Li a frase outra vez, esperando que as palavras mudassem.
Elas não mudaram.
Meu pai sabia onde Abigail havia desaparecido e, mesmo assim, apontou para o lago quando eu cheguei correndo ao quintal.

Hunter entrou pela porta entreaberta quando ouviu a cadeira arrastar no chão.
— Crystal, o que foi?
Estendi a primeira página para ele, mas não consegui soltá-la.
— Ele nos mandou para o lado errado.
Hunter leu por cima do meu ombro, devagar, até chegar à parte sobre a abertura na cerca e o canal.
Seu rosto mudou.
— Eu perguntei sobre aquela lama — disse ele.
Eu também lembrava.
Naquela tarde, a camisa de papai estava suja até perto do peito, e havia um corte comprido em sua manga direita.
Ele disse que escorregara perto do lago enquanto procurava Abigail.
Na época, aceitei a explicação porque precisava acreditar em alguma coisa.
Virei a página.
A letra de papai ficava pior conforme a confissão avançava.
Ele escreveu que, depois de me mandar para o lago, voltou sozinho ao canal.
Não porque ainda estivesse procurando.
Porque já sabia exatamente onde procurar.
Perto da parte mais baixa do terreno havia um tubo largo de concreto que passava sob uma antiga estrada de serviço, quase invisível sob o mato.
Quando papai descera pela primeira vez, ouvira Abigail chorando lá dentro.
Ela estava viva.
Essa frase me fez parar.
Hunter tentou pegar a folha, mas puxei-a contra o peito.
— Não.
Minha voz saiu baixa.
— Eu preciso ler.
Segundo papai, Abigail havia caído pelo barranco e entrado no canal tentando subir pela lateral mais fácil.
Estava machucada e assustada, mas respondeu quando ele chamou seu nome.
E ele a deixou ali.
Por alguns minutos, disse a si mesmo que precisava buscar uma corda.
Depois percebeu que, se alguém encontrasse Abigail naquele lugar, veria imediatamente a cerca quebrada, a barreira que ele havia sido pago para consertar e os materiais ainda empilhados em seu depósito.
Seu medo tomou a decisão antes que sua consciência conseguisse alcançá-lo.
Ele voltou para casa.
Foi nesse momento que eu cheguei.
E foi nesse momento que meu pai apontou para o lago.
Minhas mãos começaram a tremer tanto que o papel batia contra a mesa.
— Ele sabia que ela estava viva — murmurei.
Hunter fechou os olhos.
— Meu Deus.
Continuei lendo.
Papai escreveu que pretendia voltar ao canal em poucos minutos, tirar Abigail de lá e inventar uma explicação para onde a encontrara.
Mas a busca cresceu rápido demais.
Carros chegaram.
Vizinhos apareceram.
Alguém chamou as autoridades.
Em menos de meia hora, havia gente entrando e saindo da propriedade, e papai percebeu que não conseguiria chegar ao canal sem ser visto.
Então fez algo ainda pior.
Continuou repetindo que Abigail correra em direção ao lago.
Cada vez que dizia aquilo, mais pessoas se afastavam do único lugar onde minha filha podia estar.
Hunter puxou uma cadeira e sentou ao meu lado.
— Crystal, talvez ele tenha voltado depois.
Olhei para a terceira página.
— Voltou.
Papai esperou anoitecer.
Quando quase todos estavam concentrados do outro lado da propriedade, ele passou pela abertura da cerca levando uma lanterna e uma corda.
Desceu até o canal.
Chamou Abigail.
Ninguém respondeu.
Entrou no tubo de concreto até onde conseguiu.
Encontrou um dos sapatos dela preso entre pedras e folhas.
Mais adiante, viu marcas pequenas na lama, como se ela tivesse tentado avançar pelo interior do tubo.
Depois as marcas desapareciam onde a água ficava mais funda.
Ele procurou durante horas.
Não a encontrou.
Mas também não contou a ninguém que havia ouvido Abigail viva horas antes.
A folha escorregou da minha mão.
Durante cinco anos, eu havia imaginado todas as versões possíveis do desaparecimento da minha filha.
Um estranho passando pela estrada.
Alguém observando a casa.
Uma fuga improvável.
Um acidente perto do lago.
Nunca imaginei que Abigail pudesse ter ficado chamando pelo avô enquanto dezenas de pessoas procuravam a centenas de metros dali.
