novamente sem aquela névoa que, segundo ele, sempre o arrastava de volta.
Ao amanhecer, sua irmã recebeu uma ligação relacionada à reunião familiar que aconteceria naquele mesmo dia.
Ela ouviu por menos de um minuto.
Então respondeu:
— Não haverá votação sem ele.
Roman estava acordado quando ela desligou.
— Eles vão tentar dizer que não estou em condições — disse.
— Então melhore primeiro — respondeu ela.
Foi a primeira vez que vi alguém falar com Roman sem medo, sem bajulação e sem agir como se ele estivesse morto.
Ele quase sorriu.
A investigação sobre quem havia autorizado as doses não terminou naquela manhã.
Nem poderia.
Havia registros para verificar, decisões médicas para revisar e pessoas que, de repente, tinham muito mais a explicar do que poucas horas antes.
Mas uma coisa já não podia ser apagada.
Roman DeLuca tinha falado diante de mim, da irmã e da própria enfermeira que apareceu com a seringa.
Ele sabia onde estava.
Reconhecia pessoas.
Lembrava conversas.
E sabia exatamente por que não queria ser sedado outra vez.
A enfermeira tentou sustentar que tudo havia sido feito seguindo instruções recebidas de terceiros.
Talvez parte daquilo fosse verdade.
Talvez ela tivesse começado acreditando que obedecia a um protocolo legítimo.
Talvez soubesse desde o primeiro dia o que estava acontecendo.
Roman não precisava resolver essa parte naquele momento.
Pela primeira vez em dois anos, ele tinha algo que seus inimigos não podiam controlar tão facilmente.
A própria voz.
Eu, por outro lado, tinha um problema bem mais imediato.
Meu supervisor apareceu pouco depois das seis da manhã querendo saber por que eu ainda estava no nono andar e por que meu carrinho de limpeza permanecia perto da suíte de um paciente de segurança especial.
Eu já imaginava meu crachá sendo recolhido.
Roman ouviu a conversa do quarto.
— Elena.
Meu supervisor parou.
Eu também.
Roman ergueu a cabeça o máximo que conseguiu.
— Ela fica.
Meu supervisor olhou para a irmã dele.
Ela confirmou apenas com a cabeça.
Não foi uma ameaça.
Não foi uma ordem de mafioso.
Foi simplesmente a primeira vez que Roman usou sua recém-recuperada capacidade de escolha para proteger alguém que, horas antes, era praticamente invisível naquele corredor.
Mesmo assim, quando finalmente pude ir embora, minhas pernas tremiam dentro do elevador.
Cheguei ao meu quarto no Queens depois das oito.
Não consegui dormir.
Toda vez que fechava os olhos, via Roman acordando no instante seguinte ao beijo.
Depois via a seringa.
Depois a bomba.
Depois a porta trancada.
Passei o dia inteiro esperando uma ligação dizendo que eu estava demitida, que precisava prestar depoimento ou, pior, que Roman tinha voltado a ficar inconsciente.
A ligação veio no fim da tarde.
Era a irmã dele.
Roman estava acordado.
Fraco, mas acordado.
E queria falar comigo quando eu retornasse ao hospital.
Voltei na noite seguinte.
A Suíte 914 parecia diferente mesmo antes de eu entrar.
A porta estava aberta.
Não havia bomba escondida atrás da cama.
Os cabos estavam organizados de maneira que tudo pudesse ser visto.
As flores brancas continuavam sobre a mesa, mas agora estavam afastadas dos papéis e dos aparelhos.
Roman estava desperto.
Quando me viu, apontou para a cadeira.
— Sente.
— Eu estou trabalhando.
— Por cinco minutos.
— Você acabou de acordar de um coma e já começou a dar ordens?
Desta vez ele sorriu de verdade.
Foi pequeno.
Cansado.
Humano.
Sentei.
Durante alguns segundos, nenhum de nós mencionou o beijo.
Era estranho demais.
Então Roman resolveu o problema.
— Por quê?
Eu sabia exatamente o que ele estava perguntando.
— Eu achei que você nunca fosse acordar.
— Isso não explica por que me beijou.
Olhei para minhas mãos.
— Todo mundo entrava naquele quarto e falava sobre você como se você não estivesse ali.
Ele permaneceu quieto.
— Acho que eu fiz uma coisa idiota porque, naquela hora, você parecia a pessoa mais sozinha do hospital.
Roman levou algum tempo para responder.
— Eu estava ouvindo naquela noite.
Meu coração parou por um instante.
— Antes do beijo?
— Não conseguia abrir os olhos.
— Ótimo. Isso melhora muito a situação.
O canto da boca dele se moveu.
— Eu senti você ajeitar o cobertor.
Lembrei-me daquele gesto pequeno que fazia quase todas as noites sem pensar.
— E depois você me beijou.
Cobri o rosto com uma das mãos.
— Podemos fingir que essa parte aconteceu depois de você acordar?
