A Demissão Que Revelou O Plano Contra A Irmã Dela-milee

Meu chefe mafioso trancou a porta do escritório, colocou minha carta de demissão debaixo da mão e disse: “Você não é mais minha funcionária, Cara. Você é minha.”

Naquele instante, eu achei que ele estivesse falando de posse.

Achei que Dante Moretti estivesse fazendo o que homens como ele sempre faziam quando algo escapava do controle: fechando portas, endurecendo a voz, transformando medo em ordem.

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Então ele colocou uma pasta preta lacrada sobre a mesa.

O som do couro batendo na madeira foi baixo, mas cortou a sala como uma pancada.

Quando vi a fotografia da minha irmã dentro dela, todo o ar do escritório desapareceu.

Lily tinha dezessete anos.

Ela ainda prendia o cabelo do mesmo jeito torto quando estava atrasada para a escola, ainda me mandava mensagem perguntando se podia jantar macarrão de novo, ainda fazia piadas ruins quando percebia que eu estava cansada demais para rir.

Ela era a única parte da minha vida que não tinha sido tocada por Dante Moretti.

Era o que eu acreditava.

Duas semanas antes daquela pasta, alguém tinha enfiado um envelope por baixo da porta do meu apartamento.

Eu estava lavando uma caneca na pia quando ouvi o papel raspar no chão.

O som foi pequeno, quase tímido.

Mas depois de três anos trabalhando ao lado de Dante, eu tinha aprendido que as coisas mais perigosas raramente chegavam fazendo barulho.

Abri a porta depressa.

O corredor estava vazio.

Só havia o cheiro de chuva presa no concreto, uma lâmpada piscando perto do elevador e o envelope branco parado no chão como se tivesse sido deixado por uma mão invisível.

Dentro havia uma fotografia de Lily saindo da escola.

Ela estava com a mochila pendurada em um ombro só, a cabeça virada para uma amiga, a expressão distraída de quem ainda não sabe que virou alvo.

Um círculo vermelho marcava o rosto dela.

Debaixo da foto, seis palavras tinham sido digitadas em letras frias.

ABANDONE MORETTI, OU ELA PAGA.

Eu li a frase tantas vezes que as letras pareciam começar a se mexer.

Naquela noite, tranquei a porta duas vezes, puxei o sofá contra ela e sentei no chão do corredor do meu apartamento até o amanhecer.

Lily dormia no quarto pequeno, sem saber que alguém tinha conseguido chegar perto o suficiente para fotografá-la.

Sem saber que minha proximidade com Dante tinha atravessado a cidade e parado na porta da escola dela.

Eu não contei a ele.

Essa foi a minha primeira mentira.

Ou talvez não fosse a primeira.

Talvez a primeira mentira tivesse acontecido meses antes, quando eu comecei a fingir que meu coração não mudava de ritmo sempre que Dante entrava numa sala.

Eu era assistente executiva dele havia três anos.

Conhecia os horários que ele jamais anotava.

Sabia quais ligações ele atendia de pé, quais nomes faziam Luca fechar a porta e quais silêncios significavam que alguém do outro lado da cidade tinha tomado uma decisão ruim.

Eu também sabia que ele guardava uma arma na gaveta direita da mesa.

Sabia que havia homens que sorriam para ele com medo nos olhos.

Sabia que Dante não era o tipo de homem que uma mulher sensata amava.

Mas eu tinha amado mesmo assim.

Não do jeito bonito que as pessoas confessam em voz alta.

Do jeito vergonhoso, escondido, silencioso.

Do jeito que nasce quando alguém percebe que você não dormiu bem apenas pela maneira como coloca uma pasta sobre a mesa.

Do jeito que se fortalece quando um homem perigoso lembra que sua irmã tem prova de matemática na sexta e manda o motorista esperar dez minutos a mais sem dizer que se importou.

Dante notava tudo.

Eu me convenci de que isso era proteção.

Depois do envelope, entendi que atenção também podia virar uma armadilha.

Por isso aceitei a entrevista com Mason Vale.

Ele me mandou uma mensagem dizendo que havia encontrado meu perfil por indicação de uma antiga colega.

A empresa era nova, mas promissora, segundo ele.

Marketing estratégico, horário comercial, benefícios, equipe pequena, ambiente normal.

Normal.

