Ela Humilhou o Herdeiro da Máfia e Recebeu um Contrato Impossível-dieuphuong

O envelope continha um contrato de seis meses, uma quantia de entrada grande o bastante para fazer Sienna reler o primeiro número três vezes e uma descrição de trabalho que parecia ter sido escrita por alguém que não sabia onde terminava um emprego e começava um sequestro.

Ela deveria acompanhar Dawson Moretti em eventos, reuniões privadas e compromissos familiares, permanecer disponível sempre que Vittorio considerasse necessário e, acima de tudo, impedir que o filho dele repetisse em público o tipo de explosão que havia destruído metade da área VIP do Onyx Lounge.

Sienna levantou os olhos do papel.

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— O senhor está me oferecendo dinheiro para ser babá de um homem de vinte e sete anos?

Vittorio apoiou as duas mãos sobre a bengala de cabeça prateada.

— Estou oferecendo dinheiro para que continue fazendo o que fez ontem.

— Jogar água gelada nele?

— Se for preciso.

Sienna soltou uma risada curta, mais de incredulidade do que de humor, e empurrou o contrato de volta pela mesa.

— Seu filho pode contratar um terapeuta.

— Já contratou vários.

— Então contrate outro.

Vittorio não tocou no envelope.

— Ontem à noite, Dawson voltou para casa, tomou banho, bebeu água e dormiu durante sete horas.

Sienna esperou o restante.

— E?

— Meu filho não dormia sete horas seguidas havia quase um ano.

Aquilo diminuiu por um instante a vontade dela de rir, mas não o suficiente para fazê-la esquecer quem estava sentado dentro de seu apartamento à meia-noite.

Ela tornou a olhar o contrato e encontrou, presa à última página, uma credencial preta com seu nome gravado e um número pequeno na parte inferior.

Era o passe que lhe permitiria entrar no edifício dos Moretti sem precisar ser anunciada.

Vittorio percebeu onde ela estava olhando.

— Toda porta precisa saber quem está autorizado a abri-la.

A frase ficou com Sienna mais tempo do que deveria.

Ela cruzou os braços.

— E se Dawson resolver me jogar pela janela quando eu mandar que ele sente e cale a boca de novo?

— O contrato permite que a senhorita vá embora imediatamente se ele ameaçá-la fisicamente.

— Que generoso.

— A senhorita não parece uma mulher facilmente intimidada.

Sienna olhou para a pilha de contas atrasadas sobre a bancada, depois para a mancha de umidade perto da janela e, por fim, para o número escrito no contrato.

Era dinheiro suficiente para tirar sua vida do modo de emergência em que funcionava havia meses.

Mas foi outra coisa que a fez pegar a caneta.

No rodapé da página havia uma cláusula acrescentada à mão: Dawson não poderia ordenar que ela bebesse, carregasse armas, mentisse para autoridades ou participasse de qualquer atividade criminosa.

Sienna apontou para a linha.

— Foi o senhor que colocou isso?

— Meu filho.

Ela ergueu os olhos.

Vittorio manteve a expressão imóvel.

— Ele disse que, se a senhorita aceitasse, não queria que confundisse o emprego com o resto da família.

Pela primeira vez desde que os três homens bateram à sua porta, Sienna não soube exatamente o que responder.

Assinou.

Na manhã seguinte, descobriu que Dawson também não estava feliz com a decisão.

Ele estava na cobertura usando calça preta e uma camiseta simples, sem o terno caro, sem o uísque e sem qualquer sinal de agradecimento quando ela saiu do elevador privativo.

— Você assinou mesmo isso?

— Bom dia para você também.

— Meu pai não sabe quando parar.

— Engraçado, ontem eu teria dito a mesma coisa sobre você.

Dawson apertou a mandíbula.

Sienna percebeu que havia uma pequena cicatriz perto da sobrancelha dele que não notara no bar e que, sem dezenas de pessoas recuando ao redor, ele parecia mais cansado do que perigoso.

Não menos instável.

Apenas mais humano.

— Primeira regra — disse ela. — Se levantar uma garrafa para acertar alguém, eu vou embora.

— Isso está no contrato?

— Agora está.

— Você não pode inventar cláusulas.

— Pode reclamar com seu pai.

Dawson ficou olhando para ela durante alguns segundos e então, para sua surpresa, riu.

Foi uma risada breve e enferrujada, como se não fosse usada havia muito tempo.

