A Caixa Sob a Mesa Revelou o Segredo Que a Família Escondia-criss

Ao encarar o volume sob a mesa, Beatriz percebeu que Alice era apenas a parte visível do que todos ali tentavam manter fora de vista.

A menina continuava agarrada à lateral do vestido da mãe, ainda com a flor de papel amassada entre os dedos, enquanto Rafael mantinha o corpo entre Larissa e a mesa.

Beatriz puxou a caixa para fora.

Image

Era de papelão comum, fechada com duas tiras largas de fita adesiva, e tinha marcas de ter sido aberta e fechada várias vezes.

— Bia, deixa isso — Sérgio disse.

Dessa vez, a voz dele não soou como uma ordem.

Soou como medo.

Beatriz ergueu os olhos para o pai.

— Você sabia o que tinha aqui?

Sérgio não respondeu.

Larissa tentou contornar Rafael.

— Isso é meu. Você não tem direito de mexer.

— Então me explica por que estava escondido atrás da festa do meu noivado, ao lado de remédios vazios e da pulseira da sua filha.

— Não tem nada a ver com você.

Alice apertou ainda mais o tecido do vestido de Beatriz.

— Mamãe, ela falou para eu não tocar.

Foi aquela frase que fez Beatriz parar de olhar para Larissa e voltar para a filha.

— Quando ela falou isso?

Alice apontou para o canto onde havia sido encontrada.

— Quando eu vim procurar meu desenho. Ela viu que eu estava aqui e falou para eu esperar atrás das caixas.

Beatriz sentiu o sentido daquela tarde mudar outra vez.

Alice não tinha sido escondida apenas para deixar Helena sozinha diante do fotógrafo.

Ela tinha chegado perto demais de alguma coisa.

Beatriz soltou a fita da caixa.

Marlene finalmente perdeu a postura tranquila que vinha tentando sustentar desde o desaparecimento da neta.

— Você vai estragar sua própria festa por causa disso?

Beatriz virou o rosto lentamente.

— Minha filha ficou chorando escondida atrás de caixas porque vocês mandaram. A festa já acabou.

Marlene abriu a boca para responder, mas Rafael falou antes.

— Ela disse que acabou.

Não houve grito.

Foi pior assim.

Beatriz abriu a tampa.

Por cima havia envelopes usados, cópias de recibos e várias folhas impressas com fotografias de Helena.

Algumas mostravam a menina menor, deitada numa cama de hospital três anos antes.

Outras eram fotos recentes em casa, no sofá, na escola, abraçando a avó ou segurando brinquedos.

Beatriz conhecia muitas delas.

Já tinha visto versões parecidas na página da vaquinha que Larissa compartilhava havia meses, sempre acompanhadas de textos sobre consultas, crises e tratamentos que, segundo ela, a família mal conseguia pagar.

Beatriz retirou a primeira pilha.

Abaixo havia folhas cheias de anotações de Marlene.

Datas.

Sugestões de fotos.

Frases riscadas.

Lembretes sobre quais imagens de Helena pareciam mais fortes.

Uma anotação circulada dizia que precisavam atualizar a campanha com material novo porque as contribuições tinham diminuído.

Mais abaixo, outra linha mencionava a festa daquela tarde.

Beatriz leu duas vezes.

Depois olhou para o painel lilás, os cupcakes com o nome de Helena e a decoração que sua mãe havia insistido em acrescentar ao noivado.

De repente, aquilo deixou de parecer apenas favoritismo.

Marlene tinha transformado a festa em cenário.

— Era para isso? — Beatriz perguntou.

Larissa cruzou os braços.

— Você está interpretando tudo errado.

— Então interpreta para mim.

Ela ergueu uma das folhas.

— Por que tem uma lista de fotos da Helena que precisam ser feitas hoje?

Larissa não respondeu.

Beatriz continuou lendo.

Havia instruções simples: Helena sozinha diante do painel, Helena com o bolo, Helena abraçada à avó, Helena segurando uma lembrancinha, Helena perto das flores.

Ao lado de algumas linhas, Marlene tinha escrito pequenas ideias de texto sobre uma criança tentando aproveitar um dia feliz apesar de uma fase difícil.

Beatriz sentiu o estômago apertar.

— Vocês iam usar as fotos do meu noivado para atualizar a vaquinha?

