Meu Noivo Quebrou o Relógio do Meu Pai — E Emiliano Mudou Tudo-dieuphuong

Antes que meus dedos alcançassem as peças espalhadas pelo piso, Adrián se abaixou e pegou primeiro a parte maior do relógio do meu pai.

Ele segurou o Timex quebrado entre dois dedos, olhando para mim como se ainda tivesse alguma coisa que pudesse usar para me obrigar a ficar naquele quarto.

Jimena continuava apoiada na cama, uma das mãos sobre a barriga, respirando depressa, enquanto eu permanecia de joelhos diante dos pedaços do único objeto que eu tinha pedido para ele devolver.

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— Me dá isso — falei.

Adrián fechou a mão.

— Quando você aprender a falar comigo como minha noiva, talvez.

Foi simples.

Naquele instante, alguma coisa terminou de morrer dentro de mim.

Não foi o amor, porque depois das mensagens sobre dias pares e ímpares eu já sabia que aquilo não era amor.

Foi a última ideia absurda de que ainda existia dentro daquele homem algum respeito pelos três anos que passamos juntos, pelo meu luto ou pelo homem que eu tinha acabado de enterrar.

Levantei devagar.

— Eu não sou mais sua noiva.

Ele soltou uma risada curta.

— Você está perturbada por causa do seu pai.

— Não use meu pai para explicar o que você fez.

— Sofía, olha para a situação da Jimena.

Olhei.

Jimena estava pálida, assustada e claramente desconfortável, mas também me observava como quem finalmente começava a entender que Adrián não estava tentando proteger ninguém naquele quarto.

Ele estava tentando controlar duas mulheres ao mesmo tempo.

Ele queria que Jimena dependesse dele.

Ele queria que eu continuasse esperando por ele.

Ele queria transformar a traição numa agenda semanal e chamar aquilo de justiça.

— O médico precisa cuidar dela — respondi. — Eu não.

Adrián apertou o relógio quebrado na palma.

— Então vai embora.

Estendi a mão mais uma vez.

— Primeiro, devolve o que é meu.

— Era do seu pai.

— Exatamente.

Ele me encarou por alguns segundos e depois deixou cair a caixa amassada do Timex na minha mão, mas manteve um pequeno fragmento da pulseira entre os dedos.

Era infantil.

Era cruel.

E era tão parecido com tudo que ele tinha feito nos últimos dias que eu finalmente parei de tentar encontrar uma explicação mais nobre.

— Fica com esse pedaço — falei. — Talvez um dia ele te lembre do tamanho do homem que você escolheu ser.

Não esperei resposta.

Recolhi o que consegui do chão, coloquei as peças dentro de um lenço que estava na minha bolsa e fui até a porta.

Foi Jimena quem falou antes que eu saísse.

— Sofía.

Parei.

— Eu não sabia que ele tinha pegado o relógio.

Adrián virou imediatamente para ela.

— Não começa.

Jimena recuou contra o travesseiro.

— Você disse que ela tinha dado para você.

Aquilo me fez olhar de novo para ele.

Adrián não respondeu.

Não precisava.

Jimena continuou, mais baixo:

— Você disse que o pai dela tinha deixado várias coisas para vocês dois porque vocês iam se casar.

— Jimena, chega.

— Não — ela respondeu.

Foi a primeira vez que ouvi aquela mulher dizer não para ele.

Adrián aproximou-se da cama, tentando diminuir a conversa para um sussurro, mas Jimena desviou o rosto.

— Você também falou que Sofía sabia de mim — ela disse. — Falou que o casamento era uma questão de família e que vocês já tinham um acordo.

Meu estômago se contraiu.

— Que acordo?

Jimena olhou para mim.

— Ele dizia que vocês só estavam mantendo as aparências até resolver algumas coisas das famílias.

Adrián bateu a mão na lateral da cama.

— Ela está nervosa. Não sabe o que está falando.

Jimena fechou os olhos por um instante.

— Eu sei exatamente o que você me falou.

A porta se abriu quando uma funcionária do hospital apareceu para verificar o que estava acontecendo, atraída pelo barulho da bandeja que Adrián havia jogado no chão.

Eu não transformei aquilo em espetáculo.

Só guardei o lenço com o relógio, disse que estava saindo e pedi que cuidassem de Jimena.

No corredor, minhas pernas começaram a tremer.

Não de dúvida.

De cansaço.

Meu pai estava morto havia poucos dias, meu casamento tinha acabado e eu tinha acabado de recolher do chão um relógio que conhecia desde a infância.

Por alguns segundos, encostei a testa na parede e fechei os olhos.

Então ouvi passos.

Emiliano vinha pelo corredor.