Nos primeiros dias, o trabalho parecia uma sucessão de pequenas guerras que nenhum dos dois estava disposto a perder.

Dawson queria café no lugar do café da manhã; Sienna colocava comida diante dele e esperava até ele comer.

Ele tentava abandonar reuniões quando se irritava; ela fechava a porta antes que ele chegasse ao corredor e dizia que sair dramaticamente só funcionava quando ninguém precisava pegar o mesmo elevador depois.

Ele a chamava de insuportável.

Ela respondia que aquele elogio não fazia parte do pagamento.

Aos poucos, porém, Sienna percebeu que os acessos de Dawson não surgiam do nada.

Havia sempre alguma coisa antes: uma cobrança de Vittorio, uma referência ao irmão morto que ninguém explicava, uma decisão tomada em seu nome ou a presença de homens mais velhos que falavam com ele como se estivessem esperando que fracassasse.

Dawson não contava a história inteira, e Sienna não perguntava quando ele claramente não queria responder.

Ela apenas começou a reconhecer o momento em que os ombros dele endureciam e os dedos procuravam qualquer objeto próximo para transformar em alvo.

Nessas horas, colocava um copo de água diante dele.

— Nem pense nisso — dizia.

— Em quê?

— Você sabe.

Quase sempre funcionava.

Duas semanas depois, Dawson entrou no Onyx pela primeira vez desde a noite do balde de gelo.

O bar inteiro pareceu prender a respiração novamente.

Paulie correu para recebê-los, sorrindo com força demais.

— Senhor Moretti. Senhorita Brooks. Que surpresa.

Sienna notou que ele demorou meio segundo a mais ao olhar para a credencial preta presa à bolsa dela.

— Pelo visto você conseguiu uma promoção — disse Paulie.

— Pelo visto eu sobrevivi à demissão.

Ele riu, mas os olhos não acompanharam.

Mais tarde, quando uma entrega ficou presa na entrada de serviço, Paulie pediu a credencial dela para liberar o elevador interno.

Sienna entregou o cartão sem pensar e continuou discutindo com Dawson sobre uma reunião que ele queria evitar.

Paulie devolveu a credencial poucos minutos depois.

Ela só perceberia a importância daquele instante semanas mais tarde.

Naquela noite, Dawson permaneceu no Onyx por quase três horas e não quebrou nada.

Quando foram embora, ele segurou a porta para Sienna passar.

— Não vai dizer nada?

— Sobre o quê?

— Eu me comportei.

Ela olhou para ele.

— Quer um adesivo de estrelinha?

— Você é incapaz de elogiar alguém?

— Sou capaz.

— Então diga alguma coisa.

Sienna entrou no elevador.

— Hoje você merecia água com gás.

O sorriso dele apareceu antes que as portas se fechassem.

Foi assim que a distância entre eles começou a diminuir: não com uma declaração, nem com um beijo roubado, mas com pequenas concessões que nenhum dos dois admitiria em voz alta.

Dawson começou a pedir a opinião dela antes de certas reuniões.

Sienna passou a reconhecer quando a raiva dele era apenas raiva e quando era medo disfarçado de agressividade.

Ele descobriu que ela odiava ser tratada como alguém que precisava ser salva.

Ela descobriu que ele odiava ser tratado como alguém destinado a se tornar o pai.

Na quarta semana do contrato, isso quase acabou.

Dawson recebeu uma ligação durante um jantar privado e ficou branco antes mesmo de desligar.

Vittorio havia ordenado que ele comparecesse a uma reunião que Dawson claramente não queria realizar.

— Não vou — disse ele.

Sienna percebeu que aquilo era diferente de suas birras habituais.

— Então não vá.

Dawson a encarou.

— Meu pai não aceita essa resposta.

— Ele não é meu pai.

— Você não entende.

— Então explica.

Ele ficou em silêncio por tanto tempo que Sienna imaginou que não responderia.

Por fim, Dawson disse que Vittorio estava tentando obrigá-lo a assumir de vez uma posição dentro da organização da família que ele vinha evitando desde a morte do irmão mais velho.

Dawson não contou como o irmão morrera.

Não precisava.

A maneira como pronunciou a palavra morte foi suficiente.

Sienna poderia ter telefonado para Vittorio e informado onde Dawson estava, como o contrato determinava em algumas situações.

Em vez disso, desligou o próprio celular e ficou sentada com ele durante a noite inteira numa lanchonete quase vazia do outro lado da cidade.