A palavra me agarrou como uma corda.

Eu fui ao almoço com ele porque queria acreditar que ainda existia uma porta de saída.

Mason era educado, falava baixo, usava um relógio caro e fazia perguntas treinadas demais.

Na época, isso me pareceu profissional.

Agora, olhando para trás, vejo que ele quase não perguntou sobre marketing.

Perguntou sobre minha rotina.

Perguntou se Dante trabalhava tarde.

Perguntou se eu tinha acesso aos arquivos físicos ou só ao calendário.

Perguntou, rindo, se um chefe como Moretti confiava de verdade em alguém.

Eu devia ter saído dali.

Eu não saí.

Quando ele ofereceu o cargo, eu aceitei.

Quando imprimi a carta de demissão, minhas mãos tremiam tanto que a primeira versão saiu torta.

Quando entrei no escritório de Dante naquela manhã, eu disse a mim mesma que era por Lily.

Só por Lily.

Dante estava atrás da mesa de nogueira escura, lendo alguma coisa no tablet.

O copo de cristal ao lado dele permanecia intocado.

A luz da janela atravessava a sala e deixava tudo limpo demais, como se aquele espaço não guardasse segredos suficientes para destruir famílias inteiras.

“O que é isso?”, ele perguntou, sem olhar para a carta.

“Meu aviso prévio.”

Ele ergueu os olhos.

“Coloque aí.”

Coloquei a carta dobrada ao lado do copo.

Ele não a tocou.

Essa foi a primeira coisa que me deu medo.

Dante lia tudo.

Contratos, relatórios, bilhetes escritos às pressas, nomes rabiscados em guardanapos.

Mas minha demissão ele não leu.

Ele olhou para o meu rosto como se a carta fosse apenas um sintoma.

“Por quê?”

“Arrumei outro emprego.”

“Onde?”

“Numa empresa de marketing no centro. Horário melhor. Benefícios.”

O maxilar dele se moveu de leve.

“Normal”, acrescentei.

Dante se levantou devagar.

Ele não precisava levantar a voz para ocupar uma sala.

Com um terno escuro impecável, uma abotoadura prateada e aquele silêncio calculado, ele parecia sempre dois passos à frente de qualquer tragédia.

“Normal”, ele repetiu. “Luz fluorescente. Reunião trimestral. Um chefe que não vai saber que você coloca mel no chá quando está com medo.”

Meu peito apertou.

“Senhor Moretti—”

“Dante.”

“Precisamos manter isso profissional.”

Ele olhou para a carta.

“Você parou de ser honesta comigo duas semanas atrás. O profissional acabou ali.”

O clique da fechadura veio atrás de mim.

Eu me virei rápido.

A porta estava trancada.

Quando olhei de volta, Dante já tinha saído de trás da mesa.

“Você não pode me trancar aqui.”

“Então me diga a verdade, e eu abro.”

“Eu já disse.”

“Não”, ele respondeu. “Você me deu o nome de uma empresa aberta há onze dias. Sem clientes. Sem funcionários. Com um recrutador que nunca trabalhou com marketing.”

O frio dentro de mim ficou sólido.

“Como você sabe disso?”

“Você trabalhou ao meu lado por três anos, Cara. Achou mesmo que eu não investigaria a primeira pessoa que tentou tirar você de mim?”

“Você investigou minha vaga?”

“Eu investiguei o homem que mandou a oferta.”

Antes que eu pudesse responder, Dante apertou o interfone.

“Tragam eles.”

A porta abriu.

Elena Rossi entrou primeiro, carregando um tablet contra o peito.

Ela era a advogada de Dante, elegante, precisa, quase impossível de assustar.

Atrás dela veio Luca, chefe da segurança, com um saco de evidências lacrado.

Nenhum dos dois pareceu surpreso ao me ver ali, presa entre Dante e a mesa.

Isso me feriu mais do que deveria.

Porque significava que a armadilha já tinha nome antes mesmo de eu entrar na sala.

Elena colocou o tablet ao lado da minha carta de demissão.

Na tela havia uma fotografia de Mason Vale.

Ele estava saindo de um clube privado de Salvatore Bellini.

Eu conhecia esse nome.

Todo mundo que trabalhava para Dante conhecia.

Bellini era o tipo de rival que não atacava onde o inimigo era forte.