— Não era assim — Marlene respondeu depressa. — A gente só queria aproveitar que todo mundo já estaria arrumado e que tinha fotógrafo.

— Para arrecadar dinheiro dizendo que Helena continua gravemente doente?

Marlene olhou para Larissa.

Esse pequeno movimento bastou.

Beatriz voltou à caixa.

No fundo encontrou cópias das atualizações antigas da campanha organizadas por data.

Foi colocando as páginas no chão, lado a lado, sem perceber que Rafael se abaixava para ajudá-la a impedir que Alice pisasse nelas.

As primeiras publicações coincidiam com uma internação real de Helena quando ela era menor.

A pulseira amarelada encontrada no saco preto era daquela época.

Os recibos originais também.

Havia acontecido alguma coisa de verdade.

Helena realmente tinha ficado internada.

A família realmente tinha se assustado.

Só que a sequência terminava ali.

O que vinha depois era diferente.

Recibos antigos reapareciam associados a textos novos.

Fotos da primeira internação eram recortadas para não mostrar datas.

Frascos guardados voltavam a aparecer em composições feitas em casa.

Descrições de uma recuperação difícil eram reescritas como se fossem novos episódios.

Beatriz ficou olhando para as páginas.

A pergunta deixou de ser se a doença de Helena tinha existido.

Tinha.

A pergunta agora era quanto tempo fazia que a família usava um sofrimento verdadeiro para sustentar uma história que já não correspondia à realidade.

Larissa percebeu a mudança no rosto da irmã.

— Ela ficou muito doente naquela época. Você sabe disso.

— Eu sei.

— Eu passei noites sem dormir.

— Eu sei.

— Eu achei que minha filha podia morrer.

Beatriz baixou a folha.

— E eu estava com você.

Larissa ficou calada.

Beatriz lembrava.

Tinha levado comida.

Tinha cuidado da casa da irmã.

Tinha feito transferências quando Larissa dizia que surgiam novas despesas.

Tinha cancelado pequenas coisas para si mesma porque acreditava que Helena precisava mais.

Nunca tinha pedido prestação de contas.

Era família.

Foi então que encontrou uma lista de nomes.

Doadores.

Alguns eram parentes.

Outros, colegas e conhecidos.

O nome de Beatriz aparecia várias vezes.

Ela passou o dedo pela própria linha.

Não precisava de um valor ao lado para sentir o golpe.

— Quanto dessa campanha era verdade, Larissa?

— Não faz isso aqui.

— Quanto?

— A Helena teve despesas durante muito tempo.

— Não foi o que eu perguntei.

Marlene interveio.

— Sua irmã ficou desesperada. Você não sabe o que uma mãe faz quando está com medo.

Beatriz olhou para Alice.

A filha estava com os olhos inchados de tanto chorar.

— Hoje eu aprendi bastante sobre o que algumas mães fazem quando estão com medo de serem descobertas.

Marlene recuou como se tivesse recebido um empurrão.

Sérgio finalmente se mexeu.

— Chega.

Beatriz se virou para ele.

— Não. Agora você fala.

O pai passou as mãos pelo rosto.

— Eu não sabia de tudo no começo.

Larissa levantou a cabeça.

— Pai.

— Não vou continuar.

A frase dele foi baixa, mas dessa vez não havia hesitação.

Sérgio apontou para o saco preto.

— Quando sua mãe pediu para eu trazer aquelas coisas para cá, disse que eram materiais antigos que Larissa queria guardar fora da vista dos convidados.

Marlene tentou interromper.

— Sérgio, não distorce.

— Eu vi a pulseira. Vi os papéis. Reconheci algumas coisas da época do hospital.

Ele olhou para Beatriz.

— Eu perguntei por que aquilo estava aqui.

— E o que ela respondeu?

Sérgio demorou.

— Que iam fazer fotos novas da Helena e depois organizar tudo.

Beatriz sentiu Rafael se aproximar um pouco mais.

— E Alice?

Sérgio fechou os olhos por um instante.

— Ela apareceu aqui antes de você.

A mão de Beatriz apertou a borda da caixa.

— Continue.

— Ela estava procurando a flor que tinha deixado cair. Viu Larissa colocando essa caixa embaixo da mesa. Perguntou o que era.

Larissa balançou a cabeça.

