A Foto da Infância Revelou Por Que Mateo Sumiu Quando Soube da Gravidez-criss

Do corredor, a voz de Mateo atravessou a entrada antes que Guillermo pudesse me mandar embora outra vez.

Ele apareceu atrás do pai e parou assim que viu Valentina nos meus braços.

Por alguns segundos, Mateo não olhou para mim.

Image

Olhou apenas para a bebê.

Primeiro para a covinha no queixo.

Depois para os olhos.

Um azul intenso.

O outro castanho tão escuro que parecia preto.

A mesma combinação que eu tinha acabado de encontrar naquela fotografia antiga.

A mesma combinação que ele próprio carregava no rosto.

— Mariana.

Meu nome saiu da boca dele quase sem voz.

Guillermo se colocou de lado, bloqueando parte da passagem.

— Eu já disse que ele foi embora porque quis.

— E eu fui — Mateo respondeu.

Aquilo me atingiu antes de qualquer explicação.

Não havia sequestro.

Não havia acidente.

Não havia uma desculpa capaz de apagar as noites em que eu acordara para alimentar Valentina e, por hábito, ainda verificava o celular esperando uma mensagem que nunca chegava.

Apertei minha filha contra o peito.

— Então é verdade.

Mateo desceu um degrau.

— É.

— Você arrumou suas coisas, desligou o celular e me deixou grávida sem dizer nada.

— Sim.

Guillermo soltou uma respiração curta, como se aquela admissão encerrasse o assunto a favor dele.

Não encerrou.

Porque Mateo continuou:

— Mas não pelo motivo que ele quer que você acredite.

Guillermo virou o rosto.

— Não comece.

— Eu já devia ter começado há muito tempo.

Mateo olhou novamente para Valentina, mas não tentou se aproximar.

Pela primeira vez desde que eu chegara, fez alguma coisa que eu não esperava dele.

Esperou.

Deixou que eu decidisse a distância.

— Você sabia quem eu era quando nos conhecemos? — perguntei.

Ele fechou os olhos por um instante.

— Sabia.

A resposta doeu, embora eu já a esperasse.

— Desde quando?

— Desde o momento em que ouvi seu nome.

Guillermo tentou interromper.

— Mateo, isso aconteceu quando vocês eram crianças.

— Para você, talvez.

Mateo continuou olhando para mim.

— Quando ouvi “Mariana Torres”, achei que fosse coincidência.

Ele passou a mão pelo cabelo.

— Depois vi você e lembrei da menina da bicicleta vermelha.

Minha garganta apertou.

— Por isso você perguntou da bicicleta meses depois.

— Sim.

— E por que não me contou?

Mateo demorou a responder.

— Porque eu tive vergonha.

Não era a resposta que eu esperava.

— Vergonha de quê?

— Do que meu pai fez com sua mãe.

Guillermo deu um passo para a frente.

— Você tinha seis anos.

— E mesmo assim eu lembro dela chorando na cozinha.

A frase me trouxe de volta uma imagem que eu não conseguira organizar na noite anterior.

Minha mãe perto de uma porta.

Minha mão presa à dela.

Uma voz masculina elevada.

Mateo apontou para o interior da casa.

— Eu lembro de minha mãe já ter morrido, lembro de Sara cuidando de mim e lembro de você correndo naquele jardim como se morasse aqui para sempre.

Ele respirou fundo.

— Depois vocês sumiram.

— Nós não sumimos — respondi. — Seu pai expulsou minha mãe da vida que ela tinha construído.

Guillermo ergueu a mão.

— Eu a demiti. Não invente outra história.

Tirei a bolsa do ombro.

Eu havia colocado dentro dela a fotografia e algumas das cartas antes de sair da casa de Octavio.

Não porque planejasse uma confrontação perfeita.

Eu mal conseguia pensar quando coloquei Valentina no bebê-conforto naquela manhã.

Mas alguma parte de mim sabia que não voltaria àquela casa sem levar comigo o que minha mãe guardara durante tantos anos.

Peguei a carta escrita pela mão infantil de Mateo.

— Ela também guardou isso.

O rosto dele mudou quando reconheceu a letra.

Não precisei entregar imediatamente.

Ele já sabia o que era.

— Você ainda tem?

— Minha mãe tinha todas.

Mateo olhou para Guillermo.