Ele atacava onde o inimigo fingia que não tinha fraqueza.

A data sob a foto era de três dias antes do meu primeiro contato com Mason.

“Isso é ridículo”, sussurrei. “Ele disse que encontrou meu currículo online.”

“Você nunca colocou currículo online”, Dante disse.

A frase bateu em mim com uma precisão humilhante.

Ele tinha razão.

Mason tinha dito que uma antiga colega me recomendara, e eu, desesperada por uma saída, não perguntei qual.

Luca colocou o saco de evidências sobre a mesa.

Dentro havia outra fotografia.

Lily no ônibus.

Sentada perto da janela.

O rosto virado para fora, distraído, a mão segurando a alça da mochila.

A imagem tinha sido tirada de longe, por uma lente comprida, e o horário impresso no canto era daquela manhã.

Minhas pernas quase falharam.

“De onde veio isso?”

“Do homem que estava seguindo ela”, Luca respondeu.

Eu me virei para Dante.

“Você sabia que alguém estava vigiando minha irmã e não me disse nada?”

“Eu coloquei proteção ao redor dela no instante em que descobri.”

“Ela não é uma das suas operações.”

“Não”, ele disse. “Ela é sua família.”

A voz dele mudou só um pouco.

Mas para alguém que conhecia Dante, um pouco era uma rachadura.

“E isso torna ela intocável.”

Tirei o envelope da bolsa e joguei sobre a mesa.

“Então leia.”

Dante leu.

A sala inteira pareceu parar.

Elena não piscou.

Luca ficou ainda mais imóvel.

Dante não gritou.

Não bateu a mão na mesa.

Não prometeu matar ninguém.

Ele simplesmente ficou quieto.

E eu entendi por que os homens tinham medo dele.

A raiva de Dante não era fogo.

Era gelo descendo devagar por uma lâmina.

“Quando chegou?”

“Duas semanas atrás.”

“E você escondeu de mim.”

“Eu tive medo que você começasse uma guerra.”

“Uma guerra já começou.”

Ele virou o envelope, analisando o carimbo, o canto amassado, uma marca prateada quase invisível no papel.

Elena inclinou a cabeça e prendeu a respiração.

“O que foi?”, perguntei.

Ela apontou para a pequena pressão no canto.

“Combina com a gravação em relevo usada pela Bellini Holdings.”

Dante puxou minha carta para perto.

“Você achou que ir embora protegeria Lily.”

“Sim.”

“Era exatamente isso que eles precisavam que você acreditasse.”

Ele rasgou a carta ao meio.

O som do papel rasgando me atingiu de um jeito absurdo.

Depois de tudo, foi aquilo que fez minha raiva subir.

“Você não decide se eu trabalho para você.”

“Eu não estou falando do seu emprego.”

“Você acabou de destruir minha demissão.”

“Porque isso nunca foi uma demissão”, ele disse. “Foi uma rendição escrita por alguém segurando a vida da sua irmã contra a sua garganta.”

Ele se aproximou.

Perto o bastante para eu ver a cicatriz fina sob a mandíbula.

“Você não é mais minha funcionária, Cara.”

A voz dele baixou.

“Você é minha.”

Minha mão bateu no peito dele antes que eu pensasse.

O estalo não foi alto, mas Elena desviou os olhos e Luca olhou para a parede como se aquilo fosse algo íntimo demais para testemunhar.

“Eu não pertenço a você.”

Dante olhou para mim por um segundo longo.

Depois, a escuridão no rosto dele mudou.

“Não”, ele disse. “Você não pertence.”

Então ele abriu a pasta preta.

A primeira página era o registro de abertura da empresa que supostamente me contrataria.

A segunda era uma transferência bancária da Bellini Holdings.

A terceira era uma planta do escritório de Dante.

O cofre estava marcado em vermelho.

Meu nome estava escrito ao lado.

Eu parei de respirar.

“Eles não ofereceram um emprego para você fugir de mim”, Dante disse. “Eles ofereceram porque acreditam que você pode roubar algo desta sala.”

“Eu nunca faria isso.”

“Eu sei.”

A certeza dele foi pior do que dúvida.

Porque, por um segundo, quase chorei.

Não por medo.

Por alívio.