Hunter levantou-se tão rápido que a cadeira tombou.
— Temos que ir até esse canal.
— Espere.
Havia mais duas linhas no fim da página.
Se você está lendo isto, Crystal, Joyce tem a única coisa que guardei daquela noite.
Não está no envelope porque eu não tive coragem de tocar nela outra vez.
Fiquei olhando para aquelas palavras.
Então peguei o telefone e liguei para Joyce.
Ela atendeu no segundo toque.
— Você leu.
Não era uma pergunta.
— O que ele deixou com você?
Houve uma pausa curta.
— Crystal…
— O que meu pai deixou com você?
— Uma caixa pequena.
— Traga para cá.
— Acho melhor eu explicar primeiro.
— Joyce, passei cinco anos recebendo explicações depois que as decisões já tinham sido tomadas por mim. Traga a caixa.
Ela chegou cerca de vinte minutos depois.
Hunter havia passado esse tempo andando entre a cozinha e a varanda, enquanto eu permanecia diante do animal roxo desenhado por Abigail e preso à geladeira.
Seis pernas.
Um cavalo, segundo ela.
Meu pai tinha guardado aquele desenho durante cinco anos.
Eu já não sabia se aquilo significava amor ou culpa.
Joyce entrou segurando uma pequena caixa de metal, antiga, sem qualquer marca especial.
Colocou-a sobre a mesa.
— Ele me entregou isto três semanas atrás.
— Você abriu?
— Não.
Na tampa havia um pedaço de fita adesiva com meu nome escrito pela mesma mão trêmula da carta.
Levantei a tampa.
Dentro havia um saquinho transparente.
E dentro dele estava um pequeno sapato infantil coberto por manchas secas de barro.
Hunter virou o rosto.
Eu não consegui.
Reconheci imediatamente a flor branca costurada perto do tornozelo.
Eu havia comprado aquele par porque Abigail insistira que as flores faziam os pés dela correrem mais rápido.
— Ele encontrou isso naquela noite — falei.
Joyce assentiu.
— Foi o que ele me contou.
— E guardou durante cinco anos.
— Sim.
— Enquanto eu procurava minha filha.
Joyce não tentou defender meu pai.
Foi a única coisa que me impediu de mandar que saísse.
Hunter aproximou-se da mesa.
— A carta diz exatamente onde fica o tubo?
Voltei às páginas.
No verso da última folha, papai havia desenhado a parte de trás da propriedade.
A cerca.
A trilha.
O barranco.
E uma linha até a antiga estrada de serviço.
Ao lado dela, escrevera apenas: debaixo do segundo aterro.
Eu conhecia aquela área.
Ou achava que conhecia.
Durante a busca, passei por perto inúmeras vezes, mas sempre pelo lado de cima, seguindo equipes que se dirigiam ao lago.
O canal ficava escondido abaixo do nível do terreno.
— Vamos — falei.
Joyce segurou meu braço.
— Seu pai também escreveu algo para mim que não colocou na carta.
Eu me virei.
— O quê?
— Ele disse que voltou lá outras vezes.
Hunter ficou imóvel.
— Depois do desaparecimento?
— Muitas vezes.
Senti meu estômago apertar.
— Por quê?
— Ele nunca explicou completamente. Só disse que, alguns meses depois, encontrou uma coisa que o fez perceber que Abigail talvez tivesse conseguido sair do tubo.
Essa foi a primeira vez, desde que eu abrira o envelope, que senti algo diferente de raiva.
Era uma sensação perigosa porque eu a conhecia bem.
Esperança.
— Que coisa?
Joyce balançou a cabeça.
— Ele não me disse.
Quase gritei com ela, mas me contive porque vi o medo verdadeiro em seus olhos.
Ela sabia apenas o que ele escolhera contar.
Meu pai continuava controlando a história mesmo depois de morto.
Peguei a carta e a caixa.
Hunter dirigiu.
A antiga entrada para o trecho de serviço ficava a poucos minutos da casa, mas chegar até o canal exigiu caminhar pela trilha tomada pelo mato.
Eu não voltava àquela parte do terreno desde as primeiras semanas após o desaparecimento.
A cerca continuava velha, embora alguém tivesse substituído algumas tábuas anos antes.
Perto da abertura mencionada na carta, encontrei uma peça de madeira mais nova do que as demais.
Hunter tocou nela.
— Seu pai consertou depois.
A frase me atingiu de um jeito que eu não esperava.
