No Casamento Da Filha, Eugenio Ouviu O Plano Para Tirar Sua Vida-dieuphuong

Eugenio Barrera manteve o celular escondido sob a manta e apertou o botão de gravar sem fazer o menor movimento que pudesse denunciar sua presença no banco de trás.

Do lado de fora, através da janela entreaberta do apartamento, a voz de Rodrigo Navarro continuava chegando até ele com uma tranquilidade que tornava tudo ainda mais difícil de aceitar.

— O sinal já foi pago.

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A frase ficou registrada.

Eugenio sentiu os dedos endurecerem ao redor do telefone, mas não interrompeu a gravação.

Tomás permanecia no banco do motorista, olhando para a frente, como se estivesse apenas esperando um passageiro terminar uma visita qualquer.

Havia trabalhado para a família durante vinte e seis anos e conhecia Eugenio o bastante para perceber, pela respiração presa atrás dele, que seu patrão estava a segundos de abrir a porta, subir aquelas escadas e enfrentar Rodrigo com as próprias mãos.

Tomás estendeu o braço discretamente para trás e tocou a manta.

Foi um aviso simples.

Ainda não.

Eugenio fechou os olhos por um instante.

Faltavam poucas horas para Mariana se casar com aquele homem.

Naquela manhã, ele havia acordado imaginando se conseguiria entrar na cerimônia sem pensar em Lucía, sua esposa, que deveria estar ao seu lado para acompanhar a única filha até aquele momento.

Agora, a ausência de Lucía parecia quase secundária diante do que acabara de ouvir.

Rodrigo não estava apenas enganando Mariana.

Mantinha outra mulher, Verónica, e uma filha de quatro anos que o chamava de pai.

Devia quarenta milhões de pesos a Baltasar Cárdenas por causa de um cassino que havia afundado.

Pretendia usar o casamento para chegar ao dinheiro dos Barrera.

E, três meses depois, Eugenio deveria sofrer um acidente que já tinha até um pagamento inicial.

Durante alguns segundos, Eugenio tentou convencer a si mesmo de que poderia ter interpretado alguma coisa de maneira errada.

Talvez Rodrigo estivesse falando de outra pessoa.

Talvez houvesse uma explicação absurda, mas possível.

Então a voz de Verónica voltou a atravessar a janela.

— Você está falando do pai da Mariana.

Não foi uma pergunta.

Rodrigo respondeu num tom baixo, impaciente.

— Se ele continuar no caminho, eu nunca vou ter acesso ao que preciso.

Eugenio abriu os olhos.

A última possibilidade de dúvida desapareceu.

Tomás esperou mais alguns minutos antes de ligar o motor e sair devagar daquela rua.

Nenhum dos dois falou até que o prédio ficasse distante.

Quando finalmente pararam em uma rua mais movimentada, Eugenio afastou a manta e se sentou.

Seu rosto estava pálido.

— Há quanto tempo você sabe disso?

Tomás continuou segurando o volante.

— Não sabia de tudo.

— Mas sabia de alguma coisa.

— Sabia que ele estava escondendo uma família.

Eugenio virou lentamente para o motorista.

Tomás explicou que começara a desconfiar semanas antes, quando Rodrigo pedira algumas vezes para ser deixado longe da casa dos Barrera e insistira para que ninguém comentasse os trajetos com Mariana.

A princípio, Tomás não pensou em traição.

Depois o viu entrar naquele mesmo prédio.

Em outra ocasião, reconheceu Rodrigo andando de mãos dadas com a menina que acabara de aparecer no corredor.

Tomás poderia ter contado tudo imediatamente a Eugenio, mas queria ter certeza de que não estava destruindo o casamento de Mariana por causa de uma interpretação errada.

Naquela manhã, soubera que Rodrigo passaria pelo apartamento antes da cerimônia.

Por isso chegara quarenta minutos mais cedo.

Por isso obrigara Eugenio a se esconder.

— E por que não me contou antes de eu entrar no carro? — perguntou Eugenio.

Tomás demorou a responder.

— Porque o senhor teria ido direto falar com sua filha.

Eugenio não negou.

— E isso seria errado?

— Depois do que ouvimos, seria perigoso chegar até ele sem saber quem mais está envolvido.

Eugenio olhou para o celular.

A gravação continuava aberta na tela.

Ali estavam a dívida, o nome de Baltasar, a referência ao acidente e a confirmação de que um sinal já havia sido pago.

Também estavam as palavras de Rodrigo sobre Mariana e sobre o dinheiro da família.