— Você dizia que ela nunca respondia porque queria esquecer aquela casa.

Guillermo deu de ombros.

— E ela respondeu alguma vez?

Mateo voltou os olhos para mim.

Eu balancei a cabeça.

— Não encontrei respostas dela.

— Porque não havia motivo para alimentar uma ligação entre duas crianças depois de tudo aquilo — Guillermo disse.

— Você não decidia isso — falei.

Ele me encarou.

— Sua mãe aceitou que fosse assim.

Tirei outra carta.

A última.

Aquela em que Mateo, já quase adulto, dizia que sabia que Guillermo havia agido errado e que queria ajudar Sara assim que pudesse controlar o dinheiro deixado pelo avô.

No verso estava a frase da minha mãe.

“Ele não é como o pai.”

Entreguei a folha a Mateo.

Ele leu devagar.

Duas vezes.

Quando terminou, os dedos dele tremiam.

— Ela escreveu isso sobre mim?

— Escreveu.

Guillermo soltou uma risada sem humor.

— Sara sempre foi sentimental demais.

Mateo levantou os olhos.

— Não fale dela assim.

— Você nem a conhecia de verdade.

— Eu conhecia o suficiente para saber que ela ficou quando minha mãe morreu e você mal conseguia entrar no meu quarto.

Guillermo se aproximou dele.

— Eu trabalhava para sustentar esta casa.

— E Sara sustentava o resto.

A resposta veio simples.

Sem grito.

Foi exatamente por isso que pareceu mais pesada.

Guillermo apontou para mim.

— E agora a filha dela aparece aqui com uma criança e vocês transformam isso numa grande história de destino.

Senti meu corpo endurecer.

Mateo percebeu.

— Não faça isso.

— Fazer o quê? Dizer o óbvio?

Guillermo olhou para Valentina.

— Você contou que ela estava grávida e, no dia seguinte, já estava falando em família, em dinheiro, em consertar o passado.

Virei para Mateo.

— Você contou a ele naquela noite?

Ele não tentou escapar.

— Contei.

Era a primeira coisa nova que eu não sabia.

— Depois de sair do meu apartamento?

— Sim.

— Por quê?

Mateo apoiou a mão no corrimão.

— Porque eu achei que estava fazendo a coisa adulta.

Quase ri, mas não havia humor nenhum dentro de mim.

— A coisa adulta era ligar para o homem que perseguiu profissionalmente minha mãe depois que ela recusou o que ele queria?

Guillermo abriu a boca.

Mateo respondeu antes.

— Eu sei como parece agora.

— Não me diga como parece. Diga o que aconteceu.

Ele assentiu.

Então contou.

Depois que saiu do meu apartamento, Mateo dirigiu sem destino por quase uma hora.

Estava assustado com a gravidez, mas também feliz.

Pela primeira vez, disse ele, começou a pensar na própria infância não como uma sequência de lembranças ruins, mas como alguma coisa que precisava impedir de se repetir.

Foi quando decidiu telefonar para Guillermo.

Não para pedir permissão.

Para contar que teria uma filha e que pretendia construir uma família comigo.

— Eu disse seu nome — Mateo falou. — E ele ficou calado.

Guillermo desviou os olhos.

— Depois perguntou se sua mãe era Sara Torres.

Eu já sabia a resposta.

Mesmo assim, senti meu estômago se contrair.

— Ele sabia.

— Na mesma hora.

Mateo apertou a carta na mão.

— Foi aí que ele começou a dizer que eu não entendia o que tinha acontecido naquela época.

Guillermo interrompeu:

— Porque você não entendia.

— Então explique agora — eu disse.

Ele me encarou.

— Sua mãe trabalhava para mim.

— E recusou você.

— Eu ofereci segurança a ela.

Mateo ficou imóvel.

Eu também.

Guillermo pareceu perceber tarde demais a palavra que escolhera.

— Segurança? — perguntei.

— Um apartamento. Dinheiro. Estabilidade.

Minha respiração ficou curta.

Octavio tinha contado exatamente aquilo.

Dinheiro.

Presentes.

Um apartamento.

Guillermo tentou corrigir:

— Ela criava duas crianças praticamente sozinha naquela casa. Eu achei que podia facilitar as coisas.

— Depois que ela disse não, você a demitiu.

— A relação profissional ficou impossível.

