Lucía apagou a luz do camarote no instante em que a voz de Elena chegou pelo corredor. Valeria ficou imóvel, enquanto a água do chuveiro continuava correndo para esconder qualquer sussurro entre as duas.
Do outro lado da porta, os passos permaneceram por alguns segundos.
Depois, desapareceram.

Lucía não acendeu a luz novamente.
Ela levou um dedo aos lábios e esperou mais um pouco antes de falar.
—Eles acham que você está dormindo.
Valeria segurou o celular com força.
—Você disse que sua irmã desapareceu durante a lua de mel.
—Sim.
—E você acha que foi a mesma coisa?
Lucía olhou para a porta fechada.
—Não acho. Eu sei que foi.
A resposta fez Valeria entender que aquela mulher não tinha entrado ali por acaso.
Lucía contou que Daniela havia desaparecido cinco anos antes, depois de se casar com um primo de Sebastián. A família dizia que ela tinha fugido, mas ninguém jamais encontrou o corpo, a bagagem completa ou qualquer explicação que fechasse a história.
Na época, Lucía trabalhava em outro barco e só começou a juntar as peças muito depois.
Uma mulher que conhecera Daniela também havia desaparecido.
Outra terminou internada depois de uma suposta queda.
Outra assinou documentos antes de uma viagem e, depois dela, perdeu praticamente todo o controle sobre o próprio dinheiro.
Lucía não tinha uma prova que explicasse tudo.
Tinha um padrão.
E agora Valeria estava dentro dele.
—Se você realmente ouviu o que disse — sussurrou Lucía —, precisa entender uma coisa. Eles não estão pensando apenas em matar você.
Valeria sentiu o estômago apertar.
—Então o que eles querem?
—Tempo.
A palavra pareceu estranha naquele momento.
Lucía explicou que, depois do desaparecimento, a família precisaria controlar a história antes que alguém começasse a fazer perguntas. Por isso, documentos, procurações e movimentações financeiras tinham sido preparados com antecedência.
Era por isso que Sebastián queria Valeria dopada.
Não bastava que ela morresse.
Ela precisava desaparecer de uma maneira que permitisse aos outros agir antes que seus pais percebessem o que havia acontecido.
E havia uma segunda frente.
Os pais de Valeria.
O acidente planejado na estrada deixaria a família Mendoza sem quem pudesse contestar os documentos ou bloquear as movimentações financeiras.
Valeria fechou os olhos por um instante.
Seu pai.
Sua mãe.
Ela precisava impedir que eles viajassem para Mazamitla.
Mas o celular principal estava com Sebastián.
O segundo celular estava com ela, e qualquer ligação naquele momento poderia denunciar que o plano tinha sido descoberto.
—Meu pai precisa receber as provas antes da manhã — disse Valeria.
Lucía assentiu.
—Você já enviou?
—Programei um e-mail. Se eu não cancelar, ele recebe tudo.
Lucía segurou o braço dela.
—Então não cancele.
Valeria percebeu o que aquilo significava.
Não precisava convencer ninguém naquela noite.
Precisava sobreviver até que as provas saíssem do barco.
Foi a primeira decisão realmente clara que conseguiu tomar desde que ouvira a conversa no convés inferior.
Ela não enfrentaria Sebastián.
Ainda não.
Esperaria.
E faria com que o plano deles continuasse funcionando apenas o suficiente para entregar a verdade a quem precisava recebê-la.
Poucos minutos depois, a maçaneta se mexeu.
Lucía apagou até a pequena luz do banheiro.
As duas ficaram quietas.
A porta não abriu.
Sebastián parecia estar testando se Valeria estava realmente adormecida.
Depois de alguns segundos, ele foi embora.
Lucía esperou os passos sumirem.
—Quando eles vierem buscar você, não tente correr sozinha — disse ela.
—Por quê?
—Porque eles esperam isso.
Valeria olhou para ela.
—Então o que eu faço?
Lucía respirou fundo.
—Faça exatamente o que uma mulher sonolenta faria.
A estratégia era simples.
Valeria manteria os movimentos lentos, fingiria que os comprimidos tinham feito efeito e deixaria Sebastián acreditar que ainda controlava a situação.
Enquanto isso, Lucía faria o possível para permanecer perto.
Não como uma heroína.
Como testemunha.
À meia-noite, o corredor voltou a ficar movimentado.
Valeria ouviu Ricardo falando baixo com Sebastián.
Depois, Elena respondeu.
—Ela ainda está dormindo.
—Então esperamos mais um pouco — disse Sebastián.
Valeria percebeu que o plano havia mudado.
Eles estavam com medo de alguma coisa.
Talvez da tripulação.
Talvez de alguém ter visto Valeria fora do camarote.
Talvez da própria programação do e-mail.
Ela não sabia.
Mas havia ganhado alguns minutos.
E minutos eram tudo o que precisava.
Lucía saiu do camarote pouco depois, usando uma desculpa relacionada ao trabalho no barco.
Valeria permaneceu sozinha.
Ela abriu novamente o celular e verificou o e-mail programado.
As provas estavam anexadas.
As fotografias das procurações.
As instruções bancárias.
As mensagens entre Sebastián e Fernanda.
E as imagens dos documentos que levavam seu nome.
Valeria conferiu o endereço do pai.
Depois, fechou a tela.
Não tocaria mais naquela programação.
À uma e vinte da manhã, Sebastián entrou.
Ele segurava um copo de água e dois comprimidos.
—Amor, você precisa tomar isso.
Valeria deixou os olhos semicerrados.
—Estou cansada.
—Eu sei.
A voz dele estava calma demais.
Ela pegou os comprimidos.
Levou-os à boca.
Esperou ele se virar.