Mas havia outra coisa que doía mais do que qualquer número.

A voz de Rodrigo mudava completamente dependendo de quem estava ouvindo.

Quando Mariana ligara, ele parecera o noivo apaixonado que Eugenio conhecia havia quase dois anos.

Quando falara com Verónica, revelara um homem que calculava prazos, dívidas e riscos.

Eugenio lembrou da primeira vez que Rodrigo aparecera para jantar com a família.

Ele havia chegado com flores para Mariana e um pequeno presente para Eugenio, um livro sobre transporte marítimo que demonstrava ter pesquisado os interesses do futuro sogro.

Parecera educado sem ser exagerado.

Ambicioso, mas não arrogante.

Depois da morte de Lucía, Mariana se aproximara ainda mais do pai, e Eugenio temera que nenhum homem fosse bem recebido por ele simplesmente porque significaria aceitar que a filha começava a construir uma vida longe da casa onde crescera.

Rodrigo soubera contornar essa resistência.

Nunca pressionara Eugenio.

Nunca pedira diretamente participação nos negócios.

Quando falava sobre trabalho, fazia questão de dizer que queria crescer por mérito próprio.

Agora Eugenio percebia que aquela paciência talvez nunca tivesse sido humildade.

Talvez fosse estratégia.

— Vamos voltar para casa — disse Eugenio.

Tomás olhou pelo retrovisor.

— E o casamento?

A pergunta atingiu Eugenio de maneira inesperada.

Durante todo o tempo em que estivera escondido sob a manta, ele havia imaginado apenas uma reação possível: impedir a cerimônia.

Entrar no local, colocar a gravação diante de todos e acabar com aquilo antes que Mariana dissesse qualquer promessa.

Mas, quando pensou na filha vestida de noiva, cercada de pessoas, esperando pelo homem que acreditava amar, percebeu que uma exposição pública poderia destruí-la de outra maneira.

Mariana não precisava descobrir a verdade diante de convidados.

Precisava descobrir de forma que ainda pudesse escolher o que fazer depois.

— A cerimônia não começa sem mim — respondeu Eugenio. — E ele ainda não sabe que eu ouvi tudo.

Tomás assentiu.

Na casa, a movimentação já era intensa.

Funcionários entravam e saíam, caixas eram carregadas, roupas estavam sendo ajustadas e telefones tocavam sem descanso.

Eugenio entrou por uma porta lateral e foi diretamente para o escritório.

Antes de qualquer outra coisa, fez uma cópia da gravação.

Depois ouviu o início usando fones de ouvido.

A voz de Rodrigo estava clara.

Também estava clara a parte em que ele falava dos três meses.

Quarenta milhões.

Acesso às contas.

Um acidente.

O sinal pago.

Eugenio parou o áudio antes do fim.

Não conseguia escutar tudo outra vez.

Uma batida surgiu na porta.

Ele escondeu o celular no bolso e respondeu.

Era Mariana.

Ainda não estava com o vestido completo, mas o cabelo já havia sido preparado e pequenas presilhas brilhavam entre os fios.

Ela entrou sorrindo.

— Pai, onde você estava?

Eugenio sentiu a garganta apertar.

Mariana se aproximou.

— Tomás disse que vocês precisavam resolver uma coisa.

Por um instante, ele quase contou tudo.

Bastava tirar o telefone do bolso.

Bastava dizer o nome de Rodrigo.

Bastava apertar o botão de reproduzir.

Mas então Mariana segurou a mão dele.

— Você está estranho desde cedo.

— Hoje é um dia grande.

— Está pensando na mamãe?

Eugenio baixou os olhos para o relógio que Lucía lhe dera no vigésimo aniversário de casamento.

— Estou.

Mariana abraçou o pai.

— Eu também.

Aquilo tornou a decisão ainda mais difícil.

Eugenio havia prometido a Lucía, muitas vezes, que nunca transformaria a proteção da filha em controle.

Mariana já era adulta.

O casamento era dela.

A decisão também precisaria ser dela.

Mas uma decisão só era livre quando a pessoa conhecia a verdade.

— Mariana — começou ele.

Ela afastou o rosto do ombro do pai.

Antes que Eugenio continuasse, o celular dela tocou.

O nome de Rodrigo apareceu na tela.

Mariana sorriu automaticamente.

— É ele.

Eugenio observou enquanto a filha atendia.

— Oi, amor.

A mesma voz doce que Eugenio ouvira dentro do carro voltou pelo telefone, abafada pela distância.