Em três anos, eu tinha visto Dante desconfiar de ministros, banqueiros, aliados antigos e homens que juravam lealdade com a mão no peito.

Mas ele não desconfiava de mim.

Não naquele ponto.

E talvez fosse por isso que Bellini tinha escolhido Lily.

Porque quando uma pessoa não consegue comprar sua traição, ela tenta sequestrar seu medo.

Meu celular começou a tocar.

O nome de Lily apareceu na tela.

O mundo inteiro encolheu até aquela luz.

Dante olhou para Luca.

Luca já levava a mão ao paletó.

Atendi com os dedos tremendo.

“Lily?”

Por três segundos, só houve respiração.

Então minha irmã sussurrou:

“Cara… o homem que te ofereceu o emprego está parado do lado de fora da minha sala de aula.”

“Não desliga”, eu disse.

Minha voz saiu baixa, mas Dante ouviu.

Ele fez um gesto para Luca, e a sala inteira entrou em movimento silencioso.

Luca falou no comunicador, mandando confirmar a entrada principal da escola, a saída dos fundos e qualquer homem usando crachá temporário.

Elena abriu outra transmissão no tablet, os dedos rápidos demais para tremerem.

Eu me concentrei na voz de Lily.

“O que ele está fazendo?”

“Ele está olhando pela janela da porta”, ela sussurrou. “A professora está no quadro. Acho que ela não percebeu.”

“Vai até ela.”

“E se ele entrar?”

“Você vai até ela agora, devagar, e diz que precisa ligar para a secretaria.”

Dante estendeu a mão, pedindo o celular.

Eu balancei a cabeça.

Não.

Enquanto Lily estivesse do outro lado, aquela linha era minha.

Era a única coisa que eu ainda podia segurar.

“Cara”, Lily disse, e a voz dela quebrou no meu nome. “Ele levantou um envelope.”

Luca tirou uma segunda foto do saco de evidências.

Eu não tinha visto aquela antes.

Não era Lily.

Era eu, entrando no prédio de Dante naquela manhã com a bolsa no ombro.

No verso, havia uma anotação feita à mão.

ENTREGAR A CHAVE ATÉ AS 15H.

Elena ficou pálida.

Dante olhou para mim devagar.

“Cara”, ele perguntou, “que chave?”

Eu não respondi.

Porque naquele momento eu me lembrei.

Dois dias antes, Mason tinha me dado um chaveiro pequeno, dizendo que era acesso provisório ao escritório novo.

Eu tinha jogado na bolsa sem pensar.

Meu sangue gelou.

Enfiei a mão na bolsa, revirando recibos, batom, a carteira, o envelope de ameaça.

Meus dedos encontraram o metal frio.

Mas não era uma chave comum.

Era um dispositivo.

Pequeno, preto, pesado demais.

Dante o pegou da minha mão com cuidado.

Elena se aproximou, olhando como se já soubesse a resposta e odiasse estar certa.

“Rastreador?”, perguntei.

“Nicht só”, ela disse, corrigindo-se rápido. “Transmissor. Pode copiar sinal de proximidade.”

Dante fechou a mão ao redor do objeto.

“Eles queriam que ela trouxesse isso para dentro.”

Eu me senti enjoada.

A carta de demissão não era a única coisa que eu tinha carregado até ali.

Eu tinha trazido a chave da armadilha.

Do outro lado da linha, Lily começou a chorar.

“Cara, ele falou meu nome completo.”

“Vai para a professora.”

“Ela está indo até a porta.”

“Não deixa ela abrir.”

Tarde demais.

Ouvi a maçaneta pelo telefone.

Ouvi a professora dizer algo educado demais.

Ouvi a voz de Mason, calma, profissional, exatamente como no almoço.

“Estou aqui para buscar Lily Vale.”

“Esse não é o sobrenome dela”, eu sussurrei.

Dante ergueu os olhos.

A sala ficou imóvel outra vez.

No telefone, Mason continuou:

“A irmã dela autorizou.”

E então Lily disse, quase sem voz:

“Cara… ele tem uma cópia da sua assinatura.”

Dante arrancou o tablet das mãos de Elena e digitou alguma coisa.

Luca já estava na porta.

Eu ainda segurava o celular como se pudesse puxar minha irmã para fora daquela escola pela linha.

“Lily”, eu disse, “olhe para mim pelo telefone.”

