O marido de Elena segurava a situação como se tudo tivesse uma explicação simples.
Para ele, a esposa apenas tinha pegado uma partitura que não pertencia a ela.
Mas, naquele salão, havia detalhes que não combinavam com essa versão.

Elena estava tremendo.
Renata tinha perdido a cor do rosto no instante em que viu aquelas páginas.
E Héctor Valdés observava Elena do outro lado do ambiente com a expressão de alguém que acabara de reencontrar uma pessoa que acreditava ter desaparecido para sempre.
O problema daquela noite não era apenas uma partitura.
Era uma história interrompida há anos voltando diante de todos.
E o homem que estava ao lado de Elena descobria que havia se casado com alguém cujo passado ele nunca conheceu completamente.
A tensão aumentou quando Renata se aproximou rapidamente.
Ela estendeu a mão para as folhas e falou em voz baixa, mas firme.
—Me dá isso. Agora.
Elena não entregou.
Em vez disso, colocou a partitura aberta sobre o piano e segurou as páginas com a mão trêmula.
O marido ainda tentava entender tudo pela explicação mais fácil.
—Elena, devolve isso para a Renata.
Foi então que Héctor atravessou o salão.
Ele não tentou pegar o papel.
Não tocou em Elena.
Apenas olhou para a partitura como alguém que reconhecia algo que ninguém mais ali entendia.
—A folha sete. Vire.
Elena fechou os olhos por um instante.
Ela sabia exatamente o que estava naquela página.
—No terceiro compasso existem duas notas riscadas. Na linha seguinte, uma pausa está marcada no lugar errado. Eu deixei assim porque ainda corrigiria antes da versão final.
Quando virou a folha, todos viram.
As duas notas estavam riscadas.
A pausa continuava marcada.
O marido de Elena olhou para o papel e depois para ela.
Pela primeira vez naquela noite, ele percebeu que havia uma parte daquela história que sua esposa nunca tinha contado.
Renata tentou se aproximar novamente, mas Héctor impediu o caminho com um gesto.
—Isso não prova nada — disse Renata. —Ela pode ter visto essa partitura antes.
Elena respondeu sem desviar o olhar.
—Vi. Antes de você.
Héctor observou as correções escritas à mão nas margens.
Ele conhecia aqueles traços.
Conhecia aquela forma de corrigir uma composição.
Anos antes, ele tinha visto Elena fazer aquelas alterações quando aquela música ainda estava incompleta.
—Eu estava presente — afirmou. —Essas marcações foram feitas por Elena.
O marido ficou parado por alguns segundos.
—Você está dizendo que essa música é dela?
Renata respondeu antes de Héctor.
—Não é tão simples.
A frase fez Elena encarar a mulher.
—Então explica de um jeito simples. Por que uma partitura que eu deixei para trás estava nas suas mãos esta noite?
Renata apertou os dedos contra o vestido.
E aquele pequeno gesto mudou a forma como o marido de Elena enxergava tudo.
Ele percebeu que ela estava escondendo alguma coisa.
Então perguntou:
—Você já conhecia Elena antes de hoje?
Renata demorou a responder.
—Eu conhecia quem ela era.
A frase carregava anos de segredo.
Elena segurou novamente as páginas.
—Onde você conseguiu isso?
Renata tentou evitar a resposta.
—Você foi embora. Todo mundo achou que você não voltaria.
—Não foi isso que eu perguntei.
Renata respirou fundo.
Então admitiu.
—Eu peguei a partitura depois que você desapareceu.
O marido de Elena virou o rosto lentamente.
Até aquele momento, ele acreditava que sua esposa era a pessoa que precisava se explicar.
Agora, a própria Renata tinha revelado que aquelas páginas estavam com ela desde o desaparecimento de Elena.
A pergunta mudou.
Por que ela deixou todos acreditarem em outra versão?
Por que permitiu que Elena fosse vista como alguém que tinha tomado algo que não era seu?
Elena perguntou novamente:
—Por quê?
Renata respondeu que, no começo, pensou em devolver depois.
Mas o tempo passou.
Elena não voltou.
E devolver aquelas páginas significaria revelar tudo o que Renata preferia manter escondido.
O marido de Elena ouviu em silêncio.
Ele já não olhava para a esposa como alguém que precisava se defender.
Ele olhava para ela como alguém que carregava uma história inteira que ele nunca conheceu.
Então Elena soltou a partitura.
Ela alinhou as folhas com cuidado e estendeu para ele.
Dessa vez, ele não pediu que ela devolvesse nada a Renata.
Ele recebeu aquelas páginas com as duas mãos.
O objeto que tinha causado a acusação agora estava mostrando uma verdade diferente.
Ele examinou as marcações e reconheceu alguns traços da caligrafia de Elena.
Depois encarou Renata.
—Ela não estava roubando nada de você.
Renata ficou alguns segundos sem responder.
—Não.
A confirmação machucou Elena mais do que a acusação inicial.
Porque significava que Renata sabia exatamente o que estava fazendo.
—Então termina de contar — pediu Elena.
Renata explicou que encontrou a partitura depois que Elena desapareceu e decidiu guardá-la.
No começo, dizia a si mesma que seria apenas por pouco tempo.
Mas os meses passaram.
Depois vieram os anos.
E devolver aquelas páginas significaria abrir uma história que ela tentou esconder.
—Você deixou as pessoas acreditarem que era sua? — perguntou Elena.
Renata baixou os olhos.
—Eu deixei que acreditassem no que fosse mais fácil.
Héctor então percebeu algo nas folhas.
A numeração não estava completa.
Havia uma página faltando.
Elena também percebeu.
A última folha da versão original não estava ali.
Ela olhou para Renata.
—Onde ela está?
Renata encarou Elena.
Depois olhou para o marido dela, o homem que acabara de descobrir que conhecia apenas uma parte da vida da própria esposa.
Sem dizer nada, abriu a bolsa.
De dentro, tirou uma folha dobrada.
Era a última página da partitura.
Renata colocou o papel nas mãos do marido de Elena.
Mas ainda havia uma pergunta que ninguém tinha feito.
Por que aquela página foi separada das outras durante todos aqueles anos?
E o que exatamente Elena tinha escrito nela antes de desaparecer?
A resposta estava naquela folha que agora mudava completamente o significado daquela noite.