Quando Rodrigo apareceu na casa dos pais de Mariana e pediu o divórcio, ela acreditou que finalmente tinha ouvido a frase capaz de explicar os últimos meses.
Estava enganada.
O casamento acabar era doloroso, mas simples de entender.

O que Mariana ainda não entendia era por que Rodrigo começara a se afastar justamente depois de ter prometido, chorando ao lado de sua cama no hospital, que permaneceria com ela durante cada cirurgia.
Também não sabia por que ele recebia tantas ligações que silenciava quando ela se aproximava.
E, principalmente, não sabia por que Beatriz e Ernesto, os pais dele, haviam desaparecido quase ao mesmo tempo.
Diante dela, Rodrigo repetiu que queria o divórcio.
Mariana permaneceu sentada.
O curativo ainda puxava a pele do pescoço quando ela movia a cabeça, e o braço esquerdo continuava limitado pelas consequências das queimaduras.
Seu Jorge estava alguns passos atrás, perto da cozinha, mas não interferiu.
A decisão precisava ser da filha.
—Tudo bem —disse Mariana.
Rodrigo demorou alguns segundos para responder.
Parecia ter preparado argumentos para uma discussão que não aconteceu.
—Tudo bem?
—Você quer ir embora. Eu não vou obrigar ninguém a ficar.
Ele ajeitou o paletó.
—Então podemos resolver isso sem transformar tudo num espetáculo.
Mariana quase riu da escolha da palavra.
Durante quatro meses, fora ela quem tentara impedir que sua vida virasse um espetáculo.
Antes do incêndio, trabalhava diante de câmeras, maquiadores e vitrines de cosméticos.
Depois dele, aprendera a atravessar corredores cobrindo parte do rosto não porque tivesse vergonha das queimaduras, mas porque não suportava os olhares demorados de desconhecidos.
Rodrigo sabia disso.
Mesmo assim, agora falava como se Mariana estivesse prestes a expô-lo.
—Eu não quero espetáculo nenhum —respondeu. —Só quero que você seja claro.
—Estou sendo.
—Então por que mentiu sobre a viagem?
Rodrigo apertou os lábios.
Uma semana antes, havia fechado uma mala no apartamento e dito que viajaria para atender um cliente.
Agora aparecia sem mencionar cliente algum, apenas para terminar o casamento.
—As coisas mudaram.
—Em uma semana?
—Mariana, não dificulta.
Ela sentiu a velha necessidade de encontrar uma explicação para ele.
Talvez estivesse assustado.
Talvez não soubesse lidar com as cicatrizes.
Talvez o incêndio tivesse destruído alguma coisa dentro dele que ninguém conseguia enxergar.
Durante meses, Mariana fizera isso: criara justificativas para cada porta fechada, cada noite em outro quarto, cada abraço interrompido e cada ligação atendida longe dela.
Naquela tarde, decidiu não fazer mais o trabalho emocional que pertencia a Rodrigo.
—Eu não estou dificultando —disse. —Estou aceitando.
A resposta pareceu irritá-lo mais do que uma discussão teria irritado.
Rodrigo olhou para seu Jorge.
—Podemos conversar sozinhos?
—Não —disse Mariana.
Foi uma palavra curta.
E foi a primeira escolha verdadeiramente simples que ela fizera desde o incêndio.
Rodrigo respirou fundo.
—Certo. Depois eu mando o que precisa ser resolvido.
Ele se virou para sair.
Então o celular vibrou no bolso do paletó.
Mariana reconheceu imediatamente o gesto.
A mão de Rodrigo foi rápida demais.
Ele retirou o aparelho, olhou a tela e silenciou a chamada.
Era exatamente o que fazia havia semanas.
Só que, dessa vez, Mariana não perguntou quem estava ligando.
Rodrigo percebeu.
E talvez aquilo o tenha incomodado mais do que qualquer pergunta.
—Eu entro em contato —disse.
A porta se fechou atrás dele.
Seu Jorge esperou alguns segundos antes de se aproximar.
—Quer falar?
Mariana olhou para os próprios curativos.
—Não hoje.
—Então hoje você descansa.
Foi só isso.
Nenhum discurso.
Nenhuma tentativa de decidir por ela.
Sua mãe organizou os medicamentos na cozinha, seu Jorge colocou água perto da cama e Mariana passou aquela noite sem verificar o celular a cada poucos minutos.
Nos dias seguintes, começou a perceber algo que a rotina com Rodrigo havia escondido.