— E dificultou que ela encontrasse outro emprego.

Dessa vez ele não negou de imediato.

Foi o bastante.

Mateo o encarou como se ainda houvesse uma parte dele que, apesar de todas as lembranças, tivesse esperado ouvir uma versão menos feia.

— Você disse que ela tentou usar a proximidade comigo para conseguir dinheiro.

Guillermo cruzou os braços.

— Eu disse que as coisas eram complicadas.

— Não. Você disse que ela me usava.

Mateo ergueu a carta que minha mãe guardara por tantos anos.

— Eu mandava dinheiro da minha mesada escondido porque acreditava que ela precisava e, mesmo assim, você tentou me convencer de que ela estava atrás do nosso dinheiro.

Guillermo olhou para mim.

— E agora veja onde estamos.

Foi tão rápido que demorei um segundo para entender.

Não era defesa.

Era repetição.

Sara recusara o controle dele e fora transformada em interesseira.

Décadas depois, eu aparecia grávida do filho dele e recebia o mesmo rótulo antes mesmo de pedir qualquer coisa.

Mateo também entendeu.

— Foi isso que você fez naquela noite — ele disse.

Guillermo não respondeu.

Mateo continuou:

— Você me perguntou quanto Mariana ganhava, onde morava, se Octavio ainda estava vivo, se ela sabia do dinheiro do meu avô.

Olhei para ele.

— E você respondeu?

— Algumas coisas.

Minha raiva voltou inteira.

— Você falou da minha vida para ele e depois sumiu.

— Sim.

— Por quê?

Mateo respirou fundo.

— Porque eu entrei em pânico.

Nenhuma ameaça cinematográfica.

Nenhuma mentira bonita.

Apenas aquilo.

Pânico.

Vergonha.

E uma decisão covarde tomada por alguém que acreditava estar sendo racional.

— Ele começou a repetir que eu estava prestes a cometer o mesmo erro que meu avô tinha cometido comigo — Mateo disse. — Que eu estava misturando culpa, dinheiro e uma família que carregava problemas antigos.

— E você acreditou nele.

— Por algumas horas, eu acreditei que talvez nem soubesse mais por que tinha me aproximado de você.

Aquilo doeu mais do que eu queria mostrar.

Mateo percebeu.

— Não estou dizendo que nunca amei você.

— Não ajuda.

— Eu sei.

Ele deu um passo para trás.

— A primeira aproximação teve a ver com quem você era quando criança. Isso é verdade. Mas tudo que veio depois não teve.

— Mesmo assim você escondeu a primeira parte.

— Escondi.

Guillermo soltou:

— Pelo menos agora alguém está falando com honestidade.

Mateo virou para ele.

— Não confunda minha culpa com razão para você estar certo.

Depois olhou novamente para mim.

— Naquela noite, eu vim para cá.

— E começou a arrumar suas coisas antes?

— Comecei no apartamento depois que saí da sua casa.

A imagem das gavetas vazias voltou à minha cabeça.

— Então você já tinha decidido partir.

— Decidi que precisava ficar longe por alguns dias enquanto entendia o que era verdade e o que eu tinha construído na minha cabeça.

— Sem me avisar.

— Sim.

— Grávida.

— Sim.

— Depois os dias viraram meses.

Mateo abaixou a cabeça.

— No segundo dia eu já sabia que tinha feito errado.

— Então por que não ligou?

Ele levou alguns segundos.

— Porque quanto mais tempo passava, mais impossível parecia voltar e dizer que eu tinha abandonado você justamente quando prometi que descobriríamos juntos.

Era uma explicação humana.

Isso não significava que fosse aceitável.

— Você escolheu o silêncio porque tinha vergonha do que o silêncio já tinha causado.

— Exatamente.

Guillermo tentou aproveitar a frase.

— E por isso eu disse que ele foi embora porque quis.

— Você adorou cada minuto disso — Mateo respondeu.

O pai se aproximou.

— Eu dei a você espaço para pensar.

— Você me deu um quarto nesta casa e repetiu todos os dias que voltar para Mariana seria destruir minha vida.

— Eu tentei proteger você.

Mateo olhou para as cartas.

— Igual tentou proteger Sara oferecendo um apartamento que ela nunca pediu?

Guillermo ficou vermelho.

— Cuidado.