Rodrigo perguntou se estava tudo bem e disse que mal podia esperar para vê-la.

Mariana riu.

Eugenio ficou imóvel.

Menos de duas horas antes, aquele mesmo homem dissera a outra mulher para suportar mais um ano porque Mariana não perceberia nada.

Quando a ligação terminou, Mariana guardou o telefone.

— Você ia me dizer alguma coisa.

Eugenio respirou fundo.

— Ia dizer que quero conversar com você antes da cerimônia.

O sorriso dela diminuiu.

— Sobre o quê?

— Sobre Rodrigo.

Mariana ficou séria.

— Pai…

— Não estou pedindo para você acreditar em mim sem ouvir.

Ela franziu a testa.

— Ouvir o quê?

Uma das pessoas responsáveis pelos preparativos apareceu à porta e avisou que Mariana precisava terminar de se arrumar imediatamente para não comprometer o horário.

Mariana olhou para o pai.

— Podemos falar quando chegarmos?

Eugenio percebeu que aquele não era o lugar certo para reproduzir a gravação.

Havia pessoas passando pelo corredor, portas abertas e uma casa inteira concentrada no casamento.

— Podemos.

Ela saiu.

Tomás apareceu pouco depois.

— Contou para ela?

— Ainda não.

— Por quê?

Eugenio encarou o velho motorista.

— Porque quero que ela escute sem ter vinte pessoas entrando no quarto enquanto descobre que o homem com quem vai se casar tem outra filha e pretende matar o pai dela.

Tomás não discutiu.

Quando chegou a hora de sair, Eugenio entrou novamente no sedã preto.

Desta vez, sentou-se normalmente no banco traseiro.

A manta estava dobrada ao lado dele.

Eugenio olhou para aquele objeto simples e sentiu uma estranha repulsa.

Horas antes, havia se sentido ridículo escondido ali embaixo.

Agora sabia que aqueles poucos minutos haviam mudado tudo.

No trajeto, ele ouviu mais uma vez alguns trechos da gravação.

Não queria chegar à cerimônia movido apenas pelo choque.

Precisava separar o que sabia do que suspeitava.

Sabia que Rodrigo tinha uma filha com Verónica.

Sabia que Mariana não tinha conhecimento daquela relação.

Sabia da dívida de quarenta milhões de pesos.

Sabia que Rodrigo pretendia obter acesso ao patrimônio depois do casamento.

E sabia que havia falado claramente sobre um acidente planejado para Eugenio.

O restante ainda precisava ser entendido.

Quem era Baltasar Cárdenas de fato?

Que tipo de acordo existia entre os dois?

O que significava exatamente o sinal já pago?

Eugenio não tinha resposta para essas perguntas.

Por isso decidiu não transformá-las em certezas diante da filha.

O que já estava gravado era suficientemente grave.

Quando chegaram ao local da cerimônia, os primeiros convidados já ocupavam seus lugares.

Eugenio viu parentes, antigos amigos e pessoas ligadas aos negócios da família.

Todos sorriam para ele.

Alguns apertavam sua mão e diziam que Lucía estaria orgulhosa de Mariana.

Ele agradecia quase mecanicamente.

Rodrigo ainda não estava diante dele.

Tomás aproximou-se discretamente.

— Ele chegou por outra entrada.

Eugenio assentiu.

— Não fique longe.

— Não vou ficar.

Poucos minutos depois, Rodrigo apareceu.

Estava impecável.

Ao ver Eugenio, abriu um sorriso e caminhou em sua direção.

— Seu Eugenio.

Estendeu os braços e o abraçou.

Eugenio precisou controlar cada músculo do corpo para não reagir.

— Grande dia — disse Rodrigo.

— Muito grande.

Rodrigo se afastou.

— Eu queria agradecer por tudo. Sei o quanto Mariana significa para o senhor.

Eugenio sustentou o olhar dele.

— Significa tudo.

Rodrigo pareceu não notar a diferença no tom.

— Vou cuidar dela.

A frase quase fez Eugenio perder o controle.

Mas ele apenas colocou uma mão no bolso, sentindo o contorno do celular onde a gravação estava salva.

— Espero que você se lembre dessas palavras — respondeu.

Rodrigo sorriu.

— Todos os dias.

Então foi chamado por alguém e se afastou.

Eugenio ficou observando enquanto o futuro genro cumprimentava convidados, ajeitava o paletó e se comportava como alguém que não tinha nada a esconder.