Na casa dos pais, ninguém desviava os olhos quando falava com ela.
Seu Jorge olhava diretamente para o rosto da filha quando perguntava se a dor havia aumentado.
A mãe ajudava nos curativos sem transformar as cicatrizes em tragédia.
Quando Mariana precisava descansar no meio de uma refeição, ninguém demonstrava impaciência.
A normalidade que ela tentara fabricar para Rodrigo estava ali sem esforço.
Era diferente.
Era cuidado.
Na terceira manhã depois do pedido de divórcio, Mariana acordou com uma ligação perdida.
Número desconhecido.
Não retornou.
Pouco depois, o mesmo número ligou novamente.
Ela deixou tocar.
Na terceira vez, atendeu.
—Alô?
Houve uma pausa breve do outro lado.
—Mariana Salgado?
—Sim.
—Meu nome não importa agora. Eu preciso saber se Rodrigo está com você.
Mariana sentiu o corpo ficar alerta.
—Não está.
Outra pausa.
—Então ele mentiu para mim também.
Mariana segurou o celular com mais força.
Durante meses, imaginara aquela possibilidade.
Outra mulher.
Uma vida paralela.
As viagens.
As ligações escondidas.
O distanciamento.
Tudo parecia conduzir à mesma conclusão.
Ainda assim, ela não respondeu imediatamente.
—Quem é você?
—Alguém que está tentando falar com ele há semanas.
A frase fez Mariana se sentar devagar.
—Você ligava para o celular dele?
—Quase todos os dias.
Mariana fechou os olhos.
Era a ligação.
Ou pelo menos uma delas.
—Por quê?
A pessoa do outro lado hesitou antes de responder.
—Porque Rodrigo me procurou primeiro.
Mariana sentiu uma pontada no braço ao mudar de posição.
Não sabia se queria ouvir o restante.
Mas também percebeu que, pela primeira vez, não precisava correr atrás de Rodrigo para descobrir alguma coisa.
A verdade estava chegando até ela.
—Continue.
A voz explicou que Rodrigo havia feito contato algumas semanas depois do incêndio.
No início, as conversas pareciam objetivas.
Ele dizia que precisava organizar mudanças pessoais, avaliar compromissos e resolver assuntos que não queria discutir enquanto Mariana ainda estava em tratamento.
Com o passar do tempo, porém, começou a fazer perguntas diferentes.
Perguntas sobre como se afastar sem assumir certas responsabilidades imediatamente.
Sobre quanto tempo poderia esperar.
Sobre como apresentar a separação à família.
E sobre como evitar parecer o homem que abandonara a esposa depois que ela ficara gravemente ferida salvando sua vida.
Mariana demorou a compreender.
—Você está dizendo que ele planejava sair há semanas?
—Estou dizendo que ele tinha medo de sair e as pessoas descobrirem o momento em que decidiu fazer isso.
A diferença era pequena nas palavras.
Mas enorme no significado.
Não eram as cicatrizes de Mariana que Rodrigo estava tentando esconder.
Era a própria escolha.
Mariana levantou os olhos para a janela.
Durante meses, interpretara cada gesto dele como vergonha do rosto dela.
Talvez parte daquele desconforto realmente existisse.
Rodrigo quase não a tocava mais.
Dormia longe.
E desviava os olhos em momentos que antes seriam íntimos.
Mas havia outra camada.
Ele não queria apenas distância.
Queria controlar a história da distância.
Queria que o fim parecesse inevitável, gradual, talvez até causado por uma relação que já estivesse destruída.
Qualquer coisa seria melhor para ele do que admitir a frase inteira:
Mariana entrou novamente numa casa em chamas, sofreu queimaduras no rosto, pescoço e braço enquanto o arrastava para fora, e quatro meses depois ele decidiu deixá-la durante a recuperação.
—Por que você está me contando isso? —perguntou Mariana.
—Porque ontem ele disse que você já sabia de tudo e estava de acordo.
Mariana ficou imóvel.
—Eu não sabia.
—Foi o que imaginei depois da forma como ele respondeu.
—O que ele disse?
—Que você estava emocionalmente instável desde o incêndio e que seria melhor ninguém falar diretamente com você.
Mariana apertou os dedos ao redor do celular.
Aquilo doeu de uma maneira inesperada.
Não porque fosse a pior coisa que Rodrigo já havia feito.
Mas porque reproduzia exatamente o mecanismo da noite em que ele partira.
Quando Mariana perguntou se havia outra pessoa, Rodrigo não respondeu.