— Ela é uma criança. Nem sabia o que estava vendo.

Sérgio não olhou para a filha.

— Larissa mandou Alice voltar para o salão. A menina disse que queria mostrar a caixa para a mãe porque tinha visto remédio.

Beatriz parou de respirar por um segundo.

Ali estava a ligação que faltava.

Não era apenas uma disputa por fotografias.

Alice tinha falado que contaria à mãe.

— Então vocês a esconderam.

— Eu coloquei as caixas na frente — Sérgio admitiu. — Larissa disse que seriam só alguns minutos, até terminar as fotos e guardar tudo no carro.

— E você aceitou deixar sua neta chorando ali?

Sérgio olhou para Alice.

A menina desviou o rosto e se escondeu atrás da mãe.

Ele não conseguiu responder.

Beatriz entendeu que aquela era a resposta.

Marlene ainda tentou recuperar o controle.

— Ninguém machucou Alice.

Beatriz se levantou tão depressa que a tampa da caixa caiu para o lado.

— Vocês mandaram uma criança de quatro anos ficar escondida porque ela viu alguma coisa que vocês não queriam que eu visse.

— Ela ficou ali poucos minutos.

— Para uma criança assustada, poucos minutos são suficientes.

Rafael colocou a mão aberta sobre a mesa, sem tocar em ninguém.

— Alice não vai ficar mais um minuto aqui.

Foi a primeira decisão prática tomada desde que a caixa aparecera.

Beatriz concordou.

— Pega a bolsa dela, por favor.

Marlene se assustou.

— Você vai embora do próprio noivado?

— Não existe mais noivado hoje.

A frase fez Larissa olhar imediatamente para Rafael, talvez esperando que ele protestasse.

Ele não protestou.

Em vez disso, atravessou o corredor em direção ao salão.

Beatriz pensou que ele fosse buscar apenas a bolsa de Alice.

Ele voltou acompanhado do fotógrafo, o mesmo homem que Larissa tinha usado como justificativa quando Beatriz perguntara pela filha.

Rafael não pediu que ele investigasse nada.

Fez uma pergunta simples.

— Quem pediu as fotos individuais da Helena?

O fotógrafo pareceu desconfortável ao perceber a família reunida na área de serviço.

— A senhora de vestido azul.

Apontou discretamente para Marlene.

Marlene cruzou os braços.

— Eram fotos da minha neta. Qual é o problema?

Beatriz perguntou:

— Ela pediu alguma coisa específica?

— Algumas fotos sem outras crianças no enquadramento. Disse que precisava de imagens limpas para uma publicação depois.

Nada além disso.

Ele não sabia da campanha.

Não sabia da caixa.

Mas aquela confirmação estreita bastava para destruir a última explicação inocente sobre Alice ter sido afastada apenas por alguns retratos de aniversário.

Marlene havia planejado as imagens.

Larissa sabia por quê.

Sérgio havia ajudado a impedir que Alice chegasse até Beatriz depois de ver os objetos antigos.

A festa inteira começava a fazer sentido.

O painel de Helena.

Os cupcakes.

A insistência em fotografá-la sozinha.

A vaquinha impressa dentro do saco.

A caixa perto da área de serviço.

A pressa para manter Alice longe dali.

Beatriz entregou ao fotógrafo uma instrução que ele podia cumprir imediatamente.

— Nenhuma foto da minha filha e nenhuma foto desta festa pode ser entregue ou publicada por qualquer pessoa sem falar comigo e com Rafael primeiro.

Ele assentiu.

Marlene explodiu.

— Você não pode controlar as fotos da Helena.

Beatriz respondeu:

— Não estou tentando controlar a Helena. Estou impedindo que o meu noivado seja usado para sustentar uma mentira.

Larissa soltou uma risada curta, nervosa.

— Você já decidiu que eu sou uma criminosa e pronto.

— Eu decidi que não vou fingir que não vi.

— Você sempre quis ser melhor do que eu.

Beatriz quase respondeu no impulso.

Quase entrou naquela discussão antiga, conhecida desde a adolescência, na qual qualquer limite virava inveja e qualquer pergunta virava competição.

Mas Alice puxou sua mão.

— Mamãe, a minha flor rasgou.

Beatriz olhou para o papel amassado.