Ele havia reparado a cerca.
Só fizera isso tarde demais.
Descemos com cuidado pelo barranco.
O canal era mais profundo do que parecia visto de cima.
Folhas cobriam as laterais, e raízes grossas saíam da terra.
Depois de alguns minutos, encontramos o tubo.
Era largo o bastante para uma criança entrar sem se abaixar muito, mas um adulto precisava curvar o corpo.
Hunter iluminou o interior com o telefone.
— Não entre.
Ignorei.
— Crystal.
— Minha filha entrou.
A frase encerrou a discussão.
Avancei apenas alguns metros.
O chão era irregular, coberto por sedimentos endurecidos e pequenos galhos trazidos pela água ao longo dos anos.
Não havia nada que eu pudesse reconhecer.
Então Hunter chamou meu nome.
Voltei.
Ele estava agachado do lado de fora, junto à parede de concreto, olhando para algo quase escondido sob raízes.
Era uma marca feita à mão.
Três linhas verticais riscadas no concreto.
Ao lado delas havia um círculo torto.
Meu coração disparou.
— Abigail desenhava assim — falei.
Hunter não respondeu.
Na época em que desapareceu, ela desenhava círculos em tudo.
No papel.
Na terra.
Na condensação das janelas.
Círculos grandes, pequenos, tortos, quase sempre repetidos.
Podia ser coincidência.
Precisava ser coincidência.
Mas papai mencionara que encontrara alguma coisa meses depois que lhe dera esperança de que Abigail tivesse saído do tubo.
Seguimos a parede externa.
Uns vinte metros adiante, o canal estreitava antes de desaparecer sob outro trecho da estrada.
Foi Hunter quem viu primeiro uma abertura lateral entre a vegetação.
— Aqui.
Parecia uma passagem antiga de manutenção.
Subia em direção a uma faixa de terreno que, cinco anos antes, estava coberta por arbustos muito mais altos.
Se Abigail tivesse avançado pelo tubo, poderia ter saído por ali sem voltar ao quintal.
Minha mente começou a reconstruir aquela tarde.
Uma menina de cinco anos, machucada, assustada e procurando alguém.
Um avô que a ouvira e fora embora.
Uma busca inteira seguindo na direção oposta.
Mas havia uma pergunta que a carta não respondia.
Se Abigail saíra do canal, onde tinha ido depois?
Hunter encontrou a resposta parcial alguns minutos mais tarde.
No topo da passagem havia os restos de um velho cercado, quase totalmente engolido pela vegetação.
Além dele ficava uma pequena construção de madeira que eu nunca havia visto.
Não era uma casa.
Parecia um abrigo usado décadas antes para guardar ferramentas.
A porta estava caída.
Entramos.
O interior não continha nada além de tábuas quebradas, ferrugem e folhas secas.
Então vi a parede.
Havia desenhos riscados na madeira.
Círculos.
Vários.
E, abaixo deles, uma figura com quatro pernas.
Ou talvez seis.
Aproximei-me tanto que quase encostei o rosto nas tábuas.
Hunter falou atrás de mim.
— Crystal…
— Ela esteve aqui.
Dessa vez eu não estava perguntando.
Minha filha saíra do canal.
Abigail estivera viva depois que meu pai acreditara tê-la perdido lá dentro.
E ele descobrira isso meses depois.
A raiva voltou inteira.
— Por que ele não contou?
Joyce, que havia ficado perto da entrada, respondeu com cuidado.
— Talvez porque, naquele momento, contar significasse admitir tudo o que já tinha escondido.
Virei para ela.
— Então preferiu deixar Abigail desaparecida?
— Eu não disse que havia justificativa.
Hunter continuou examinando o abrigo.
Perto de uma tábua solta encontrou uma pequena cavidade onde alguma coisa parecia ter ficado presa durante anos.
Não era uma joia nem uma fotografia.
Era um pedaço desbotado de tecido amarelo.
Eu me sentei no chão.
A fita.
Não a fita mencionada na carta, aquela que papai encontrara presa à cerca.
Outra.
Abigail usava duas fitas iguais naquele dia, uma de cada lado do cabelo.
Eu me lembrava porque havia discutido com ela naquela manhã quando decidiu arrancar uma e colocar de novo sozinha.
Nas fotos distribuídas durante a busca, apenas uma fita aparecia claramente por causa do ângulo.
Meu pai encontrara uma na cerca.
A segunda estava ali.