Disse que ela estava imaginando coisas porque passava tempo demais trancada em casa.
Não negou.
Transformou a pergunta dela num problema dela.
Agora fazia o mesmo com terceiros.
Se Mariana questionasse, era instável.
Se sofresse, era consequência do trauma.
Se percebesse contradições, estava imaginando.
A ligação terminou sem uma grande revelação dramática.
Não havia uma amante confessando tudo.
Não havia uma conspiração mirabolante.
Havia algo mais comum e, para Mariana, mais cruel.
Rodrigo vinha preparando o próprio abandono enquanto ainda deixava que ela acreditasse que o casamento estava apenas atravessando uma fase difícil.
Ele estava administrando aparência.
Mariana ficou alguns minutos com o celular no colo.
Depois chamou seu Jorge.
Contou apenas o necessário.
O pai ouviu até o fim.
—E agora? —perguntou.
Mariana respirou devagar.
—Agora eu paro de tentar entender por que ele não conseguiu cumprir a promessa.
Seu Jorge não respondeu por ela.
Mariana continuou:
—Eu só preciso decidir o que faço com o fato de que ele escolheu não cumprir.
Nos dias seguintes, Rodrigo enviou mensagens curtas.
Perguntou quando ela poderia conversar.
Perguntou se os pais dela estavam colocando ideias em sua cabeça.
Perguntou por que ela havia parado de responder rapidamente.
Mariana percebeu a ironia.
Quando ela precisava dele, Rodrigo pedira distância.
Quando ela finalmente aceitara a distância, ele começou a exigir acesso.
Ela respondeu apenas ao indispensável.
Sem insultos.
Sem ameaças.
Sem tentar fazê-lo sentir a dor que ela sentira.
Rodrigo apareceu novamente poucos dias depois.
Dessa vez, não entrou com a segurança de quem já conhecia o desfecho.
—Você falou com alguém? —perguntou.
Mariana estava sentada à mesa da cozinha.
Diante dela havia uma xícara de café e os medicamentos que tomaria depois.
—Com várias pessoas. Estou morando com meus pais.
—Você sabe do que estou falando.
Mariana sustentou o olhar.
—Sei.
Rodrigo puxou uma cadeira.
—As coisas não são como parecem.
Ela quase respondeu que aquela era justamente a frase que esperava ouvir.
Mas deixou que ele continuasse.
—Eu estava tentando organizar tudo para não piorar sua recuperação.
—Organizar o quê?
—A nossa situação.
—Chamando terceiros antes de falar comigo?
Rodrigo passou a mão no rosto.
—Você tinha acabado de passar por cirurgias. Eu não podia jogar tudo em cima de você.
—Mas podia fazer uma mala poucos dias depois de uma cirurgia de sete horas e me mandar ligar para os meus pais.
Ele não respondeu.
Mariana esperou.
Durante o casamento, muitas conversas haviam sido encerradas porque ela se apressava em preencher os silêncios de Rodrigo.
Dessa vez, não preencheu.
—Eu estava sufocado —disse ele finalmente.
—Por mim?
—Por tudo.
—Inclusive pelo meu rosto?
Rodrigo desviou os olhos.
Foi um gesto pequeno.
Mariana já conhecia a resposta antes de ele falar.
—Eu não sabia lidar com isso.
A frase veio baixa.
Sem agressividade.
Sem coragem suficiente para ser completa.
Mariana assentiu.
Doía.
Mas era uma dor diferente daquela produzida pela dúvida.
A dúvida fazia Mariana procurar defeitos em si mesma.
A resposta colocava a escolha de volta em quem a fizera.
—Eu também não sabia lidar —disse ela. —Eu acordei sem saber como meu rosto ficaria, sem saber quantas cirurgias ainda teria, sem conseguir mexer o braço direito como antes e sem saber se voltaria a trabalhar do mesmo jeito.
Rodrigo abaixou a cabeça.
—Eu sei.
—Não. Você viu. Saber seria outra coisa.
Ele levantou os olhos.
Mariana não estava gritando.
Isso pareceu deixá-lo ainda mais desconfortável.
—Você quer que eu diga que sou uma pessoa horrível?
—Não.
—Então o que você quer?
—Que pare de me explicar como se tudo tivesse acontecido com você.
Rodrigo ficou quieto.
Mariana apontou para o próprio braço enfaixado.
—Eu entrei naquela casa porque você estava lá dentro. Não estou cobrando uma dívida pela sua vida. Eu faria novamente porque naquela noite essa foi a minha escolha. Mas você não pode usar o que aconteceu comigo para justificar as escolhas que fez depois.