— Igual tentou me proteger dizendo que uma mulher que cuidou de mim depois da morte da minha mãe estava atrás do nosso dinheiro?

— Mateo.

— Igual está tentando me proteger agora, parado na porta para impedir que a mãe da minha filha entre?

A última frase mudou alguma coisa.

Não em Guillermo.

Nele.

Mateo olhou para a posição do pai diante da porta, depois para mim segurando Valentina do lado de fora.

A cena era quase absurda de tão parecida com a história que Octavio tinha contado.

Uma mulher da família Torres de um lado.

Guillermo decidindo quem podia atravessar o limite do outro.

Mateo colocou a mão na porta e a abriu completamente.

— Saia da frente.

Guillermo não se mexeu.

— Esta casa é minha.

— Então eu saio dela.

Guillermo piscou.

Mateo passou por ele.

Não veio até mim imediatamente.

Parou a alguns passos de distância.

— Eu não espero que você me perdoe hoje.

— Ainda bem.

Ele assentiu.

— Nem amanhã.

— Melhor ainda.

Pela primeira vez, quase reconheci o homem que segurara minha mão diante do teste de gravidez.

Quase.

Ainda havia meses de ausência entre nós.

Ainda havia noites que ele nunca poderia devolver.

Ainda havia treze dias de vida de Valentina que ele não tinha visto.

Mateo olhou para a bebê.

— Posso chegar mais perto?

Olhei para Guillermo.

Depois para Mateo.

— Um passo.

Ele deu exatamente um.

Valentina dormia sem saber que quatro adultos tinham construído décadas de silêncio em volta dela antes mesmo de nascer.

Mateo levou a mão à boca quando viu os olhos dela se abrirem por alguns segundos.

Azul.

Escuro.

— Ela tem meus olhos.

— Tem.

Ele não tentou tocá-la.

Isso importou mais do que eu esperava.

— Eu deveria ter estado lá.

— Deveria.

— No hospital também.

— Deveria.

— E não estava.

— Não estava.

Guillermo falou atrás dele:

— Você não vai jogar sua vida fora por culpa.

Mateo virou apenas o rosto.

— É isso que você ainda não entendeu.

Ele apontou para Valentina.

— Ela não é culpa.

Guillermo respondeu com a mesma frieza que devia ter usado com minha mãe tantos anos antes.

— E o dinheiro do seu avô?

A pergunta revelou mais do que qualquer confissão longa teria revelado.

Mateo sorriu sem alegria.

— Finalmente.

Eu me lembrei da carta.

Da promessa adolescente de ajudar minha mãe quando pudesse controlar aquele dinheiro.

Perguntei:

— O que isso tem a ver com você ter ficado aqui?

Mateo olhou para mim.

— Meu pai sempre tratou aquele dinheiro como se ainda fosse uma extensão do poder dele, mesmo depois que deixou de ser.

Guillermo protestou:

— Eu administrei tudo durante anos.

— E continuou acreditando que podia administrar minhas escolhas também.

Mateo respirou fundo.

— Eu voltei para cá achando que precisava resolver todas as questões antigas antes de procurar você de novo.

— Inclusive dinheiro.

— Principalmente porque eu tinha escrito naquela carta que um dia usaria parte dele para reparar o que minha família fez com Sara.

Olhei para a folha na mão dele.

— Minha mãe nunca pediu isso.

— Eu sei agora.

— E eu também não quero.

— Eu sei.

Guillermo ergueu o queixo.

— Então tudo isso foi inútil.

Mateo respondeu:

— Não.

Ele dobrou a carta cuidadosamente.

— Serviu para eu entender que passei anos dizendo que não queria ser como você e, quando fiquei com medo, fiz exatamente o que você faz.

Guillermo riu.

— E o que seria isso?

Foi minha vez de responder.

— Decidir sozinho o que outra pessoa deve suportar.

Mateo me encarou.

Não se defendeu.

Eu continuei:

— Você achou que podia desaparecer, resolver seu passado, resolver seu pai, resolver seu dinheiro e depois voltar quando estivesse pronto.

— Sim.

— Sem me dar escolha.

— Sim.

— Isso não é proteção.

— Não.

Guillermo ficou em silêncio.

Talvez porque, pela primeira vez, a discussão já não fosse sobre ele.

Era sobre o que Mateo faria depois de reconhecer que herdara mais do pai do que gostaria.