Uma das pétalas tinha se soltado quase até a metade.

— A gente conserta em casa.

Alice assentiu.

Aquela escolha pareceu pequena.

Não era.

Beatriz fechou a caixa e a colocou sobre a mesa.

— Rafael, vamos embora.

Marlene tentou segurá-la pelo braço.

Beatriz afastou a mão da mãe antes do toque.

— Não.

Marlene congelou.

Beatriz nunca tinha feito aquilo.

Passara a vida inteira ouvindo que exagerava, que era sensível demais, que complicava reuniões, que interpretava tudo da pior maneira.

Até quando a festa de noivado havia sido tomada pelo aniversário antecipado da sobrinha, ela engolira a irritação para não parecer egoísta.

Só que, naquele fim de tarde, a mesma família que a acusava de transformar tudo em drama havia escondido sua filha para proteger uma encenação.

Ela não precisava mais discutir sobre a definição da palavra exagero.

Precisava tirar Alice dali.

Rafael pegou a bolsa da menina.

Beatriz carregou a caixa.

Sérgio observou.

— Você vai levar isso?

— Vou guardar até decidir o que fazer.

Larissa avançou.

— É meu.

Beatriz apontou para as cópias da campanha com o próprio nome entre os doadores.

— Então amanhã você pode me explicar tudo com calma e sem esconder criança nenhuma atrás de caixas.

Larissa parou.

Foi Marlene quem fez a tentativa final.

— Pense na Helena. Se isso sair daqui, quem vai sofrer é ela.

Beatriz olhou na direção do salão.

Helena continuava perto do painel, alheia à maior parte da discussão, perguntando a uma convidada quando poderia comer outro cupcake.

Aquilo atingiu Beatriz de um jeito diferente.

Helena também era uma criança.

Não tinha criado campanha.

Não tinha escrito textos.

Não tinha guardado pulseira antiga.

Não tinha decidido transformar a própria história médica em ferramenta de arrecadação.

— É justamente nela que eu estou pensando — Beatriz disse. — Porque ela não merece crescer acreditando que precisa parecer doente para os adultos resolverem seus problemas.

Larissa perdeu a resposta.

Beatriz saiu com Alice no colo.

Rafael caminhou ao lado delas.

A festa continuou por alguns minutos sem saber se ainda era festa, aniversário ou despedida.

Depois os convidados começaram a ir embora.

Naquela noite, Beatriz não publicou acusações.

Não telefonou para cada parente.

Não transformou a descoberta em espetáculo.

Sentou-se à mesa de casa com Rafael depois que Alice adormeceu e abriu a caixa novamente.

Dessa vez, sem gritos ao redor, conseguiu perceber uma coisa que tinha escapado no salão.

As anotações de Marlene formavam uma sequência.

A internação verdadeira de Helena aparecia no início.

Depois vinham os primeiros pedidos de ajuda, ainda ligados a despesas reais.

Em seguida surgiam alterações pequenas.

Uma foto antiga usada como se fosse recente.

Uma despesa doméstica misturada às despesas médicas.

Um texto mais dramático porque a publicação anterior tinha arrecadado pouco.

Depois outra adaptação.

E outra.

Não havia um instante único em que toda a mentira tivesse começado.

Ela crescera por concessões.

Uma justificativa de cada vez.

Quando Beatriz percebeu isso, entendeu por que todos tinham versões ligeiramente diferentes do que acontecera.

Larissa ainda pensava na primeira internação e repetia que o sofrimento tinha sido real.

Marlene tratava cada exagero como uma ferramenta temporária para ajudar a filha.

Sérgio dizia a si mesmo que não precisava saber detalhes, desde que não fosse ele quem escrevesse as publicações.

Nenhum deles parecia ter parado quando a emergência terminou.

E, naquela tarde, tinham cruzado outro limite para evitar que uma menina de quatro anos fizesse uma pergunta.

Rafael encontrou uma folha perto do fundo da caixa.

— Bia.

Ela se aproximou.

Era o planejamento da atualização que seria publicada depois da festa.

O texto ainda não estava finalizado, mas a ideia era clara: mostrar Helena em um momento de celebração, cercada de carinho, enquanto a família se preparava para uma nova fase difícil.

Não havia indicação de uma nova internação.

Não havia diagnóstico recente.