Ele tentou interromper.
—Mariana…
—Você podia ter dito que não conseguia continuar. Podia ter sido cruel e verdadeiro. Em vez disso, prometeu ficar, começou a desaparecer, deixou que eu pensasse que estava enlouquecendo e preparou uma versão em que o problema seria a minha reação.
Rodrigo olhou para a porta.
Talvez esperasse que seu Jorge entrasse.
Ninguém entrou.
A conversa continuava pertencendo a Mariana.
—Não existe outra pessoa do jeito que você pensa —disse Rodrigo.
Ela percebeu que meses antes essa frase teria sido suficiente para fazê-la recomeçar toda a esperança.
Agora não era.
—Eu nem perguntei.
Rodrigo pareceu surpreso.
E aquela reação confirmou algo importante.
Durante semanas, Mariana se concentrara na identidade de quem ligava.
Pensara que descobrir uma amante explicaria tudo.
Mas o verdadeiro problema nunca fora apenas quem estava do outro lado do telefone.
Era o que Rodrigo fazia quando o aparelho tocava.
Escondia.
Silenciava.
Decidia sozinho.
Depois dizia que Mariana estava imaginando coisas.
A verdade maior não estava numa pessoa misteriosa.
Estava no comportamento repetido.
—Eu vou aceitar o divórcio —disse Mariana.
Rodrigo permaneceu parado.
—Mas não vou aceitar a história que você preparou para justificar isso.
—Que história?
—A de que eu fiquei instável, difícil ou impossível depois do incêndio e você precisou escapar.
Ele se levantou.
—Eu nunca disse isso.
—Disse sobre mim para alguém que você acreditou que nunca falaria comigo.
Rodrigo abriu a boca, mas não respondeu.
Era a primeira vez em meses que Mariana via uma contradição chegar até ele sem precisar provar coisa alguma além do que já sabia.
Ele caminhou até a porta.
Antes de sair, olhou novamente para ela.
Dessa vez, porém, Mariana não tentou encontrar no rosto dele o homem que chorara no hospital.
Aquele homem existira naquele momento.
Talvez tivesse acreditado sinceramente na promessa enquanto a fazia.
Isso não tornava menos reais as escolhas que vieram depois.
Rodrigo saiu.
E Mariana não correu atrás.
As semanas seguintes foram ocupadas por coisas muito menos dramáticas e muito mais difíceis.
Consultas.
Trocas de curativo.
Exercícios para recuperar movimento.
Noites em que a pele parecia apertar mais do que no dia anterior.
Dias em que Mariana evitava o espelho.
Outros em que parava diante dele por vários minutos.
Ela não recuperou de repente a confiança que tinha antes do incêndio.
Também não transformou as cicatrizes em uma lição bonita apenas para suportá-las.
Havia manhãs ruins.
Havia raiva.
Havia cansaço.
Havia perguntas sobre trabalho e sobre como seria voltar a um ambiente em que sua aparência sempre tivera importância profissional.
Mas uma coisa mudou rapidamente.
Mariana parou de medir a própria recuperação pela capacidade de Rodrigo de olhar para ela.
Antes, cada reação dele funcionava como um espelho.
Se Rodrigo desviava os olhos, ela se sentia deformada.
Se recusava um abraço, ela se sentia indesejável.
Se dormia longe, Mariana imaginava que nunca mais seria tocada com carinho.
Na casa dos pais, começou lentamente a separar uma coisa da outra.
A limitação de Rodrigo não era uma avaliação objetiva sobre o valor dela.
Era a limitação de Rodrigo.
Algum tempo depois, Beatriz, mãe dele, procurou Mariana.
A visita era inesperada.
Mariana quase recusou.
Mas aceitou conversar por alguns minutos.
Beatriz entrou desconfortável.
Não conseguiu esconder o choque ao ver de perto os curativos e as marcas que ainda estavam em processo de recuperação.
Mariana percebeu o movimento dos olhos.
Antes teria fingido não notar.
Dessa vez, esperou.
Beatriz abaixou a cabeça.
—Eu devia ter vindo antes.
—Devia.
A resposta direta pareceu surpreendê-la.
—Rodrigo dizia que você não queria visitas.
Mariana sentiu o estômago apertar.
—Ele dizia isso?
—Depois do primeiro mês. Dizia que você estava muito sensível, que preferia ficar sozinha e que ver pessoas conhecidas deixava você pior.