Ao amanhecer, Vittorio sabia que ela havia ajudado o filho a desaparecer por algumas horas.

Sienna sabia que poderia perder o emprego.

Dawson sabia que ela havia arriscado o contrato para protegê-lo de uma escolha que ele ainda não estava pronto para fazer.

Nenhum dos três comentou o assunto naquele dia.

Mas algo mudou.

Vittorio passou a observá-la como se estivesse recalculando o valor de uma peça em um tabuleiro.

Dawson passou a confiar nela.

E Sienna cometeu o erro mais perigoso de todos: começou a confiar nele também.

A ligação chegou numa terça-feira, pouco depois das duas da manhã.

Sienna estava na cozinha da cobertura quando o telefone de Dawson tocou.

Ele atendeu e ficou completamente imóvel.

— Repete.

A voz do outro lado falou durante alguns segundos.

Dawson virou lentamente o rosto para Sienna.

Ela sentiu o estômago se contrair antes de saber por quê.

— O que aconteceu?

Ele não respondeu.

Do corredor veio o som de passos apressados e, segundos depois, dois homens da segurança interna entraram na sala acompanhando Vittorio.

O velho Moretti não parecia surpreso.

Parecia cansado.

— Três homens entraram pela porta da frente há vinte minutos — disse ele. — Homens ligados aos russos.

Sienna olhou automaticamente para a entrada.

— Como?

Vittorio desviou os olhos para a credencial presa à bolsa dela.

— Com autorização.

Dawson ainda segurava o telefone.

— A autorização dela.

Sienna ficou alguns segundos sem compreender as palavras.

— Isso é impossível.

Um dos homens colocou sobre a mesa uma credencial preta.

O nome SIENNA BROOKS estava gravado na superfície.

Ela levou a mão até a própria bolsa.

Seu cartão continuava ali.

Sienna retirou a credencial e colocou ao lado da outra.

Duas peças aparentemente idênticas.

Dois cartões com o mesmo nome.

Vittorio falou com uma calma que fez a situação parecer ainda pior.

— A entrada foi registrada com uma credencial atribuída à senhorita.

— Eu estava aqui.

— Isso não prova que não entregou outra a alguém.

Sienna olhou para Dawson.

Esperava raiva.

Encontrou alguma coisa pior.

Decepção.

— Dawson, olha para mim.

Ele não obedeceu.

— Há quanto tempo? — perguntou.

— Há quanto tempo o quê?

— Há quanto tempo você trabalha para eles?

Sienna sentiu o sangue subir ao rosto.

— Você perdeu a cabeça?

— Eles sabiam exatamente quando entrar.

— E eu estava ao seu lado quando isso aconteceu.

— Talvez fosse exatamente onde precisava estar.

A acusação atingiu com mais força do que ela esperava.

Não porque viesse de Dawson Moretti.

Porque vinha do homem que, na noite anterior, havia colocado um copo de água com gás diante dela e dito, quase sorrindo, que algumas pessoas mereciam segundas chances.

Sienna pegou sua bolsa.

— Eu vou embora.

Vittorio fez um gesto e um dos homens bloqueou a saída.

— Ninguém vai embora ainda.

— O contrato diz que posso sair se me sentir ameaçada.

— Isto deixou de ser uma questão contratual.

Sienna encarou Vittorio e, pela primeira vez, ouviu novamente a frase daquela primeira noite dentro de seu apartamento.

Toda porta precisa saber quem está autorizado a abri-la.

Seu olhar caiu sobre os dois cartões na mesa.

Algo estava errado.

Ela os aproximou.

O cartão que carregava desde o dia em que assinara o contrato tinha um número gravado na borda inferior.

O cartão recolhido depois da invasão tinha outro.

Sienna sentiu um arrepio percorrer seus braços.

— Eles não são iguais.

Dawson finalmente ergueu os olhos.

— O quê?

Ela apontou para os números.

— Minha credencial termina em 731. Essa termina em 744.

Vittorio não se mexeu.

Sienna olhou para ele.

— Se essa credencial foi criada para mim, alguém teve de autorizar uma segunda emissão.

Um silêncio pesado caiu sobre a sala.

Dawson pegou os dois cartões.

Seu rosto mudou enquanto comparava os números.

— Quem pode emitir essas credenciais?

Vittorio respondeu antes que qualquer outra pessoa pudesse falar.