E os escondeu na palma da mão.
Sebastián observou por um instante.
—Engoliu?
Valeria tossiu de propósito.
—Sim.
Ele sorriu.
—Boa garota.
A expressão dele não combinava com o homem que ela conhecera antes do casamento.
Valeria percebeu então que talvez aquele homem nunca tivesse existido da maneira como ela acreditava.
Sebastián saiu.
Ela esperou a porta fechar.
Só então colocou os comprimidos sobre a mesa.
À uma e quarenta, ouviu uma batida curta.
Duas batidas.
Uma pausa.
Duas batidas.
Era Lucía.
Valeria abriu.
Lucía entrou trazendo uma informação nova.
—Seu sogro está preparando o acesso ao convés.
—Agora?
—Em menos de meia hora.
Valeria olhou para o relógio.
O horário que tinham escolhido estava chegando.
Mas Lucía continuou:
—Também descobri outra coisa.
—O quê?
—A tripulação não está toda do lado deles.
Valeria sentiu uma esperança pequena, mas não se permitiu confiar nela.
—Quem sabe?
—Um dos homens ouviu Ricardo falando sobre você. Ele não quer se envolver, mas também não quer ajudar.
Isso mudava pouco.
Porém, naquele momento, pouco era muito.
Valeria pegou o celular.
—Se alguma coisa acontecer comigo, meu pai vai receber tudo.
—Então precisamos fazer com que ele receba também se eles encontrarem o telefone.
Valeria entendeu.
O e-mail estava seguro enquanto ela não o cancelasse.
Mas as gravações ainda estavam no celular.
Ela poderia perder o aparelho.
Poderia ser obrigada a entregá-lo.
Ou pior.
Poderiam descobrir que ela já sabia.
Valeria abriu o gravador e conferiu o arquivo.
A conversa de Ricardo e Sebastián estava lá.
Inteira.
Incluindo a parte sobre os pais dela.
Lucía viu o arquivo e fez um gesto para que Valeria não mexesse mais nele.
—Não apague. Não envie. Não faça nada.
—Por quê?
—Porque agora o maior erro deles seria acreditar que ainda têm controle.
Pouco depois, Elena apareceu no corredor.
—Valeria?
Valeria deitou novamente.
Elena abriu a porta devagar.
—Querida?
Valeria deixou a respiração pesada, como se estivesse profundamente sonolenta.
Elena se aproximou.
—Está na hora.
Valeria não respondeu.
Elena saiu.
A porta fechou.
Dessa vez, porém, ela não trancou.
Valeria percebeu.
A família queria levá-la para fora sem fazer barulho.
O plano dependia de parecer que ela conseguia andar.
Mas ela precisava chegar ao convés sem levantar suspeitas.
Pouco depois, Sebastián entrou acompanhado de Ricardo.
—Vamos, amor.
Valeria abriu os olhos devagar.
—Para onde?
—Só vamos tomar um ar.
Ela deixou a cabeça pender.
—Estou tonta.
—Eu sei.
Sebastián estendeu a mão.
Valeria segurou.
Não porque confiasse nele.
Porque precisava chegar até onde Lucía havia indicado.
No corredor, ela ouviu um ruído metálico vindo do convés.
Ricardo caminhava atrás.
Sebastián segurava seu braço.
Elena vinha logo depois.
Tudo parecia seguir o plano deles.
Até que uma porta lateral se abriu.
Lucía apareceu carregando uma caixa pequena de equipamentos.
Ela olhou para Valeria.
Depois para Sebastián.
E perguntou, com naturalidade:
—Você quer que eu chame o comandante?
Sebastián ficou sério.
—Não precisa.
—Ele pediu para saber se a passageira está passando mal.
Valeria percebeu a mudança na expressão do marido.
Era mínima.
Mas estava ali.
Ele precisava decidir entre continuar o plano e chamar atenção para o estado dela.
—Ela está bem — respondeu.
Lucía não discutiu.
Apenas continuou parada no corredor.
Foi quando Valeria entendeu a função daquela pergunta.
Lucía não estava tentando salvá-la naquele segundo.
Estava criando uma testemunha possível.
Sebastián não poderia agir como antes se soubesse que alguém estava prestando atenção.
Ricardo segurou o ombro do filho.
—Vamos.
Valeria deu mais um passo.
Então parou.
—Preciso sentar.
Sebastián apertou o braço dela.
—Não agora.
Lucía olhou diretamente para Valeria.
E Valeria percebeu que aquele era o momento de escolher.
Ela poderia continuar fingindo até chegar ao convés.
Ou poderia mudar o plano antes que fosse tarde.
Valeria deixou o corpo perder força de propósito.
Sebastián tentou segurá-la.
Ricardo avançou para ajudar.
E, no instante em que os dois se aproximaram, o celular escondido na mão de Valeria vibrou.
Uma única notificação apareceu na tela.
O e-mail programado tinha sido enviado.
Seu pai agora tinha as provas.
Valeria não precisava mais proteger aquele segredo.
Precisava proteger a própria vida.
Ela levantou os olhos para Sebastián.
Pela primeira vez naquela noite, não fingiu estar confusa.
—Meu pai já sabe.
O rosto dele mudou.
Ricardo ficou parado.
Elena apareceu na porta do corredor.
E Lucía fechou lentamente a porta atrás de si.
Sebastián soltou o braço de Valeria.
Não por bondade.
Porque acabara de entender que o plano deles tinha deixado de ser secreto.
Mas ele ainda tinha uma última carta.
E Valeria só descobriu qual era quando Ricardo tirou o celular do bolso e mostrou uma mensagem recém-recebida.
Era sobre Fernanda.
E dizia que ela também estava a bordo.