A Criança Que Chamou Um Estranho De Pai Revelou Um Segredo Mortal-criss

“Papai! Você voltou!”

A voz veio antes do impacto.

Eu ainda estava com a mão na alça da mala quando uma menina pequena atravessou correndo o meu hall de mármore e se lançou contra mim com a certeza absoluta de quem não teme rejeição.

Image

Os braços dela se fecharam ao redor do meu pescoço.

A minha mala caiu no chão com um baque seco.

Por um segundo, tudo o que ouvi foi o rodar fraco das rodinhas parando sobre o piso polido e a respiração acelerada da criança contra o meu colarinho.

Eu não tinha filha.

Era nisso que eu acreditava havia três anos.

Eu tinha acabado de voltar de Londres depois de trinta dias de reuniões, planilhas, jantares forçados e apertos de mão com homens que sorriam pouco e calculavam tudo.

O contrato que fechei lá era o maior da história da minha empresa.

Deveria ter voltado exausto, mas satisfeito.

Em vez disso, entrei na minha própria casa e senti o chão mudar de lugar sob os meus pés.

A casa estava clara demais para aquele tipo de susto.

O sol da tarde entrava pelas janelas altas, batia no mármore branco e deixava tudo visível, limpo, impossível de esconder.

Eu tinha esperado silêncio.

A mesma casa organizada, fria e intocada que deixei antes de viajar.

Mas havia uma menina agarrada a mim.

Ela tinha cachos escuros, olhos castanhos, bochechas rosadas de corrida e uma pequena marca de nascença perto da orelha esquerda.

Meu corpo reconheceu aquela marca antes da minha mente.

Claire tinha uma igual.

Minha esposa.

Minha falecida esposa.

A menina levantou o rosto e sorriu para mim como se eu fosse uma promessa cumprida.

“Eu sabia que você ia voltar”, ela disse.

As palavras deveriam ter parecido brincadeira.

Não pareceram.

Antes que eu conseguisse responder, Hannah Ramirez saiu da cozinha tão rápido que quase derrubou uma xícara sobre a bancada.

Ela trabalhava na minha casa havia oito meses.

Era reservada, pontual, discreta ao ponto de desaparecer dentro da rotina.

Eu sabia que ela gostava de deixar as flores da entrada sempre viradas para a luz.

Sabia que dobrava panos de prato com precisão quase militar.

Não sabia que tinha uma filha.

“Emma”, Hannah disse, com a voz falhando. “Desce daí.”

A criança me apertou mais forte.

“Não. O papai acabou de chegar.”

Hannah ficou branca.

Não pálida.

Branca como papel molhado.

Eu olhei para a criança, depois para Hannah.

“Hannah”, falei devagar, porque havia algo frágil demais naquela sala, “por que ela está me chamando de pai?”

“Ela está confusa.”

A menina virou o rosto na mesma hora.

“Não tô confusa.”

A segurança da voz dela partiu algo dentro de mim.

“A mamãe disse que meu papai estava longe trabalhando. Ela disse que um dia ele ia voltar pra casa.”

Hannah fechou os olhos.

Foi um gesto pequeno.

Mas naquele gesto havia culpa, medo e cansaço antigo.

Eu entendi ali que ninguém estava apenas confundindo nomes.

Pedi a um dos funcionários que levasse Emma para o andar de cima.

Ela resistiu.

Os dedos pequenos se prenderam na manga do meu paletó como se soltar significasse me perder outra vez.

Hannah se ajoelhou diante dela e prometeu que subiria em poucos minutos.

“Promete mesmo?” Emma perguntou.

“Prometo.”

A menina olhou para mim.

Eu não sabia o que dizer.

Então apenas toquei de leve os cachos dela e disse: “Eu não vou embora agora.”

Ela pareceu satisfeita com isso.

Quando finalmente subiu a escada, a casa ficou silenciosa de novo.

Mas não era o mesmo silêncio de antes.

Era um silêncio com respiração presa.

Assim que a porta da biblioteca se fechou atrás de nós, virei-me para Hannah.

“Agora você vai me contar a verdade.”

Ela não tentou se defender.

Não chorou de imediato.

Apenas ficou ao lado da lareira, segurando a alça da própria bolsa com tanta força que os nós dos dedos ficaram claros.

“Eu não sabia que era você”, ela disse.

A frase não fazia sentido.

E, ao mesmo tempo, soou como o começo de uma coisa terrível.

“O que isso quer dizer?”

Hannah abriu a bolsa e tirou um envelope grosso, amarelado, com cantos amassados.