Outra peça encontrou seu lugar.
Mariana se lembrou de quantas vezes perguntara por Beatriz e Ernesto.
Rodrigo sempre dizia que estavam ocupados, assustados ou tentando respeitar o espaço dela.
Enquanto isso, aparentemente dizia aos pais que a distância era uma exigência de Mariana.
—Eu nunca pedi para vocês pararem de visitar —disse.
Beatriz cobriu a boca por um instante.
—Meu Deus.
Mariana não sentiu prazer naquela descoberta.
Também não a transformou imediatamente em reconciliação.
Beatriz e Ernesto poderiam ter telefonado diretamente.
Poderiam ter perguntado.
Tinham escolhido aceitar a versão mais confortável.
Isso também tinha consequência.
—Por que você acreditou nele? —perguntou Mariana.
Beatriz demorou a responder.
—Porque era mais fácil.
A sinceridade inesperada fez Mariana permanecer em silêncio.
—Era mais fácil pensar que você queria ficar sozinha do que admitir que eu não sabia como entrar naquele quarto e olhar para você depois do que aconteceu —continuou Beatriz. —E isso foi covardia minha.
Mariana sentiu os olhos arderem.
Não porque a frase reparasse tudo.
Não reparava.
Mas era a primeira vez que alguém daquela família colocava a responsabilidade no lugar certo sem usar a recuperação dela como desculpa.
—Eu não consigo fingir que não doeu —disse Mariana.
—Eu sei.
—E não sei se quero proximidade agora.
Beatriz assentiu.
—Você decide.
Aquilo bastou para aquele dia.
Não houve abraço cinematográfico.
Beatriz foi embora depois de alguns minutos.
A relação entre elas não voltou ao que era antes.
Talvez nunca voltasse.
Mas Mariana ganhou outra confirmação sobre os meses anteriores.
Rodrigo não havia simplesmente se afastado.
Pouco a pouco, controlara os caminhos pelos quais outras pessoas poderiam chegar até ela.
Dizia a Mariana que os pais dele não apareciam porque estavam ocupados.
Dizia aos pais que Mariana não queria vê-los.
Dizia a terceiros que ela estava emocionalmente instável.
E mantinha as conversas importantes atrás de portas fechadas.
O incêndio destruíra parte do apartamento.
Depois, sem que Mariana percebesse, o silêncio começara a destruir as pontes ao redor dela.
Quando entendeu isso, ela tomou uma decisão prática.
Passou a tratar diretamente dos assuntos que diziam respeito à própria vida.
Não permitiria que Rodrigo fosse novamente intermediário entre ela e pessoas que precisavam falar com ela.
Também deixou claro que qualquer questão relativa à separação deveria ser tratada de forma objetiva, sem encontros improvisados em que ele pudesse transformar a conversa numa disputa sobre memória ou culpa.
Rodrigo resistiu no início.
Mandou mensagens dizendo que Mariana estava tornando tudo frio demais.
Ela não respondeu a essa parte.
Respondeu apenas ao que precisava ser resolvido.
Era estranho descobrir que limites podiam parecer crueldade para alguém acostumado a decidir quando se aproximar e quando desaparecer.
Meses se passaram.
Mariana fez outra cirurgia.
Na manhã do procedimento, acordou antes dos pais.
Sentou-se na cozinha e olhou para a pequena bolsa em que sua mãe havia colocado documentos, medicamentos autorizados e alguns objetos pessoais.
Por um instante, lembrou-se da mala de Rodrigo fechando no apartamento.
O mesmo tipo de objeto carregava agora um significado completamente diferente.
Naquela tarde, quatro meses depois do incêndio, Rodrigo arrumara uma mala para sair.
Mariana interpretara aquilo como abandono e permanecera parada diante de dois pratos servidos, tentando descobrir o que poderia fazer para impedir que ele fosse embora.
Agora era Mariana quem segurava uma bolsa pronta.
Mas ela não estava fugindo.
Estava indo cuidar de si.
Seu Jorge apareceu na porta da cozinha.
—Preparada?
Mariana pensou por alguns segundos.
—Não completamente.
O pai assentiu.
—Então vamos assim mesmo.
Ela sorriu de leve.
Não porque tudo tivesse ficado fácil.
Mas porque ninguém exigia que ela fingisse estar pronta para merecer companhia.
A cirurgia foi mais uma etapa de um processo longo.
Quando Mariana voltou para casa, os dias difíceis continuaram existindo.