A capacidade de Rodrigo de alternar entre aquelas versões de si mesmo assustava mais do que a raiva teria assustado.

Ele parecia perfeitamente à vontade.

Como se acreditasse que o plano estava protegido.

Como se Eugenio fosse apenas uma etapa futura de um problema que seria resolvido três meses depois.

Tomás se aproximou novamente.

— O senhor quer que eu faça alguma coisa?

Eugenio balançou a cabeça.

— Quero que você faça exatamente o que fez esta manhã.

— O quê?

— Fique perto e não se precipite.

A música começou a mudar.

Os convidados tomaram seus lugares.

Alguém avisou que Mariana estava pronta.

Eugenio sentiu um peso no peito.

Durante anos imaginara aquele momento de uma forma completamente diferente.

Pensara em Lucía.

Pensara na filha nervosa.

Pensara em talvez precisar conter as próprias lágrimas.

Nunca imaginara que estaria carregando no bolso uma gravação em que o noivo planejava usar o casamento como caminho para alcançar a fortuna da família e preparar sua morte.

Quando Mariana surgiu, Eugenio esqueceu Rodrigo por alguns segundos.

Ela estava emocionada.

Os olhos brilhavam e o sorriso tremia levemente.

Ao chegar perto do pai, segurou seu braço.

— Você está bem?

Eugenio olhou para ela.

Era a pergunta que ele gostaria de poder responder com simplicidade.

— Mariana, antes de irmos…

Ela percebeu a seriedade dele.

— Pai, você está me assustando.

Eugenio colocou a mão no bolso.

O telefone estava ali.

Ele poderia interromper tudo naquele segundo.

Poderia reproduzir o áudio.

Poderia mostrar à filha que o homem que a esperava do outro lado escondia uma vida inteira dela.

Mas olhou ao redor.

Convidados aguardavam.

Pessoas observavam a entrada.

Rodrigo estava a poucos metros de distância.

Eugenio não queria que Mariana ouvisse a pior notícia de sua vida sob o olhar de uma plateia.

Ele se inclinou em direção à filha.

— Preciso que você confie em mim por alguns minutos.

Mariana ficou ainda mais tensa.

— O que aconteceu?

— Você vai ouvir com seus próprios ouvidos.

Ela olhou na direção de Rodrigo.

— É sobre ele?

Eugenio não respondeu imediatamente.

O silêncio foi suficiente.

Mariana soltou lentamente o braço do pai.

— O que Rodrigo fez?

— Não quero contar pela metade.

— Pai, meu casamento está começando.

— Eu sei.

— Então fala.

Eugenio retirou o telefone do bolso.

Na tela estava o arquivo de áudio gravado naquela manhã.

Mariana olhou para o aparelho e depois para o pai.

— O que é isso?

Eugenio pensou na voz de Rodrigo dizendo que seriam três meses depois do casamento.

Pensou nos quarenta milhões de pesos.

Pensou na menina de quatro anos correndo pelo corredor e gritando “Papai”.

Pensou em Verónica perguntando como explicaria à filha que o pai estava se casando com outra mulher.

E, sobretudo, pensou na frase que havia mudado toda aquela manhã.

O sinal já foi pago.

Ele não permitiria que Mariana desse um passo sem conhecer aquilo.

Mas também não entregaria a Rodrigo a vantagem de saber, cedo demais, tudo o que ele tinha escutado.

Eugenio fechou a tela por um instante e segurou as mãos da filha.

— Mariana, eu não vou decidir sua vida por você.

Ela respirou rapidamente, tentando entender.

— Mas existe uma coisa que você precisa ouvir antes de decidir se ainda quer atravessar essa porta.

A música continuava tocando do outro lado.

Rodrigo esperava.

Os convidados também.

Tomás permanecia alguns passos atrás, atento, sem interferir.

Mariana olhou novamente para o celular.

— Então me deixa ouvir.

Eugenio desbloqueou a tela.

Seu polegar parou sobre o arquivo.

A gravação começava com ruídos do carro e, poucos segundos depois, com a voz do homem que Mariana acreditava estar prestes a transformar em marido.

Eugenio respirou fundo.

Naquela manhã, escondido sob uma manta, ele havia acreditado que sua única tarefa seria sobreviver ao que descobrira.

Agora entendia que havia uma decisão ainda mais urgente.

Precisava entregar a verdade à filha sem destruir a possibilidade de ela escolher por si mesma.

E, enquanto todos aguardavam o início da cerimônia, Eugenio apertou o botão para reproduzir o áudio.

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