— Não.
A resposta veio tão rápida que comecei a rir.
Roman também tentou.
Parou porque ainda doía respirar fundo.
Depois ficou sério.
— Elena.
Olhei para ele.
— Você acreditou em mim antes de ter qualquer motivo para acreditar.
— Eu vi sua mão se mexer.
— Muita gente teria chamado a primeira pessoa no corredor.
— Eu quase chamei.
— Mas não chamou.
Aquilo era verdade.
E percebi então que o momento decisivo não tinha sido o beijo.
Nem mesmo a descoberta da bomba.
Tinha sido a escolha seguinte.
Eu podia ter tratado Roman como todas as outras pessoas tratavam: como um problema a ser entregue imediatamente a alguém mais importante.
Em vez disso, escutei o que ele conseguiu dizer.
Meses depois, descobri que as consequências daquela madrugada ainda estavam se espalhando.
A reunião familiar que deveria decidir o controle de parte das empresas foi adiada.
As pessoas que haviam discutido negócios livremente ao lado da cama passaram a responder por decisões tomadas enquanto Roman não podia se defender.
A origem das ordens relacionadas ao sedativo acabou sendo ligada a alguém do círculo que administrava os interesses dele durante sua incapacidade, exatamente o tipo de pessoa cuja voz Roman havia ouvido repetidas vezes no quarto.
A enfermeira admitiu ter recebido instruções fora do fluxo comum do tratamento e tentou justificar sua participação dizendo que acreditava estar cumprindo determinações autorizadas.
Roman não aceitou que essa explicação encerrasse o assunto, mas também não permitiu que sua recuperação fosse transformada numa guerra dentro do hospital.
Ele tinha uma prioridade diferente.
Aprender a ficar de pé outra vez.
No começo, foram segundos.
Depois alguns passos com apoio.
Depois corredores curtos.
O homem que antes controlava salas inteiras precisou reaprender coisas que ninguém considera poder até perdê-las: segurar um copo, abotoar a própria camisa, caminhar até uma janela sem ajuda.
Eu continuava trabalhando à noite.
Continuava limpando pisos, esvaziando lixeiras e enviando dinheiro para minha família.
Roman continuava sendo Roman DeLuca, com um passado que eu não fingia compreender e uma vida que jamais se tornaria simples apenas porque ele havia acordado.
Mas a relação entre nós deixou de caber na história daquele beijo roubado de um homem que eu acreditava estar inconsciente.
Algumas semanas depois, entrei na suíte para recolher o lixo e encontrei Roman sentado sozinho na cadeira próxima à janela.
As flores brancas da irmã estavam sobre a mesa.
A porta permanecia aberta.
Ele percebeu que eu olhava para ela.
— Pedi para não trancarem mais.
— Faz sentido.
— Não é por medo.
— Claro que não.
Roman ergueu uma sobrancelha.
— Você está debochando de mim?
— Um pouco.
Ele ficou em silêncio por um momento.
Depois apontou para a porta aberta.
— Durante dois anos, todo mundo entrava aqui quando queria.
Esperei.
— Agora eu decido quem entra.
Aquilo não soou como ameaça.
Soou como alguém recuperando uma coisa básica que havia perdido muito antes de conseguir abrir os olhos.
Controle sobre a própria vida.
Quando terminei de trocar o saco da lixeira, Roman chamou meu nome.
Virei.
Ele estava apoiado na cadeira, ainda magro, ainda fraco, mas completamente desperto.
— Da próxima vez — disse — não precisa esperar eu entrar em coma.
Demorei um segundo para entender.
Então senti meu rosto esquentar.
— Você está falando do beijo?
— Estou.
— Você ficou dois anos sem falar e decidiu gastar suas palavras com isso?
— Tenho prioridades.
Balancei a cabeça e empurrei o carrinho para o corredor.
Roman não tentou me impedir.
Não chamou meu nome novamente.
Também não pediu resposta.
E talvez tenha sido justamente por isso que parei na soleira.
Na primeira noite, eu o havia beijado porque achava que ele nunca teria a chance de escolher nada sobre aquele momento.
Agora ele podia.
Eu também.
Deixei o carrinho do lado de fora, voltei dois passos e me inclinei perto dele.
— Desta vez você está acordado?
Roman me olhou como se a pergunta fosse a coisa mais absurda que já tinha ouvido.
— Completamente.
Foi ele quem reduziu a distância restante.
O beijo durou pouco.
Nada apitou.
Nenhuma mão surgiu de repente sobre meu ombro.
Nenhuma porta se fechou atrás de nós.
Quando me afastei, Roman olhou para a entrada aberta da suíte e depois para mim.
Meses antes, aquela porta havia sido usada para nos prender dentro de um quarto onde outras pessoas decidiam o que ele podia saber, dizer e até quando podia despertar.
Agora ela permanecia aberta porque ele havia escolhido assim.
E, naquela noite, fui eu quem saiu por ela sem pressa.