Ela ainda precisava reaprender movimentos.
Ainda havia partes do próprio reflexo que não reconhecia imediatamente.
Ainda existiam momentos em que lembrava de Rodrigo antes do incêndio e sentia falta daquela versão da vida.
Mas já não confundia saudade com obrigação de voltar.
Certa tarde, enquanto organizava algumas coisas que haviam sido retiradas do antigo apartamento, encontrou uma fotografia de um ensaio feito pouco depois de conhecer Rodrigo.
Na foto, Mariana tinha o rosto intacto, maquiagem profissional e a expressão segura de alguém acostumada a ser observada.
Ficou olhando por alguns segundos.
Sua mãe, que passava pela sala, perguntou:
—Quer guardar?
Mariana virou a fotografia nas mãos.
Meses antes, talvez tivesse rasgado.
Ou escondido.
A imagem parecia representar tudo o que ela acreditava ter perdido.
Naquele dia, porém, colocou a fotografia dentro de uma caixa com outros objetos.
—Quero.
Não precisava destruir a mulher que existira antes para aceitar a mulher que existia agora.
As duas eram Mariana.
A que trabalhava diante de câmeras.
A que entrou numa casa em chamas.
A que acordou coberta por curativos.
A que implorou silenciosamente por normalidade ao preparar a comida preferida do marido com uma só mão.
E a que, finalmente, ouviu um pedido de divórcio sem implorar para ser escolhida.
Algum tempo depois, Rodrigo tentou conversar uma última vez sobre a relação.
Disse que talvez tivesse tomado decisões durante um período de choque.
Disse que não se orgulhava da forma como agira.
Mariana ouviu.
Não precisava transformá-lo num monstro para reconhecer que ele a machucara.
Também não precisava transformar arrependimento em reconciliação.
—Eu realmente fui grato pelo que você fez naquela noite —disse Rodrigo.
—Eu acredito.
Ele pareceu não esperar a resposta.
—Acredita?
—Acredito que você estava sendo sincero quando chorou no hospital. E acredito que depois você fez escolhas que contradisseram aquela promessa.
Rodrigo abaixou os olhos.
—Eu não consegui lidar.
—Eu sei.
Dessa vez, a frase não era absolvição.
Era encerramento.
Mariana não precisava mais discutir com a incapacidade dele.
O divórcio seguiu adiante.
A vida também.
Não houve uma vingança pública, uma exposição espetacular ou um momento em que todos ao redor de Rodrigo se voltaram contra ele.
Houve consequências menores e mais concretas.
Beatriz passou a falar diretamente com Mariana quando precisava dizer alguma coisa, embora a relação permanecesse distante.
Seu Jorge continuou acompanhando a filha quando ela queria companhia e ficando fora da sala quando ela queria decidir sozinha.
A mãe de Mariana deixou de organizar os remédios aos poucos, conforme Mariana recuperava autonomia suficiente para fazer isso sem ajuda.
E Mariana começou a reconstruir uma rotina que não girava em torno da pergunta que a perseguira naquela noite diante da mala:
“Se você não consegue nem olhar para o meu rosto, por que ainda me chama de sua esposa?”
A resposta final não veio de Rodrigo.
Veio da mudança da própria pergunta.
Mariana deixou de perguntar por que ele ainda a chamava de esposa.
Começou a decidir quem teria o direito de permanecer perto dela.
Meses mais tarde, antes de uma consulta, seu Jorge colocou sobre a mesa a mesma sacola simples que pegara na noite em que encontrou os dois pratos intactos no apartamento.
Durante semanas, ela servira para carregar medicamentos, gaze e pequenas coisas de que Mariana precisava quando ainda dependia dos pais para quase tudo.
—Isso ainda está aqui? —perguntou Mariana.
Seu Jorge riu.
—Você nunca devolveu.
Ela abriu a sacola.
Havia apenas um pacote pequeno de curativos e uma garrafa de água.
Muito menos do que antes.
Mariana pegou os dois objetos e colocou na própria bolsa.
Depois dobrou a sacola vazia e entregou ao pai.
—Agora devolvi.
Seu Jorge recebeu a sacola sem dizer nada especial.
Não precisava.
Na primeira noite, ele a havia pegado para tirar a filha de uma casa onde ela permanecia esperando alguém voltar.
Agora Mariana a devolvia porque já conseguia sair por conta própria.
Ela colocou a bolsa no ombro, abriu a porta e chamou o pai.
—Vamos?
Dessa vez, foi Mariana quem saiu primeiro.