Isso significava que Abigail havia chegado ao abrigo.
Hunter se agachou diante de mim.
— Ela saiu do canal.
Assenti.
Pela primeira vez em cinco anos, tínhamos algo que mudava a última localização conhecida de nossa filha.
Não era o lago.
Não era sequer o quintal.
Era aquele abrigo além do canal.
Voltamos à casa de papai quase ao anoitecer.
Eu queria reler cada palavra procurando qualquer detalhe que tivesse ignorado.
Foi então que percebi algo na última página.
O papel era mais grosso na parte inferior.
Passei os dedos pela borda e encontrei uma dobra colada.
Hunter trouxe uma pequena tesoura da cozinha, e abrimos sem rasgar a escrita.
Havia uma frase escondida ali.
Não era uma nova carta.
Era apenas um endereço incompleto e uma data.
A data era de quatro meses depois do desaparecimento de Abigail.
Ao lado, papai escrevera: Eu a vi.
Fiquei sem respirar.
— Ele viu quem? — Hunter perguntou.
Eu já sabia a resposta que meu coração escolheria, mesmo antes da razão permitir.
— Abigail.
O endereço levava a uma estrada fora da região onde as buscas haviam se concentrado.
Não fomos imediatamente.
Dessa vez eu me recusei a repetir o erro que meu pai cometera: transformar medo em pressa e pressa em outra decisão irreversível.
Passei a noite lendo a carta, comparando datas e tentando separar o que papai realmente escrevera daquilo que eu queria acreditar.
Na manhã seguinte, encontrei no verso do desenho de Abigail preso à geladeira algo que nunca tinha notado.
Meu pai havia escrito uma data a lápis.
Era a mesma da anotação escondida na carta.
Abaixo dela havia apenas duas palavras.
Ela lembrou.
Chamei Hunter.
Ele leu e ficou pálido.
— Isso estava aqui o tempo todo?
— Eu nunca tirei o desenho da geladeira.
Meu pai tinha feito a anotação cinco anos antes e depois recolocado o desenho no mesmo lugar, diante de todos nós.
Era sua forma covarde de registrar algo sem ter coragem de falar.
Seguimos o endereço.
A estrada terminava perto de um conjunto de casas simples espalhadas por uma área rural.
Não havia número exato na anotação, apenas uma referência a uma propriedade antiga que já havia mudado de dono.
Conversamos com moradores sem contar toda a história.
Mostrei uma fotografia de Abigail aos cinco anos.
A maioria balançou a cabeça.
Até uma mulher mais velha olhar para a foto por tempo demais.
— Essa menina tinha medo de água?
Meu corpo inteiro ficou rígido.
— Por que perguntou isso?
A mulher disse que, anos antes, uma criança desconhecida aparecera perto dali acompanhada por um homem idoso.
A menina parecia mais velha do que Abigail na fotografia, talvez porque estivesse muito magra e com o cabelo cortado curto.
O homem afirmara ser parente dela.
A mulher não lembrava o nome.
Mas lembrava de uma coisa estranha.
A menina se recusara a atravessar uma pequena ponte de madeira sobre uma vala cheia de água.
Começara a chorar e repetira que não queria entrar no túnel outra vez.
Hunter apertou minha mão.
— Quando foi isso?
A mulher pensou por alguns segundos.
A época correspondia à data escrita por meu pai.
Quatro meses depois do desaparecimento.
— O homem era meu pai? — perguntei, mostrando uma fotografia dele.
Ela olhou.
— Não.
Aquilo mudou tudo mais uma vez.
Meu pai não havia levado Abigail até ali.
Ele a encontrara ali.
Ou acreditara ter encontrado.
A mulher então se lembrou de outra coisa.
A criança carregava uma folha dobrada e desenhava constantemente enquanto esperava o homem conversar com alguém.
— Animais — disse ela. — Ela desenhava animais estranhos.
Eu comecei a chorar antes mesmo de perguntar.
— Quantas pernas?
A mulher sorriu com tristeza.
— Muitas.
Hunter precisou me segurar.
Depois de cinco anos, alguém estava descrevendo minha filha sem conhecer a história do cavalo roxo de seis pernas.
Abigail sobrevivera ao canal.
Alguém a encontrara depois de sair do abrigo.
E meses mais tarde meu pai a vira viva.
Mas ainda faltava a parte mais cruel de sua confissão.
Joyce me telefonou enquanto estávamos voltando.