Havia apenas a intenção de criar continuidade emocional suficiente para reativar as doações.

Beatriz ficou olhando para aquilo.

Foi ali que o último pedaço se encaixou.

Marlene não tinha tomado metade da decoração do noivado apenas porque preferia Helena.

Precisava de cenário novo.

Larissa não tinha insistido nas fotos individuais apenas porque queria lembranças do aniversário.

Precisava de imagens em que nenhuma outra criança desviasse o foco.

E Alice não fora escondida apenas porque atrapalhava o enquadramento.

Quando encontrou a caixa, tornou-se um risco para a história que os adultos pretendiam contar depois.

No dia seguinte, Larissa apareceu na casa de Beatriz sem Marlene.

Rafael abriu a porta, mas não participou da conversa.

Beatriz sentou-se diante da irmã com a caixa fechada entre as duas.

Larissa parecia não ter dormido.

— Mamãe começou com as atualizações — disse antes mesmo que Beatriz perguntasse. — Mas eu deixei.

Beatriz esperou.

— Quando Helena saiu do hospital, ainda havia contas. Depois meu dinheiro acabou. A campanha ainda recebia alguma coisa. Mamãe dizia que ninguém estava sendo obrigado a doar.

— E depois?

Larissa passou a mão pelo rosto.

— Depois ficou mais fácil continuar do que admitir que ela já estava bem.

Era uma frase pequena para algo enorme.

— Os remédios vazios?

— Antigos.

— Os recibos?

— Alguns eram antigos também.

— As fotos?

Larissa baixou os olhos.

— A maioria era de períodos em que ela estava bem.

Beatriz sentiu raiva.

Mas havia algo ainda pior que a raiva.

Reconhecimento.

A irmã não parecia uma pessoa revelando um plano brilhante e perverso.

Parecia alguém que tinha permitido que uma mentira útil se tornasse rotina porque cada etapa parecia pequena demais para exigir uma ruptura.

Isso não diminuía a responsabilidade.

Só explicava como todos tinham chegado tão longe.

— E a Alice?

Larissa começou a chorar.

Beatriz não desviou a pergunta.

— Olha para mim e responde sobre a Alice.

Larissa ergueu o rosto.

— Ela viu a caixa. Falou que ia chamar você. Eu entrei em pânico.

— Então mandou uma criança se esconder.

— Eu disse que seriam dois minutos.

— Ela não sabia disso.

— Eu sei.

— Não, Larissa. Você sabe agora porque deu errado. Ontem, quando eu encontrei minha filha chorando, sua primeira resposta foi dizer que ela precisava ficar ali só alguns minutos.

Larissa ficou em silêncio.

Beatriz empurrou a caixa alguns centímetros para o centro da mesa.

— Eu não vou publicar isso para humilhar você. Também não vou devolver e fingir que nunca vi.

— O que você vai fazer?

— Primeiro, impedir que a campanha continue recebendo dinheiro com informações falsas. Depois, quero uma relação clara de quem contribuiu e do que ainda existe do valor arrecadado. O que for possível devolver precisa ser devolvido.

Larissa fechou os olhos.

— Mamãe nunca vai aceitar.

— Então sua primeira decisão adulta depois de tudo isso talvez seja parar de esperar que ela aceite.

Não foi uma reconciliação.

Larissa saiu sem abraçar a irmã.

Mas levou consigo uma cópia das páginas que mostravam as atualizações mais recentes.

Naquela mesma semana, a campanha deixou de aceitar novas contribuições enquanto as informações eram revistas.

Larissa começou a entrar em contato com pessoas que tinham ajudado mais recentemente.

Houve raiva.

Houve gente que não quis ouvir explicação.

Houve quem dissesse que o dinheiro podia ficar com Helena, desde que nunca mais usassem a menina daquela maneira.

Houve quem pedisse devolução.

Larissa aceitou que não seria ela quem decidiria qual reação era justa.

Marlene, ao contrário, passou dias telefonando para Beatriz.

Primeiro acusou a filha de destruir a família.

Depois disse que tudo tinha sido feito por Helena.

Depois afirmou que Beatriz estava punindo a sobrinha por ciúme.

Beatriz não respondeu a nenhuma dessas acusações.

Respondeu apenas uma vez, quando a mãe finalmente perguntou o que precisaria fazer para ver Alice novamente.

