Kirill ainda estava diante da porta quando o nome de Alina ecoou no quarto escuro.
Ela apertou a maleta médica contra o peito e não respondeu de imediato.
O sangue no terno de Kirill dizia que aquilo não era um simples acidente, e o disparo que acabara de estourar do outro lado da porta tornava qualquer explicação urgente demais para esperar.

— Ele precisa de atendimento — Kirill disse, mantendo a voz baixa.
Alina olhou para a porta fechada.
— Então por que ele não foi para um hospital?
Kirill não respondeu.
Antes que ela pudesse perguntar novamente, a maçaneta se moveu.
A porta abriu.
Damon Volkov apareceu na penumbra com uma das mãos pressionada contra a lateral do corpo. A camisa grafite que Alina tinha visto horas antes estava manchada, e o rosto dele perdera parte daquela autoridade fria que fazia homens armados baixarem os olhos.
Mas ele ainda estava de pé.
E, quando levantou o rosto, ignorou todos os outros presentes.
Olhou diretamente para ela.
— Alina.
Ela sentiu a garganta apertar.
Damon Volkov sabia o nome dela.
Até aquela noite, Alina acreditava que, para ele, ela era apenas a mulher que deixava café sobre a mesa antes do amanhecer.
Agora, ele estava ferido, recusara um hospital e acabara de chamá-la como se tivesse esperado que ela chegasse.
Kirill percebeu a mesma coisa.
Seu olhar passou de Damon para Alina.
— Você conhece o senhor Volkov? — perguntou.
— Eu trabalho nesta casa há dois anos.
— Não foi isso que perguntei.
Alina não teve tempo de responder.
Damon se apoiou no batente da porta.
— Ela entra.
Kirill franziu a testa.
— Damon, você acabou de levar um tiro.
— Eu sei.
A resposta veio seca.
— E ela não é médica.
Damon olhou novamente para Alina.
— Mas sabe o que fazer.
Alina ficou imóvel por um instante.
A senhora Petrova tinha lhe ensinado a cuidar de ferimentos básicos no primeiro mês de trabalho. Nunca imaginara que aquela habilidade seria necessária para atender o homem mais perigoso da casa.
Ela entrou.
A porta se fechou atrás dela.
O quarto era maior do que qualquer espaço privado ao qual Alina costumava ter acesso, mas naquela hora só conseguia enxergar a cadeira próxima à cama, a camisa manchada e a maleta que carregava.
— Sente-se — ela disse.
Damon não se mexeu.
— Senhor Volkov.
— Damon.
Ela levantou os olhos.
— Não acho que seja uma boa hora para isso.
Pela primeira vez naquela madrugada, algo parecido com humor apareceu no rosto dele.
Não durou.
Ele se sentou.
Alina abriu a maleta e examinou o ferimento sem tocar imediatamente nele.
— Preciso de luz.
Damon apontou para o abajur.
Ela o acendeu.
A lesão era séria o bastante para exigir cuidado, mas Alina não viu o que esperaria de um ferimento que justificasse todo aquele caos. Não havia uma emergência médica simples diante dela.
Havia outra coisa.
— Quando aconteceu?
— Pouco antes de chegarmos.
— Quem estava com o senhor?
Damon permaneceu calado.
Alina percebeu.
— Se eu vou cuidar disso, preciso saber o que aconteceu.
Ele ergueu os olhos.
— Você sempre faz tantas perguntas?
— Só quando alguém está sangrando na minha frente.
Damon ficou olhando para ela por alguns segundos.
Então respondeu:
— Kirill estava comigo.
— E os outros homens?
— Não estavam quando aconteceu.
Alina começou a preparar o material.
A mão dela ainda tremia um pouco.
Damon percebeu.
— Você está com medo de mim?
Ela apertou a embalagem entre os dedos.
— Estou com medo de fazer alguma coisa errada.
A resposta pareceu surpreendê-lo mais do que qualquer confissão de medo.
Ele desviou os olhos.
Alina continuou.
Na cozinha, horas antes, Sloan Harris tinha percebido que suas mãos tremiam depois do episódio do café.
Agora, pela primeira vez, Alina entendia por quê.
Não era apenas porque Damon a havia segurado pelo pulso.
Era porque, naquele homem, havia alguma coisa que ela não conseguia ignorar.
Perigo, sim.
Mas também uma confiança inesperada.
Damon poderia ter mandado chamar qualquer pessoa.
Escolhera ela.
— Por quê? — Alina perguntou.
Ele ficou em silêncio.
— Por que me chamou?