Mateo tirou do bolso o molho de chaves.

Separou uma delas.

Colocou-a sobre o pequeno aparador ao lado da porta.

— Vou buscar minhas coisas depois.

Guillermo olhou para a chave.

— Se sair agora, não volte esperando que eu resolva seus problemas.

Mateo abriu espaço entre nós, sem tentar decidir por mim.

— Era exatamente isso que eu precisava parar de esperar.

Então Guillermo fez a única pergunta que ainda podia ferir:

— E você acha que ela vai aceitar você de volta?

Mateo não olhou para mim antes de responder.

— Não cabe a mim decidir.

Foi a primeira resposta daquela manhã em que senti alguma coisa dentro de mim relaxar.

Não amor.

Não perdão.

Apenas a sensação de que, pela primeira vez desde o teste de gravidez, uma escolha realmente estava sendo devolvida às minhas mãos.

Voltei para o carro com Valentina.

Mateo não entrou.

Ficou perto do portão até eu fechar a porta.

— Posso ligar mais tarde?

— Pode.

— Você vai atender?

— Não sei.

Ele assentiu.

— Tudo bem.

Antes de ligar o motor, tirei a fotografia antiga da bolsa.

A menina na bicicleta vermelha parecia feliz demais para entender qualquer coisa sobre adultos, orgulho ou dinheiro.

O menino ao lado dela também.

Estendi a foto pela janela.

Mateo hesitou antes de pegá-la.

— Por que está me dando isso?

— Não estou dando.

Ele esperou.

— Quero que você mostre ao seu pai.

Mateo olhou para a imagem.

— Para quê?

— Para ele lembrar que havia duas crianças naquela história antes que os adultos decidissem transformar tudo em poder.

Mateo entrou novamente na casa com a fotografia na mão.

Eu fui embora.

Octavio estava esperando no portão quando cheguei.

Pegou Valentina enquanto eu retirava o bebê-conforto e perguntou apenas:

— Ele estava lá?

— Estava.

— E?

Olhei para o berço que meu avô tinha construído.

— Ainda não sei.

Octavio não pediu que eu soubesse.

Naquela noite, Mateo ligou.

Atendi depois do quarto toque.

Ele não pediu perdão outra vez.

Contou apenas que tinha saído da casa de Guillermo e que dormiria em outro lugar.

Depois perguntou como Valentina estava.

— Mamou.

— Dormiu?

— Por enquanto.

— Posso ligar amanhã?

— Pode.

Foi assim por vários dias.

Nada de discursos.

Nada de promessas enormes.

Perguntas pequenas.

Mamou?

Dormiu?

A consulta foi bem?

Você precisa de alguma coisa?

Quando eu dizia não, ele aceitava.

Quando eu dizia que podia vir, ele vinha.

Quando eu pedia que fosse embora, ele ia.

Octavio observava tudo sem interferir.

Só uma vez falou com Mateo a sós, na varanda.

Não ouvi a conversa inteira.

Ouvi apenas meu avô dizer:

— Se quiser ficar na vida delas, não tente recuperar meses em uma semana.

Mateo respondeu:

— Eu sei.

Octavio corrigiu:

— Saber não basta.

Mateo voltou para dentro alguns minutos depois.

Não comentou.

Isso também contou a favor dele.

Duas semanas mais tarde, perguntei pela fotografia.

— Está comigo.

— Guillermo viu?

— Viu.

— Disse alguma coisa?

Mateo olhou para Valentina no berço.

— Disse que não lembrava daquele dia.

— E você acredita?

— Não sei.

Ele colocou a mão no bolso e tirou a foto protegida dentro de um envelope simples.

— Mas eu lembrei.

Sentei ao lado dele.

Mateo apontou para o fundo da imagem.

— Você tinha caído dessa bicicleta umas três vezes naquela tarde.

— Não lembro.

— Na quarta vez, não quis mais subir.

Olhei para a menina de quatro anos.

— E depois?

— Eu segurei o banco até você começar a pedalar.

Sorri pela primeira vez desde que ele reaparecera.

Foi pequeno.

Quase involuntário.

Mateo não tentou transformar aquilo em absolvição.

Apenas colocou a fotografia sobre a cômoda.

— Sua mãe guardou isso por todos esses anos — ele disse.