— Minha administração.

— Quem autorizou esta?

— Isso será verificado.

Sienna percebeu imediatamente o detalhe que Dawson ainda não havia percebido.

Vittorio não parecera surpreso ao saber da duplicata.

Ele parecera preparado para a pergunta.

Então outra lembrança surgiu.

Paulie segurando sua credencial no Onyx.

Aquele meio segundo de atenção quando viu o cartão preso à bolsa dela.

O pedido para liberar o elevador de serviço.

Sienna se virou para Dawson.

— Paulie pegou meu cartão semanas atrás.

Dawson endureceu.

— Quando?

Ela explicou rapidamente.

Vittorio franziu a testa.

— Isso não significa nada.

Mas Dawson já estava pegando o telefone.

Paulie não atendeu.

Na segunda tentativa, o aparelho estava desligado.

Foi o suficiente para mudar a pergunta que dominava a sala.

Sienna deixou de ser a única pessoa sendo investigada.

Só que isso não a inocentava.

Dawson passou as mãos pelo rosto.

— Você devia ter contado que ele pegou sua credencial.

— Era um cartão para entrar num elevador, Dawson. Eu não sabia que estava carregando a chave de uma guerra na bolsa.

Vittorio bateu a ponta da bengala no chão.

— Basta.

Sienna olhou para ele e percebeu uma coisa pequena: a impaciência de Vittorio não era a de um homem cuja segurança acabara de falhar.

Era a de alguém vendo uma conversa sair do roteiro.

A certeza não veio de uma prova.

Veio da soma de detalhes que, isolados, não significavam nada.

A credencial duplicada.

A rapidez com que Vittorio chegara.

A ausência de surpresa.

A frase sobre portas.

E a maneira como ele tentava empurrar Dawson de volta para a acusação sempre que o filho começava a fazer outra pergunta.

Sienna sentiu o corpo inteiro esfriar.

— Foi o senhor.

Dawson virou o rosto para ela.

— Sienna.

— Foi ele.

Vittorio nem piscou.

— Cuidado com o que diz.

— O senhor me entregou a primeira credencial. Seu escritório controla as emissões. O senhor sabia da segunda antes de qualquer pessoa perguntar por ela.

Dawson se levantou.

— Pai?

Vittorio olhou para o filho e pareceu envelhecer dez anos num segundo.

— Há coisas que faço porque você se recusa a fazer o necessário.

A confirmação foi quase pior do que uma confissão direta.

Dawson deu um passo para trás.

— Você deixou aqueles homens entrarem aqui?

— Eu controlei uma situação que precisava acontecer.

— Eles estavam armados.

— E minha equipe estava preparada.

Sienna sentiu náusea.

Não fora uma invasão improvisada.

Fora um teste.

Um teste construído para deixar uma única conclusão óbvia: Sienna havia traído Dawson.

Vittorio continuou falando com a calma de alguém explicando uma decisão empresarial.

Dawson estava ficando dependente demais dela, confiando demais em alguém de fora, adiando decisões que Vittorio considerava inevitáveis.

Então o pai criara uma situação em que o filho teria de escolher entre evidência aparente e sentimento.

Queria descobrir se Dawson era capaz de eliminar uma fraqueza quando chegasse a hora.

Sienna mal conseguia respirar de tanta raiva.

— Eu era a fraqueza.

Vittorio não respondeu.

Não precisava.

Dawson atravessou a sala e puxou uma arma da gaveta lateral.

Sienna congelou.

Por uma fração de segundo, exatamente como prometido pelo pior pressentimento daquela noite, o homem que ela arriscara tudo para proteger estava com uma arma apontada para sua cabeça.

Só que Dawson não estava olhando para ela.

Estava olhando para Vittorio pelo reflexo atrás dela.

Sienna percebeu tarde demais que havia se colocado entre pai e filho.

— Abaixa isso — disse Vittorio.

Dawson não obedeceu.

— Você queria saber se eu conseguiria escolher?

A voz dele estava baixa, quase irreconhecível.

— Dawson — disse Sienna.

Ele finalmente olhou para ela.

Foi então que ela entendeu o perigo real.

Não era que Dawson quisesse atirar nela.

Era que ele estava a segundos de se tornar exatamente o homem que passara a vida inteira tentando não ser.

Sienna deu um passo para o lado e segurou o pulso dele.

— Não faz isso por mim.

— Ele colocou você no meio disso.

— Eu sei.