— Crystal, encontrei algo.
Ela havia retornado à casa porque se lembrara de uma frase que meu pai repetia nos últimos dias em que ainda conseguia falar.
‘O cavalo sabe.’
Na época, Joyce achou que fosse confusão provocada pela doença.
Agora percebeu que ele podia estar falando do desenho na geladeira.
Eu já havia encontrado a data no verso, mas ela pediu que examinássemos a moldura plástica que prendia o papel.
Quando chegamos, Hunter retirou o desenho cuidadosamente.
Entre o plástico e o papel havia uma tira estreita dobrada várias vezes.
Reconheci a letra de papai.
A mensagem era curta.
Vi Abigail quatro meses depois. Ela me reconheceu. Tentei chegar até ela, mas o homem percebeu. Eu tive medo de contar a verdade porque teria de explicar como sabia que era ela. Quando finalmente voltei, eles tinham ido embora.
A última linha quase destruiu o pouco que ainda restava de mim.
Passei cinco anos procurando uma criança que poderia ter sido encontrada quatro meses depois, se eu tivesse contado tudo desde o começo.
Hunter leu em silêncio.
Depois perguntou:
— Por que ele guardou o sapato?
Joyce respondeu antes de mim.
— Talvez porque fosse a prova da primeira mentira.
Olhei para o pequeno sapato dentro da caixa.
Durante anos, meu pai fora lembrado como o avô devastado que também perdera Abigail.
Agora eu entendia que ele vivera preso entre duas versões de si mesmo.
O homem que amava a neta.
E o homem que, por medo das consequências de uma negligência, deixara uma mentira crescer até ficar maior do que qualquer possibilidade de corrigi-la.
Nada disso diminuía o que ele fizera.
Mas explicava por que sua confissão não terminava com o canal.
Terminava com uma escolha que ele nunca teve coragem de fazer enquanto estava vivo.
Ele havia deixado detalhes suficientes para que eu pudesse continuar de onde ele parou.
As semanas seguintes foram diferentes de todas as buscas anteriores.
Não comecei pelo lago.
Não comecei pelo quintal.
Comecei pelo abrigo, pela estrada, pela data e pela descrição do homem que estivera com Abigail.
A mulher que os vira lembrou que ele trabalhava temporariamente numa propriedade da região e partira pouco depois.
A partir dali conseguimos reconstruir uma sequência de lugares pelos quais ele havia passado.
Não foi rápido e não houve uma revelação milagrosa escondida numa gaveta.
Houve nomes esquecidos, lembranças incompletas e caminhos que terminavam sem resposta.
Mas, pela primeira vez, estávamos seguindo a trajetória de Abigail em vez da mentira do meu pai.
Foi quase dois meses depois que uma informação finalmente nos levou a uma mulher que reconheceu a fotografia mais recente que conseguimos montar de como Abigail poderia parecer.
Ela não conhecia Abigail por esse nome.
Conhecia uma menina chamada Abby.
A mesma idade.
A mesma pequena cicatriz perto do queixo.
E uma mania peculiar de desenhar cavalos com pernas demais.
Quando ouvi isso, não senti a explosão de alegria que imaginara durante cinco anos.
Senti medo.
Porque esperança, depois de tanto tempo, também podia ferir.
A mulher disse que Abby vivera durante algum tempo com o homem que a encontrara perto da estrada naquela tarde de setembro.
Segundo a história que ele contava, a criança estava desorientada, não conseguia explicar de onde vinha e dizia apenas o primeiro nome.
Ele deveria ter procurado ajuda imediatamente.
Não procurou.
A princípio dizia que faria isso no dia seguinte.
Depois convenceu a si mesmo de que a menina havia sido abandonada.
Com o passar do tempo, transformou outra decisão errada em outra mentira.
Era quase insuportável perceber o padrão.
Abigail não fora apagada por um único acontecimento.
Ela fora empurrada para longe de nós por uma sequência de adultos que escolheram o próprio medo antes da verdade.
Encontramos Abigail três semanas depois.
Ela tinha dez anos.
Não aconteceu como nos sonhos em que eu corria, gritava seu nome e ela se lançava em meus braços.
Quando nos vimos pela primeira vez, ela ficou parada do outro lado de uma sala, segurando as mãos contra o peito.
Eu também fiquei parada.
Cinco anos eram metade da vida dela.
Eu era sua mãe, mas também era uma mulher que ela conhecia principalmente por lembranças partidas.