— Guardou muita coisa que eu não sabia que existia.

— Talvez estivesse esperando você ficar pronta.

Pensei em Sara escrevendo no verso da carta que aquele menino não era como o pai.

Ela estava certa sobre uma coisa e errada sobre outra.

Mateo não era Guillermo.

Mas também não estava livre daquilo que aprendera com ele.

A diferença seria decidida pelo que fizesse depois de reconhecer isso.

Meses mais tarde, Guillermo ainda não fazia parte da rotina de Valentina.

Não por vingança.

Porque eu não estava pronta para permitir que entrasse na vida dela alguém que continuava tratando afeto como extensão de controle.

Mateo não discutiu minha decisão.

Também não cortou o pai de maneira teatral.

Falava com ele quando julgava necessário, mas não aceitava dinheiro como argumento, não permitia que Guillermo decidisse onde ele deveria morar e não levava Valentina até aquela casa.

A consequência para Guillermo foi simples e talvez por isso mais difícil de contornar: ele perdeu acesso às decisões que sempre presumira poder controlar.

Com Mateo, fui mais devagar.

Não voltamos a ser um casal no dia em que ele reapareceu.

Nem na semana seguinte.

Primeiro ele precisou aprender a estar presente sem exigir recompensa por estar presente.

Precisou ouvir sobre o parto que perdera.

Sobre as noites na unidade neonatal.

Sobre o medo que senti cada vez que um aparelho apitava perto da minha filha.

Sobre Octavio terminando o berço enquanto eu fingia não esperar que Mateo aparecesse à porta.

Algumas dessas conversas terminaram mal.

Outras terminaram em silêncio.

Mas ele não desapareceu novamente.

Certa manhã, encontrei-o sentado no chão ao lado do berço enquanto Valentina apertava um dedo dele com a mão minúscula.

A fotografia antiga estava apoiada sobre a cômoda.

Mateo olhou para mim.

— Posso colocar numa moldura?

Pensei na caixa de cedro.

Durante anos, aquela fotografia permanecera escondida entre cartas, recibos e segredos que minha mãe não conseguira me contar.

Na primeira vez em que a segurei, ela pareceu uma prova de que minha vida adulta podia ter sido manipulada desde o início.

Agora eu sabia que a verdade era mais complicada.

O encontro havia sido acaso.

O reconhecimento, não.

Mateo realmente soubera quem eu era quando ouviu meu nome.

Realmente se aproximara por causa da menina da bicicleta vermelha.

Mas o relacionamento que veio depois não tinha sido planejado por Guillermo, por Sara, por Octavio ou por qualquer promessa adolescente.

Tinha sido nosso.

Assim como o abandono também tinha sido escolha de Mateo.

E a possibilidade de reconstruir alguma coisa, se existisse, teria que ser uma escolha minha.

Peguei a fotografia.

— Uma moldura simples.

Mateo sorriu.

— Sim, senhora.

— E não significa que está perdoado por tudo.

— Eu sei.

— Nem que vamos voltar a morar juntos.

— Eu sei.

— Nem que seu pai vai conhecer Valentina quando quiser.

— Eu sei.

Olhei para ele.

— Você anda dizendo isso bastante.

— Seu avô falou que saber não basta.

Dessa vez eu ri.

Baixo, para não acordar a bebê.

Na tarde seguinte, Mateo trouxe a moldura.

Nenhuma inscrição.

Nenhuma frase bonita.

Só madeira clara e vidro sobre uma fotografia envelhecida nas bordas.

Colocamos a imagem ao lado do berço que Octavio construíra.

Duas crianças diante de uma bicicleta vermelha.

Décadas de distância entre aquele jardim e aquele quarto.

Valentina acordou enquanto Mateo ajeitava a moldura.

Ele se inclinou sobre o berço, mas esperou minha confirmação antes de pegá-la.

Assenti.

Mateo a ergueu com cuidado.

Minha filha abriu primeiro o olho azul.

Depois o outro, quase preto.

Mateo olhou para ela.

Eu olhei para a fotografia.

E, pela primeira vez, aquela imagem já não estava escondida numa caixa para provar o que alguém tinha feito no passado.

Estava ao lado do berço, enquanto Mateo segurava Valentina nos braços e esperava, dia após dia, que o futuro fosse decidido por quem finalmente tinha o direito de escolher.

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