— Ele podia ter matado você.

— E você vai consertar isso fazendo o que ele esperava que você fizesse desde o começo?

Dawson respirava com dificuldade.

Sienna manteve a mão no braço dele.

— Se atirar agora, ele ganha de qualquer jeito.

A arma permaneceu erguida por mais alguns segundos.

Então Dawson a abaixou.

Vittorio não demonstrou alívio.

Talvez porque tivesse entendido antes dos outros o que realmente acabara de perder.

Não o controle daquela sala.

O controle do filho.

Dawson colocou a arma sobre a mesa, ao lado das duas credenciais e do contrato que Sienna havia levado na bolsa desde a noite em que tudo começou.

— Acabou — disse ele.

Vittorio respondeu com frieza.

— Você não pode simplesmente sair.

Dawson olhou para o pai.

— Foi exatamente isso que você ensinou a vida inteira: sempre existe uma porta. A diferença é que agora eu sei quem não vai mais decidir quando ela abre.

Nas horas seguintes, o edifício inteiro pareceu reorganizar-se em torno daquela ruptura.

Dawson recusou-se a continuar a discussão, ordenou que Sienna pudesse sair sem ser seguida e deixou claro que qualquer pessoa que tentasse impedi-la teria de responder diretamente a ele.

Ela foi embora antes do amanhecer.

Durante dois dias, não respondeu às ligações de Dawson.

O contrato continuava sobre sua mesa, dobrado no mesmo ponto em que a credencial havia ficado presa.

Sienna pensou em rasgá-lo.

Não rasgou.

Na terceira noite, alguém bateu à sua porta.

Três batidas.

O corpo dela inteiro reagiu à lembrança.

Sienna olhou pelo olho mágico.

Dawson estava sozinho.

Sem segurança.

Sem terno.

Sem arma visível.

Ela abriu a porta, mas não o convidou a entrar.

— Se veio oferecer outro contrato, pode voltar para casa.

— Vim encerrar o primeiro.

Ele estendeu um envelope.

Sienna quase riu da ironia.

Dentro havia apenas a página final do acordo, assinada por Dawson, declarando que qualquer obrigação dela terminava naquele momento e que o pagamento já recebido não precisaria ser devolvido.

— Seu pai concordou com isso?

— Não perguntei.

Sienna encarou o papel.

— E agora?

Dawson demorou a responder.

— Agora eu descubro quem sou quando ninguém está decidindo por mim.

Ela ergueu os olhos.

— Parece trabalhoso.

— Provavelmente vai ser.

Ele segurava uma pequena garrafa de água com gás na outra mão.

Sienna só percebeu quando Dawson a colocou no batente da porta.

— O que é isso?

— Um pedido de desculpas ruim.

— Muito ruim.

— Eu acreditei por alguns minutos que você tinha me traído.

Sienna ficou séria.

— Eu sei.

— Não porque você tivesse me dado motivo. Porque eu fui criado para acreditar que todo mundo acaba traindo alguém quando o preço é alto o suficiente.

Ela não o absolveu imediatamente.

Dawson também não pediu.

— Quando meu pai mostrou aquela credencial — continuou ele —, eu vi o que esperava ver. Não o que estava realmente diante de mim.

Sienna apoiou o ombro no batente.

— Isso quase me matou.

— Eu sei.

Desta vez, o silêncio entre eles não pedia uma resposta rápida.

Sienna olhou para a garrafa.

— Com gás?

Dawson assentiu.

— Achei que talvez tivesse merecido.

Ela pegou a garrafa, abriu a porta um pouco mais e deu espaço para ele entrar.

— Não exagera.

Dawson passou por ela.

— Então ainda não mereço as bolhas?

Sienna fechou a porta.

— Merece sentar e beber água sem quebrar nada. Vamos começar por aí.

Dawson sorriu, mas desta vez não havia salão cheio, seguranças assustados nem um pai observando para decidir o que aquela reação significava.

Havia apenas uma mesa pequena, duas cadeiras, um contrato que já não prendia ninguém e a mesma mulher que um dia havia jogado um balde de água gelada sobre a cabeça dele porque se recusava a limpar mais uma bagunça.

O papel continuou sobre a mesa naquela noite.

Antes, tinha sido a coisa que amarrara a vida de Sienna à de Dawson.

Agora era a prova de que ambos podiam escolher ficar mesmo depois de finalmente terem a liberdade de ir embora.

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