Hunter chorava ao meu lado.
Então Abigail olhou para mim e perguntou:
— Você ainda tem meu cavalo?
Não consegui responder imediatamente.
Abri a bolsa.
Eu havia levado o desenho roxo de seis pernas comigo.
Quando o coloquei sobre a mesa, ela começou a chorar.
Foi Abigail quem atravessou a distância entre nós.
Não correu.
Deu alguns passos cautelosos, como se ainda estivesse aprendendo se podia confiar no caminho.
Então encostou a testa no meu ombro.
Eu a abracei sem apertar demais.
Naquele instante, não prometi que tudo ficaria bem.
Não prometi recuperar os cinco anos perdidos.
Apenas disse o que meu pai deveria ter dito naquela primeira tarde, antes que o medo decidisse por todos nós.
— Eu estou aqui. E vou dizer a verdade para você, mesmo quando ela doer.
Abigail levou tempo para voltar a nos chamar de mãe e pai.
Levou tempo para entrar numa casa desconhecida que deveria ter parecido familiar.
Levou ainda mais tempo para falar sobre o canal.
Ela lembrava de ter chamado pelo avô.
Lembrava da luz dele na entrada do tubo.
E lembrava de vê-lo desaparecer.
Essa foi a parte da confissão que nenhuma carta poderia ter preparado para mim.
Minha filha carregara durante cinco anos a lembrança de que alguém que amava ouvira sua voz e fora embora.
Certo dia, meses depois de voltar para nós, Abigail perguntou por que o avô fizera aquilo.
Eu poderia ter protegido a memória dele.
Poderia ter simplificado.
Poderia ter dito que estava confuso, assustado ou doente.
Mas eu havia prometido algo diferente.
— Ele teve medo das consequências do erro que cometeu — respondi. — E deixou esse medo fazer com que cometesse erros ainda maiores.
Abigail ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois perguntou:
— Ele me procurou depois?
— Sim.
— Ele me encontrou?
— Uma vez. Meses depois.
— E não contou para você?
— Não.
Ela olhou para o desenho do cavalo, que agora ficava preso na nossa geladeira.
— Então ele continuou com medo.
— Continuou.
Ela assentiu como quem compreendia algo que eu ainda estava aprendendo.
Não perdoamos meu pai naquele dia.
Também não transformamos sua culpa na única coisa que ele havia sido.
A verdade era mais desconfortável do que isso.
Ele amou Abigail.
Ele também a abandonou quando ela mais precisava dele.
Procurou por ela depois.
E, quando teve a oportunidade de reparar parte do dano, escolheu novamente o silêncio.
Sua confissão não apagou nada.
Apenas devolveu a Abigail aquilo que suas mentiras haviam roubado primeiro: o caminho de volta.
Meses mais tarde, ela pediu para visitar a antiga casa do avô.
Eu achei que quisesse ver o quintal.
Ela não quis.
Entrou diretamente na cozinha e parou diante da geladeira.
O desenho já não estava ali porque eu o havia levado para nossa casa.
No lugar, restavam apenas pequenas marcas no metal onde o ímã ficara durante anos.
Abigail passou os dedos sobre elas.
— Ele realmente achava bonito?
Demorei a entender.
— O cavalo?
Ela assentiu.
— Achava.
— Mesmo com seis pernas?
Sorri pela primeira vez naquele dia.
— Principalmente por causa das seis pernas.
Abigail olhou para a mesa onde eu abrira a confissão depois do funeral.
— Então eu quero lembrar dessa parte também.
Foi quando percebi que recuperar minha filha não significava escolher entre uma história bonita e uma história terrível.
Significava devolver a ela todas as partes que lhe pertenciam e permitir que decidisse o que fazer com elas.
Antes de sairmos, Abigail colocou sobre a mesa um desenho novo.
Era outro cavalo.
Desta vez tinha quatro pernas.
Ela observou meu rosto e riu.
— Aprendi a fazer direito.
Peguei o papel.
— O primeiro também estava certo.
Ela pensou por um instante, voltou para a mesa e acrescentou mais duas pernas.
Depois levou o desenho consigo.
O antigo ficou em nossa geladeira.
O novo foi para o quarto dela.
E, pela primeira vez desde aquela tarde de setembro, nenhum dos dois desenhos parecia uma lembrança de uma criança desaparecida.
Eram apenas desenhos da minha filha.