“Eu não estou em vídeo.”

“Então olhe para a minha voz.”

Ela soltou um soluço.

“Você lembra o que eu disse quando a mamãe morreu?”

“Que eu nunca ficaria sozinha.”

“Você não está sozinha agora.”

Dante abriu a porta do escritório.

Do lado de fora, o corredor que normalmente obedecia ao silêncio dele estava cheio de homens se movendo rápido.

Elena já falava com alguém, exigindo contato direto com a direção da escola, usando termos frios e oficiais para uma coisa que era simples demais: minha irmã estava prestes a ser levada.

“Tempo?”, Dante perguntou.

“Seis minutos até a equipe mais próxima”, Luca respondeu.

“Não temos seis.”

Dante pegou o próprio celular e fez uma ligação.

A voz dele quando falou não parecia humana.

“Fechem o quarteirão.”

Houve uma pausa.

“Não me importa com quem você precisa discutir.”

Outra pausa.

“É a irmã dela.”

Essas três palavras mudaram o rosto de Luca.

Mudaram o de Elena.

Mudaram o meu.

Porque Dante não disse minha assistente.

Não disse meu problema.

Disse dela.

No telefone, Lily sussurrou que a professora estava lendo os papéis.

Eu ouvi folhas sendo viradas.

Ouvi Mason rir de leve.

“Ela está demorando”, Lily disse.

“Bom. Deixe ela demorar.”

“Ele está olhando para mim de novo.”

“Olhe para a mesa. Conte as marcas no lápis. Respire comigo.”

Ela tentou.

Um.

Dois.

Três.

Então ouvi uma voz ao fundo, diferente da professora.

Masculina.

Mais dura.

“Mason Vale?”

Silêncio.

Dante congelou.

Luca olhou para o comunicador.

“Não é nossa equipe”, ele disse.

Meu estômago caiu.

Do outro lado da linha, cadeiras se arrastaram.

Lily prendeu a respiração.

Mason disse alguma coisa baixa demais para eu entender.

A nova voz respondeu:

“Salvatore mandou mudar o plano.”

Dante ficou tão imóvel que parecia esculpido.

Elena cobriu a boca com uma das mãos.

Luca sacou a arma, não porque alguém estivesse na sala, mas porque todos entendemos ao mesmo tempo.

Mason não era o único homem na escola.

E talvez nunca tivesse sido o principal.

“Lily”, Dante disse de repente, perto do meu celular, a voz controlada mas urgente. “Coloque o aparelho no bolso sem desligar.”

Minha irmã reconheceu a voz dele.

“Dante?”

“Agora.”

Houve um ruído de tecido, um abafamento, e depois tudo ficou mais distante.

Ainda dava para ouvir.

Passos.

A professora perguntando o que estava acontecendo.

Mason dizendo que havia um mal-entendido.

A outra voz respondendo que não havia mais tempo.

Então Lily gritou.

Meu corpo se moveu antes da minha mente.

Dante me segurou pelos ombros, não para me prender, mas para me impedir de cair.

“Eu vou buscar ela”, eu disse.

“Eu também.”

“Não transforme minha irmã em guerra.”

Ele olhou para mim.

Pela primeira vez desde que eu o conhecia, Dante Moretti parecia dividido entre o monstro que todos temiam e o homem que eu tinha tentado não amar.

“Cara”, ele disse, “eles já fizeram isso.”

Luca voltou a falar no comunicador.

A equipe estava a quatro minutos.

Quatro minutos podia ser uma vida inteira quando uma porta de sala de aula estava aberta.

Elena virou o tablet para Dante.

Uma câmera externa da escola havia carregado.

A imagem tremia, mas dava para ver o corredor.

Mason estava lá.

A professora também.

Lily aparecia ao fundo, perto das carteiras.

E havia outro homem na porta.

Ele segurava o mesmo tipo de envelope que tinha chegado ao meu apartamento.

Dante olhou uma vez para a tela.

Só uma.

Depois se virou para Luca.

“Traga o carro.”

“Dante—” Elena começou.

“Agora.”

Eu peguei minha bolsa, mas ele colocou a mão sobre ela.

“Não.”

“Ela é minha irmã.”

“E é por isso que você não vai levar outro dispositivo deles sem saber.”

Ele virou a bolsa sobre a mesa.