Ela o colocou sobre a mesa como quem coloca uma prova, não uma explicação.

“Três anos atrás”, começou, “eu aceitei ser barriga de aluguel.”

A palavra ficou entre nós.

Barriga de aluguel.

Eu não me mexi.

Ela contou que o namorado tinha ido embora quando soube que a mãe dela precisava de tratamento médico caro.

Contou que estava com aluguel atrasado, sem reserva, sem família que pudesse ajudar, sem tempo para esperar por uma solução digna.

Contou que assinou contratos em uma sala de clínica onde as pessoas usavam palavras técnicas demais para uma mulher desesperada demais.

“Ninguém me disse quem eram os pais biológicos”, ela falou.

A voz dela tremia, mas os detalhes vinham organizados, como se ela tivesse ensaiado aquele momento todas as noites.

“Disseram que um casal infértil tinha escolhido um embrião. Disseram que, depois do nascimento, o bebê seria entregue a eles.”

Ela olhou para a porta da biblioteca.

Como se ainda pudesse ver Emma do outro lado.

“Mas quarenta e oito horas antes dela nascer, tudo mudou.”

Os advogados pararam de responder.

O contato da clínica sumiu.

O número de emergência caiu em caixa postal.

Depois, no quarto do hospital, um administrador apareceu com um documento de confidencialidade e disse que a família receptora tinha desistido.

“Desistido”, ela repetiu, com nojo da palavra.

Eu senti um aperto no peito.

“E deixaram a criança com você?”

Hannah assentiu.

“Disseram que eu podia ficar com ela. Criar como minha filha. Mas que nunca poderia fazer perguntas.”

A biblioteca pareceu menor.

O ar ficou pesado, cheio de poeira antiga, couro dos livros e a lembrança de Claire em cada canto daquela casa.

“Por que me contar agora?” perguntei.

“Porque eu vi as fotos.”

“Que fotos?”

“As da sua esposa.”

Ela abriu o envelope.

Os papéis deslizaram para fora devagar.

Contratos.

Recibos.

Cópias carimbadas.

Um histórico de procedimento com datas, códigos e assinaturas.

Eu só precisei ver o nome da clínica no topo da primeira folha para sentir minhas pernas enfraquecerem.

Aquela era a nossa clínica.

Minha e de Claire.

Anos antes, Claire e eu tínhamos tentado ter um filho até a esperança virar rotina dolorosa.

Havia injeções guardadas na geladeira.

Consultas ao amanhecer.

Exames marcados em horários impossíveis.

Telefonemas que começavam com voz profissional demais e terminavam com Claire sentada no chão do banheiro, tentando não chorar alto.

Quando a clínica nos disse que dois embriões eram viáveis, Claire segurou minha mão com tanta força que deixou marcas.

“Dois”, ela sussurrou naquele dia.

Não era só um número.

Era uma porta.

O primeiro embrião foi implantado.

Claire engravidou.

Durante sete semanas, nossa casa mudou de som.

Ela cantarolava na cozinha.

Eu acordava no meio da noite para verificar se ela estava confortável.

Nós olhávamos nomes no celular, discutíamos bobagens como cor de quarto e tipo de berço, e fingíamos que não tínhamos medo de acreditar demais.

Então o câncer voltou.

A notícia chegou em uma sala branca, com cheiro de álcool e plástico, enquanto Claire apertava minha mão e olhava para o médico como se pudesse convencê-lo a escolher outra frase.

O tratamento começou rápido.

A gravidez não resistiu.

Cinco meses depois, Claire morreu.

Depois disso, minha memória virou uma sequência de quartos fechados.

Remédios.

Cortinas puxadas.

Rebecca, minha irmã, entrando e saindo com documentos.

Eu assinava o que ela colocava na minha frente porque ela era a única pessoa que parecia saber o que ainda precisava ser feito.

Rebecca sempre tinha sido prática.

Desde crianças, ela era quem guardava recibos, lembrava senhas, corrigia adultos.

Quando Claire morreu, aquela praticidade pareceu cuidado.

Hoje, eu entendo que às vezes controle usa o mesmo tom de voz que proteção.

Ela me disse que o segundo embrião seria doado anonimamente para um casal que não podia ter filhos.

Eu assinei.

Não perguntei muito.

Eu estava quebrado demais para pensar no futuro.

Hannah empurrou uma folha específica na minha direção.

O papel fazia um ruído seco contra a madeira da mesa.

Nele estavam a minha assinatura, o número de paciente de Claire, o código de identificação do segundo embrião e o nome de Hannah Ramirez como gestante substituta.