Eu havia avisado apenas que precisava buscar uma coisa de meu pai e pedido que ele não entrasse comigo, porque aquela conversa era minha.

Ele tinha respeitado.

Como vinha respeitando tudo desde o funeral.

Não perguntou por que eu estava chorando.

Não perguntou se Adrián tinha me tocado.

Olhou para o lenço apertado na minha mão.

— É o relógio?

Assenti.

— Ele quebrou.

Emiliano ficou imóvel por um segundo.

Depois estendeu a mão, mas não tentou pegar o embrulho.

— Você quer que eu veja?

A pergunta me atingiu mais do que deveria.

Você quer.

Não me dê.

Não faça.

Não venha.

Você quer?

Fazia tempo que ninguém colocava minha vontade no centro de uma frase.

Abri o lenço.

Emiliano observou as peças, a pulseira aberta e o vidro estilhaçado.

A mandíbula dele ficou tensa.

— Dá para consertar — disse.

— Você nem sabe.

— Eu sei que dá para tentar.

— E se não der?

Ele olhou para mim.

— A gente não finge que não quebrou.

Guardei o relógio novamente.

Foi a única frase que ele disse sobre Adrián naquela noite.

No carro, contei o que Jimena tinha revelado.

Contei que Adrián afirmava que eu conhecia a relação dos dois.

Contei que ele dizia existir um acordo entre nós.

Contei que, de algum modo, ele já falava dos bens do meu pai como se uma parte daquilo fosse naturalmente dele.

Emiliano ouviu tudo sem interromper.

Quando terminei, perguntou:

— O que seus advogados disseram sobre os documentos que você está assinando?

— Que eu não devo assinar nada ligado aos Fuentes sem revisar cada página.

Ele assentiu.

— Então faça isso.

— Só isso?

— Você me pediu ajuda para destruir a família Fuentes.

Olhei para ele.

— Pedi.

— Eu não vou destruir ninguém por você, Sofía.

A resposta doeu por um segundo.

Ele continuou:

— Mas vou ficar do seu lado enquanto você tira deles tudo o que nunca tiveram direito de tratar como propriedade.

Entendi a diferença.

E, pela primeira vez desde o funeral, entendi também por que meu pai respeitava Emiliano apesar de toda a rivalidade entre as famílias.

Ele não me prometia vingança.

Ele me devolvia escolha.

Na manhã seguinte, levei as mensagens de Adrián para a reunião que já estava marcada com os advogados que cuidavam dos assuntos deixados pelo meu pai.

Não precisei inventar escândalo nenhum.

As mensagens estavam ali.

A gravidez.

A confissão de que tinha acontecido algo entre ele e Jimena.

A proposta grotesca de alternar dias entre nós.

A tentativa de me convencer de que eu estava exagerando.

E o pedido para que eu fosse ao hospital buscar o relógio.

Eu tinha passado três anos ouvindo que certas atitudes dele eram apenas o jeito da família Fuentes.

Eu tinha passado três anos aceitando ausências para não parecer insegura.

Eu tinha passado três anos diminuindo minhas próprias perguntas porque Adrián sempre encontrava uma maneira de transformar minha reação no problema principal.

Naquela mesa, porém, ninguém discutiu meus sentimentos.

Falamos de decisões.

Cancelei formalmente tudo o que ainda dependia de mim para o casamento.

Pedi que qualquer assunto patrimonial ligado à morte do meu pai fosse tratado sem Adrián.

E deixei claro que ele não tinha autorização para falar em meu nome.

Não houve música dramática.

Não houve aplauso.

Houve papel, assinatura e uma caneta que falhou duas vezes antes de funcionar.

Eu preferi assim.

Quando saí, Adrián já tinha ligado sete vezes.

Na oitava, atendi.

— O que você fez? — perguntou, sem sequer dizer meu nome.

— Cancelei o casamento.

— Para de falar isso como se fosse definitivo.

— É definitivo.

— Minha mãe acabou de receber uma ligação.

— Então fala com sua mãe.

— Sofía, nossas famílias têm compromissos.

Aquilo confirmou mais do que qualquer confissão romântica poderia confirmar.

Ele não perguntou se eu estava bem.

Não perguntou pelo relógio.

Não perguntou pelo enterro do meu pai.

Perguntou pelos compromissos das famílias.

— Você quer conversar comigo ou com o que achava que teria depois do casamento? — perguntei.

Houve uma pausa.

— Não seja ridícula.

— Essa resposta basta.

Desliguei.

Dois dias depois, Jimena me mandou uma mensagem.

Demorei quase uma hora para abrir.

Ela escreveu que havia recebido alta, que o bebê continuava sendo acompanhado e que não esperava perdão.

Não pediu amizade.