Tudo caiu.

Carteira, batom, recibos, lenços, o chaveiro falso, moedas, a caneta que Lily tinha me dado no meu aniversário.

E um segundo objeto preto rolou até parar perto da pasta.

Eu nunca tinha visto aquilo antes.

Elena ficou branca.

“Cara”, ela disse devagar, “isso estava na sua bolsa?”

“Eu não coloquei isso aí.”

Dante não tocou no objeto.

Ele apenas olhou para ele como se o objeto tivesse acabado de confessar.

“Escuta.”

Todos ficaram quietos.

O pequeno dispositivo emitiu um som quase inaudível.

Um pulso.

Depois outro.

Luca recuou um passo.

“É ativo.”

Dante ergueu os olhos para mim.

Não havia acusação no rosto dele.

Só uma compreensão terrível.

Eles não tinham apenas me usado para entrar no escritório.

Tinham usado minha bolsa para marcar exatamente onde eu estava.

E, do outro lado do celular abafado no bolso da minha irmã, a voz de Mason disse:

“Confirmado. Ela ainda está com Moretti.”

O escritório pareceu inclinar.

A escola, a carta, a falsa vaga, o envelope, a chave, tudo se encaixou tarde demais.

Lily não era só ameaça.

Ela era distração.

Eu era o rastreador.

E Dante era o alvo.

Dante fechou a pasta preta com uma calma mortal.

Depois olhou para mim, não como chefe, não como dono, não como homem acostumado a mandar.

Como alguém que tinha acabado de aceitar o preço de uma escolha.

“Cara”, ele disse, “quando eu abrir aquela porta, você fica atrás de Elena.”

“Não.”

“Não estou pedindo.”

“Nem eu.”

Ele quase sorriu.

Quase.

Mas então o celular de Luca tocou.

Ele atendeu, ouviu por dois segundos e perdeu a cor do rosto.

“Dante”, ele disse. “A equipe chegou à escola.”

Eu agarrei a beira da mesa.

“E Lily?”

Luca olhou para mim.

Depois para Dante.

“A sala está vazia.”

Por um momento, ninguém falou.

O mundo virou um corredor branco, comprido, sem portas.

Então, do meu celular ainda conectado, veio a respiração de Lily.

Fraca.

Perto demais do microfone.

“Cara?”

Eu quase desabei.

“Lily, onde você está?”

Ela chorou uma vez, baixinho.

“Não sei.”

Dante se inclinou sobre o telefone.

“Descreva o que ouve.”

“Motor.”

Meu coração parou.

“Porta fechando.”

Luca já corria.

Elena gritou alguma ordem para alguém no corredor.

Dante pegou minha mão, e naquele aperto não havia posse nenhuma.

Havia promessa.

“Lily”, eu disse, tentando manter a voz inteira, “você consegue ver alguma coisa?”

A resposta veio em um fio.

“Tem um envelope no banco.”

Dante fechou os olhos por meio segundo.

“Leia.”

O papel raspou.

Minha irmã respirou.

E então ela leu a frase que Bellini tinha deixado para Dante, usando a minha irmã, minha assinatura e meu medo como tinta.

“Troque a garota pelo cofre.”

Dante abriu os olhos.

Toda a ternura desapareceu.

Mas a mão dele não soltou a minha.

Naquele dia, eu finalmente entendi a verdade que tinha tentado negar por três anos.

Amar um homem perigoso não torna o mundo mais seguro.

Mas às vezes o perigo que ama você de volta é a única coisa em pé entre sua família e homens piores.

Dante falou com Luca sem tirar os olhos de mim.

“Prepare tudo.”

“Tudo?”, Luca perguntou.

“Tudo.”

Elena respirou fundo.

“Dante, se você for até Bellini com o cofre—”

“Eu não vou com o cofre.”

Ele pegou a pasta preta, tirou a planta do escritório e virou a página.

Havia outra planta por baixo.

Não do escritório.

Do clube privado de Bellini.

Dante já sabia.

Talvez não tudo.

Mas o suficiente.

Ele olhou para mim e disse a única coisa que conseguiu me manter em pé.

“Nós vamos buscar sua irmã.”

E, pela primeira vez desde que o envelope apareceu debaixo da minha porta, eu acreditei que talvez Lily ainda tivesse uma chance.

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