Li uma vez.

Depois outra.

Na terceira, as letras começaram a se mover.

“Você carregou o nosso embrião?”

Hannah baixou os olhos.

“Eu não sabia.”

A dor na voz dela era limpa.

Não parecia uma desculpa.

Parecia uma mulher segurando um segredo que nunca pediu para receber.

“Quando comecei a trabalhar aqui e vi a foto da Claire na sala, eu quase deixei cair a bandeja”, disse. “Emma parecia com ela. Não só um pouco. De um jeito impossível.”

Pensei nos olhos da menina.

Na marca de nascença.

Na confiança absurda com que ela tinha corrido para mim.

Há verdades que não chegam como respostas.

Chegam como uma criança chamando você por um nome que ninguém deveria ter ensinado.

Eu me sentei, mas não lembrava de ter decidido sentar.

Hannah continuou.

Disse que Emma perguntava pelo pai desde que aprendeu a juntar frases.

Disse que ela inventava histórias sobre mim sem saber meu rosto.

Um dia eu era piloto.

Outro dia, médico.

Na semana anterior, ela tinha dito às bonecas que o pai estava “ganhando dinheiro longe” e voltaria com uma mala.

A mala ainda estava caída no hall.

A minha garganta fechou.

Então vi uma anotação no rodapé da última página.

Não era carimbo.

Não era letra de médico.

Era uma letra que eu conhecia desde a infância.

Rebecca sempre escrevia o R maiúsculo inclinado demais para a direita.

Eu tinha visto aquele R em cartões de aniversário, bilhetes de escola, listas de supermercado, lembretes deixados no painel do meu carro.

Agora ele estava no rodapé do documento que ligava minha filha a três anos de mentira.

A nota dizia:

Impedir todo contato entre o pai biológico e a criança.

Se ele perguntar, negar que houve nascimento com vida.

Abaixo, a assinatura de Rebecca.

Não gritei.

Talvez eu rod devesse ter gritado.

Mas algumas traições são grandes demais para sair pela boca de imediato.

Elas primeiro ocupam o corpo inteiro.

Minha própria irmã sabia.

Ela sabia que o bebê de Claire tinha sobrevivido.

Ela sabia que Emma existia.

Ela olhou para mim durante três anos em almoços de família, reuniões de empresa e aniversários vazios, sabendo que minha filha respirava em algum lugar do mundo.

E me deixou acreditar que eu não tinha ninguém.

Hannah estava chorando agora.

“Eu juro que não sabia quem você era quando aceitei o emprego”, disse. “Eu precisava trabalhar. Emma precisava de estabilidade. Quando percebi, eu fiquei com medo.”

“Medo de quê?”

“De que tirassem ela de mim. De que dissessem que eu tinha quebrado o contrato. De que você me odiasse antes de entender.”

Eu olhei para os documentos.

O ódio estava lá, sim.

Mas não era por Hannah.

Era por cada pessoa que tinha transformado uma criança em risco administrativo.

Era por cada assinatura usada contra Claire quando ela já não podia se defender.

Era por Rebecca.

Hannah respirou fundo, como se ainda houvesse algo pior para entregar.

Então enfiou a mão de novo no envelope.

“Tinha outra coisa.”

Ela retirou uma folha mais recente, dobrada em três partes.

O papel era de uma seguradora.

Vi o valor antes de entender o restante.

Vinte milhões de dólares.

A beneficiária era Rebecca.

Não Emma.

Não Hannah.

Rebecca.

A data carimbada no rodapé era doze dias antes da morte de Claire.

Por um instante, minha mente recusou formar a frase inteira.

Doze dias antes.

Antes de Claire morrer.

Antes de eu enterrá-la.

Antes de Rebecca me colocar documentos na frente e me dizer, com aquela voz firme, que eu não precisava me preocupar com nada.

Eu me levantei tão rápido que a cadeira arranhou o chão.

Hannah também se moveu, assustada.

Foi nesse momento que o alarme de segurança disparou.

O som cortou a casa como lâmina.

Um bip agudo.

Depois outro.

Depois a notificação apareceu no meu celular.

Entrada pela garagem privativa.

Hannah ficou imóvel.

Eu desbloqueei o aparelho e abri as câmeras.

A imagem da cozinha surgiu tremida por meio segundo e depois focou.

Rebecca atravessava a porta que ligava a garagem à casa.

Ela usava óculos escuros, apesar de estar dentro de casa, e caminhava com a segurança de quem ainda se achava dona do lugar.

Ela não estava sozinha.