Não tentou dizer que também era vítima para apagar a escolha que tinha feito.

Disse apenas que Adrián havia contado versões diferentes para cada uma de nós.

Para ela, eu era a noiva fria que aceitava um casamento de conveniência.

Para mim, ela era o acidente de uma noite que não queria ocupar meu lugar.

Para os outros, ele era o homem dedicado que acompanhava uma gestante vulnerável no hospital.

Respondi uma única coisa:

— Cuide de você e do bebê. O resto é entre você e ele.

Jimena respondeu:

— Vou cuidar.

Depois disso, parei de acompanhar as redes sociais dos dois.

Não queria saber se Adrián descascava mexericas.

Não queria saber se fazia lives.

Não queria saber quantas pessoas acreditavam na versão dele.

Eu sabia o que tinha vivido.

E, dessa vez, isso bastava.

O problema foi que Adrián ainda não tinha aceitado perder o controle da história.

Na semana seguinte, apareceu na casa da minha mãe.

Eu estava lá organizando algumas caixas do meu pai quando ouvi sua voz do lado de fora.

Minha mãe não o deixou entrar.

Ele pediu para falar comigo.

Saí até a porta.

Adrián parecia cansado, mas mantinha aquele mesmo ar de quem acreditava que uma conversa suficientemente longa faria todo mundo voltar para o lugar que ele tinha escolhido.

Na mão, carregava um pequeno pedaço dourado.

O elo da pulseira.

— Isso é seu — falou.

Olhei para a peça.

— Você podia ter deixado no hospital.

— Eu queria falar com você.

— Fala.

Ele respirou fundo.

— A Jimena está confusa.

— Não me interessa.

— Ela terminou comigo.

Aquilo me surpreendeu, mas não do jeito que ele esperava.

Adrián observou meu rosto procurando alguma abertura.

Não encontrou.

— Ela disse que não acredita mais em mim — continuou.

— E veio me contar por quê?

— Porque agora isso tudo perdeu o sentido.

— Que tudo?

— Essa separação.

Quase ri.

Para Adrián, o fim da relação com Jimena deveria automaticamente restaurar a relação comigo, como se eu fosse o lugar padrão para onde ele retornava quando a alternativa deixava de funcionar.

— Nosso casamento não acabou porque Jimena estava grávida — respondi. — Acabou porque você decidiu que podia me trair, mentir para nós duas, usar meu luto para me calar e quebrar o relógio do meu pai quando eu disse não.

— Eu estava com raiva.

— Eu sei.

— Posso consertar.

— O relógio talvez.

Ele abaixou os olhos para o pedaço da pulseira.

— E nós?

— Não.

Curto.

Sem negociação.

Adrián levantou o rosto.

— É por causa do Guerra?

Ali estava a saída perfeita que ele procurava: transformar tudo em uma rivalidade entre dois homens e me retirar outra vez do centro da minha própria decisão.

Não deixei.

— É por sua causa, Adrián.

Ele deu um passo para trás.

— Você vai mesmo casar com Emiliano?

— Quando e se isso acontecer, será uma decisão nossa.

— Seu pai nunca teria permitido.

Eu senti a frase atravessar meu peito.

Durante alguns segundos, vi meu pai sentado à mesa, olhando o velho Timex antes de uma reunião, ajeitando os óculos, reclamando que eu sempre chegava cinco minutos atrasada.

Mas não dei a Adrián o direito de usar minha memória contra mim.

— Meu pai respeitava Emiliano — falei. — E, acima de tudo, respeitava minha capacidade de decidir.

Adrián estendeu o fragmento da pulseira.

Dessa vez, peguei.

Ele foi embora sem entrar na casa.

Eu fechei a porta.

Foi isso que mudou tudo.

Não a humilhação dele.

Não a gravidez.

Não a rivalidade entre Guerra e Fuentes.

A porta.

Durante três anos, Adrián tinha entrado na minha vida sempre que queria, com qualquer explicação que escolhesse, porque eu mantinha alguma fresta aberta para a versão dele.

Naquela tarde, a porta ficou fechada.

Emiliano não comemorou quando contei.

Estávamos na antiga sala do meu pai, cercados por caixas, documentos e fotografias que eu ainda não tinha coragem de guardar.

Ele apenas colocou uma sacola de padaria sobre a mesa.

— Você comeu?

— Você sempre pergunta isso.

— E você quase sempre muda de assunto.

Sentei.

— Adrián perguntou se eu vou casar com você.

Emiliano puxou a cadeira diante da minha.

— E o que você respondeu?

— Que seria uma decisão nossa.

Ele ficou alguns segundos sem falar.

— Boa resposta.

— Ainda vale o que você disse no funeral?

— Qual parte?