Damon apoiou a cabeça na cadeira.
— Porque eu sabia que você viria.
Alina parou.
— Como sabia?
Ele não respondeu.
A pergunta permaneceu entre os dois enquanto ela continuava o atendimento.
Do lado de fora, passos atravessaram o corredor.
Alina olhou para a porta.
Damon percebeu.
— Não pare.
— Quem está aí?
— Pessoas que não precisam saber que você está aqui.
Ela voltou os olhos para ele.
— E por que eu deveria confiar no senhor?
Damon sustentou o olhar.
— Você não deveria.
A sinceridade da resposta a fez hesitar.
Ele não pediu confiança.
Não prometeu segurança.
Apenas deixou claro que ela estava dentro de alguma coisa que ainda não compreendia.
Alina terminou o curativo e fechou a maleta.
— Pronto.
Damon olhou para o próprio corpo e depois para ela.
— Obrigado.
Ela se levantou.
— Posso ir?
Ele assentiu.
Alina caminhou até a porta.
Sua mão tocou a maçaneta.
— Alina.
Ela se virou.
Damon estava olhando para ela de novo.
— Amanhã, não venha ao meu escritório.
Ela franziu a testa.
— Por quê?
— Porque vão perguntar o que aconteceu esta noite.
— Quem?
Damon não respondeu.
Alina abriu a porta.
Kirill ainda estava no corredor.
Ele olhou primeiro para a maleta, depois para Alina.
— Ele está estável?
— Sim.
Kirill soltou o ar lentamente.
— Então você deve esquecer que esteve aqui.
Alina encarou o homem coberto de sangue seco no punho da camisa.
— Não acho que isso seja possível.
Kirill não insistiu.
Ela desceu a escada pouco antes das três da manhã.
Mas não voltou para o quarto.
Passou pela cozinha, colocou a maleta no lugar e tentou organizar os pensamentos.
Então viu uma coisa sobre a bancada.
A cafeteira de prata de Damon.
A mesma que carregava todas as manhãs.
Ao lado dela havia uma xícara que ela nunca tinha visto.
Dentro da xícara, dobrado duas vezes, estava um pequeno pedaço de papel.
Alina abriu.
Havia apenas uma frase escrita à mão.
“Se alguém perguntar, você nunca entrou naquele quarto.”
Ela releu.
Depois percebeu que havia uma segunda linha no verso.
“Mas, se perguntarem seu nome, não minta.”
Alina ficou parada diante da bancada.
Aquilo não fazia sentido.
Se Damon queria escondê-la, por que permitiria que perguntassem quem ela era?
Ela guardou o papel no bolso do robe.
Na manhã seguinte, voltou ao trabalho como sempre.
Ou tentou.
Às 4h53, a hora em que tudo tinha começado, Alina estava novamente no corredor de serviço.
Dessa vez, não carregava café.
Carregava o bilhete escondido no bolso.
Quando chegou perto do escritório de Damon, encontrou a porta aberta.
A escrivaninha estava vazia.
O documento em russo continuava ali.
Mas havia outra coisa sobre a mesa.
Uma fotografia.
Alina se aproximou.
Reconheceu imediatamente o lugar.
Era a lanchonete perto da Avenida Archer onde trabalhara antes de entrar para a família Volkov.
Na fotografia, ela aparecia ao fundo.
Ao lado dela estava Callum.
Alina sentiu o estômago apertar.
Damon não tinha começado a prestar atenção nela naquela manhã.
Ele a observava havia muito mais tempo.
E, pela primeira vez, Alina percebeu que talvez o emprego na mansão Volkov nunca tivesse sido uma coincidência.
Ela virou a fotografia.
No verso havia uma data.
Dois anos antes.
Exatamente a semana em que sua mãe morreu e as dívidas começaram a chegar.
Abaixo da data havia apenas uma palavra.
“Proteja-os.”
Alina não sabia quem havia escrito aquilo.
Não sabia quem Damon queria proteger.
E, principalmente, não sabia por que o nome de Callum estava no verso da fotografia.
Então ouviu passos no corredor.
Alina guardou a fotografia contra o peito.
A porta começou a se fechar.
Do outro lado, uma voz masculina disse:
— Ela encontrou.
Outra voz respondeu:
— Então Damon estava certo.
Alina permaneceu imóvel, com a fotografia nas mãos.
Agora havia uma pergunta maior do que quem tinha atirado em Damon.
Por que ele vinha protegendo sua família antes mesmo de conhecê-la?
E por que alguém naquela casa parecia ter esperado exatamente o momento em que ela descobriria isso?