— Reconhecer que esconder minha filha foi errado sem acrescentar a palavra mas.

Marlene não conseguiu naquele dia.

Nem no seguinte.

Sérgio conseguiu antes.

Foi sozinho até a casa de Beatriz.

Não levou presente para Alice.

Não pediu que a menina o abraçasse.

Sentou-se a uma distância que ela escolheu e disse:

— Eu coloquei aquelas caixas na sua frente. Você pediu para sair e eu não tirei. Eu fiz errado.

Alice ficou olhando para ele.

Depois perguntou:

— Por quê?

Sérgio respirou fundo.

— Porque eu tive medo de brigar com adultos e deixei uma criança pagar por isso.

Beatriz ouviu da cozinha.

Não perdoou tudo naquele instante.

Mas foi a primeira vez que alguém naquela família descreveu o próprio erro sem dizer que ela estava exagerando.

Rafael também tomou uma decisão.

O casamento continuaria, mas não do jeito que tinham planejado antes.

Sem festa reorganizada por terceiros.

Sem lista feita para agradar a família.

Sem espaço para Marlene comandar detalhes e depois dizer que estava apenas ajudando.

Quando perguntou se Beatriz queria adiar tudo, ela pensou por alguns segundos.

— Não quero que eles decidam isso também.

Então mantiveram os planos essenciais e reduziram o resto.

Sem transformar a escolha numa vingança.

O noivado fracassado não virou lembrança que precisasse ser substituída por uma comemoração maior.

Virou apenas o dia em que Beatriz finalmente percebeu que paz familiar e silêncio não eram a mesma coisa.

Algumas semanas depois, Larissa trouxe Helena para encontrar Alice num parque perto de casa.

As duas meninas correram para brincar antes que as mães terminassem a primeira frase.

Beatriz tinha receio de que Helena tivesse ouvido coisas demais.

Ou coisas erradas.

Mas a menina só perguntou por que a festa tinha acabado cedo.

Larissa respondeu antes da irmã.

— Porque os adultos fizeram coisas que não deviam e precisaram consertar.

Helena pareceu satisfeita com aquela explicação e voltou para perto de Alice.

Foi pouco.

Mas foi verdadeiro.

Marlene demorou mais.

Quando finalmente apareceu, ainda tentou começar dizendo que jamais quis fazer mal a ninguém.

Beatriz interrompeu.

— Eu não perguntei o que você queria. Perguntei o que fez.

Marlene chorou.

Dessa vez Beatriz não correu para aliviar o desconforto da mãe.

Depois de um longo intervalo, Marlene conseguiu dizer que tinha usado a festa sem permissão, ajudado a sustentar informações falsas sobre Helena e permitido que Alice fosse isolada para evitar que a caixa fosse descoberta.

Não pediu que Beatriz esquecesse.

Beatriz não prometeu esquecer.

O contato voltou devagar, com regras simples.

Alice nunca mais seria afastada ou disciplinada por outro adulto da família sem que Beatriz soubesse.

Nenhuma imagem das crianças seria usada em campanha ou pedido de dinheiro.

E qualquer encontro terminaria no instante em que alguém voltasse a chamar uma preocupação concreta de drama apenas para encerrar a conversa.

Meses depois, certa manhã, Alice apareceu na cozinha segurando uma folha nova de papel colorido.

— Mamãe, olha.

Beatriz se abaixou.

Era outra flor.

Não igual à primeira.

Aquela tinha pétalas tortas e um pedaço de fita adesiva exageradamente grande no caule.

Alice correu até a geladeira.

A flor antiga continuava presa ali.

Beatriz a tinha consertado na noite em que saíram da festa.

A marca da dobra ainda atravessava duas pétalas, e uma delas nunca voltara à posição original.

Alice colocou a flor nova ao lado da velha.

— Agora ela não fica sozinha.

Beatriz ajudou a prender o papel.

Na área de serviço daquela festa, a primeira flor tinha sido amassada enquanto uma criança esperava atrás de caixas para que os adultos preservassem uma história falsa.

Na cozinha de casa, ela não precisava provar nada.

Era apenas uma flor feita por Alice, presa à geladeira ao lado de outra.

E, pela primeira vez em muito tempo, ninguém precisava esconder nada para que ela permanecesse ali.

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