— Que um Guerra se casa para a vida toda.

O rosto dele ficou sério.

— Vale.

— E a parte de não me deixar ir embora?

Emiliano apoiou os braços na mesa.

— Essa parte eu falei mal.

Franzi a testa.

— Falou?

— Você vai embora de qualquer lugar quando quiser, Sofía. Inclusive de mim.

A frase me desmontou de um jeito que nenhuma declaração apaixonada teria conseguido.

— Então por que disse aquilo?

— Porque eu estava assustado.

— Você?

— Você tinha acabado de enterrar seu pai e me pediu casamento para destruir uma família rival.

Pela primeira vez em muitos dias, eu ri sem chorar.

Emiliano também sorriu.

— Eu achei que, se dissesse algo suficientemente definitivo, você perceberia o tamanho do que estava pedindo.

— E eu disse que não iria embora.

— Eu lembro.

— E agora?

Ele olhou para a fotografia do meu pai sobre a estante.

Depois voltou os olhos para mim.

— Agora eu quero saber se um dia você vai me pedir a mesma coisa sem precisar destruir ninguém.

Não respondi naquele momento.

Eu ainda estava de luto.

Ainda tinha caixas para abrir.

Ainda acordava esperando ouvir meu pai na cozinha.

Ainda sentia raiva quando encontrava alguma coisa relacionada ao casamento que eu tinha planejado durante três anos.

Emiliano não pressionou.

Continuou aparecendo.

Café.

Pão.

Reuniões.

Cemitério.

Dias ruins.

Dias menos ruins.

E nunca tentou transformar presença em dívida.

Algumas semanas depois, levei o Timex a um relojoeiro.

Ele examinou as peças e explicou que parte do mecanismo podia ser recuperada, o vidro precisava ser substituído e a pulseira carregaria sinais do dano mesmo depois do reparo.

— Vai ficar como antes? — perguntei.

Ele balançou a cabeça.

— Igual, não.

Pensei no que Emiliano tinha dito no hospital.

A gente não finge que não quebrou.

— Então faça o possível — respondi.

Quando recebi o relógio de volta, semanas depois, ele funcionava.

Havia uma pequena marca perto da lateral da caixa.

A pulseira também não fechava exatamente do mesmo jeito.

Eu poderia ter mandado trocar tudo.

Não quis.

Meu pai tinha usado aquele relógio durante vinte anos.

Depois Adrián o quebrara em menos de um minuto.

Apagar completamente a marca teria transformado reparo em mentira.

Guardei o Timex numa caixa pequena ao lado da foto do último almoço que tivemos juntos.

Meses se passaram antes que Emiliano voltasse a falar em casamento.

Na verdade, fui eu quem falou.

Estávamos saindo de uma reunião quando ele perguntou se eu queria jantar ou ir direto para casa.

— Emiliano.

— O quê?

— Case comigo.

Ele parou no meio do caminho.

Dessa vez não segurou meu pulso.

Não falou dos Guerra.

Não falou dos Fuentes.

Não falou de vingança.

— Por quê? — perguntou.

Eu já sabia a resposta.

— Porque quando eu pedi pela primeira vez, eu queria usar você como uma arma.

Ele continuou esperando.

— Agora eu quero você como marido.

O sorriso dele apareceu devagar.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Sem destruir ninguém?

— Sem destruir ninguém.

Ele se aproximou.

— Então sim.

Nosso casamento foi pequeno.

Minha mãe estava lá.

Algumas pessoas próximas estavam lá.

Não transformamos a união entre um Guerra e a filha de um homem ligado à antiga rivalidade com os Fuentes em espetáculo público.

Não precisávamos.

Antes de sair de casa naquele dia, abri a caixa do Timex.

Coloquei o relógio do meu pai no pulso.

A pulseira restaurada fechou com um pouco mais de resistência do que antigamente.

Fiquei olhando para o mostrador por alguns segundos.

Ele marcava as horas normalmente.

A cicatriz na lateral continuava ali.

Emiliano apareceu na porta e olhou para o relógio.

— Funcionando?

— Funcionando.

Ele não disse que estava novo.

Eu também não.

Saímos juntos.

Adrián tinha tentado usar aquele relógio para me fazer ajoelhar diante dos restos de uma vida que ele acreditava controlar.

No fim, o objeto não virou prova contra ele, nem troféu da minha vingança.

Voltou a ser aquilo que sempre deveria ter sido.

Uma lembrança do meu pai.

E, quando Emiliano estendeu a mão para mim antes de entrarmos no cartório, eu não precisei que ninguém decidisse por mim qual caminho seguir.

Olhei uma última vez para o Timex marcado no meu pulso.

Depois segurei a mão dele e entrei.

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