O homem ao lado dela era mais velho do que eu lembrava, mas eu reconheci o maxilar, os olhos pequenos, a postura clínica de quem aprendeu a parecer calmo diante do sofrimento dos outros.

Era o médico da fertilidade.

O mesmo homem que me disse que o segundo embrião havia sido destruído.

Na mão dele havia uma seringa.

A seringa apareceu pequena na tela do celular, mas foi como se ocupasse a biblioteca inteira.

Hannah levou a mão à boca.

“Emma está lá em cima”, ela sussurrou.

A frase me devolveu movimento.

Eu juntei os documentos com uma mão e mantive o celular na outra.

Na tela, o médico fechou a porta da garagem com o quadril.

Rebecca tirou os óculos e olhou para a cozinha, impaciente.

Ela disse algo.

A câmera não captou o som, mas eu reconheci a expressão.

Aquele rosto dela eu conhecia.

Era o rosto que fazia quando queria que todo mundo obedecesse antes mesmo de entender a ordem.

O médico levantou um pouco a seringa.

Rebecca apontou para o corredor.

O corredor que levava às escadas.

O corredor que levava a Emma.

Hannah soltou um som baixo e quebrou por dentro.

Antes que eu pudesse correr, ela agarrou meu braço.

“Tem mais uma coisa”, disse.

“Agora não.”

“Agora.”

Ela puxou do envelope uma fotografia dobrada.

Era Claire.

No hospital.

Mais magra do que deveria estar, com um sorriso fraco, deitada contra travesseiros brancos.

A mão dela descansava sobre a barriga.

Meu coração parou.

Eu virei a foto.

No verso havia uma data.

Dois dias antes da morte dela.

E uma frase escrita com a letra trêmula de Claire.

Se algo acontecer comigo, proteja nosso bebê dele e dela.

Dela.

Rebecca.

Dele.

Eu olhei para a tela outra vez.

O médico agora estava perto da ilha da cozinha.

Rebecca parou de andar.

Devagar, ela ergueu o rosto para a câmera escondida.

Por um segundo, pareceu olhar direto para mim.

Então sorriu.

O meu celular começou a tocar.

O nome dela apareceu na tela.

Rebecca.

Hannah balançou a cabeça, mas eu atendi.

Não disse nada.

A voz da minha irmã entrou baixa, lisa, familiar.

“Eu sei que você voltou.”

Na câmera, ela continuava olhando para cima.

“E se você quer que a menina continue respirando tranquila”, disse, “não abra a porta da biblioteca até eu terminar de explicar uma coisa.”

Eu fechei os dedos ao redor do celular.

A vontade de atravessar a casa e arrancar a verdade da boca dela quase me cegou.

Mas a minha filha estava no andar de cima.

Minha filha.

A palavra ainda era nova.

Ainda doía.

Ainda brilhava.

“Você tem dez segundos”, eu disse.

Rebecca riu sem humor.

“Você sempre foi sentimental demais.”

Na câmera, o médico olhou para o corredor de novo.

Hannah deu um passo em direção à porta.

Eu ergui a mão, mandando que ela ficasse atrás de mim.

“Por quê?” perguntei.

Houve uma pausa.

Pela primeira vez, Rebecca pareceu escolher as palavras com cuidado.

“Porque Claire ia destruir tudo.”

A frase me atingiu com mais força do que qualquer confissão direta.

“Claire estava morrendo.”

“Claire estava mudando o testamento”, Rebecca respondeu. “E você estava fraco demais para ver o que ela estava fazendo.”

Olhei para a apólice de seguro sobre a mesa.

Para o documento do embrião.

Para a foto.

As peças começaram a se alinhar de uma forma monstruosa.

Rebecca não tinha apenas escondido Emma.

Ela tinha redesenhado a minha vida inteira enquanto eu estava de luto.

“Você fez a apólice”, eu disse.

“Eu protegi a família.”

“Você roubou a minha filha.”

Dessa vez, o silêncio do outro lado durou mais.

Quando ela voltou a falar, a voz estava mais fria.

“Aquela criança era uma complicação.”

Hannah soltou um soluço.

Eu pensei em Emma perguntando se eu prometia não ir embora.

Pensei na mão de Claire sobre a barriga na foto.

Pensei em três anos de aniversários que eu não vi, febres que eu não cuidei, primeiras palavras que ninguém me contou.

Uma casa inteira tinha me ensinado a acreditar que eu merecia o vazio.

Agora eu via que o vazio tinha sido construído por alguém que conhecia todas as portas.

No corredor, ouvi passos pequenos acima de nós.

Emma.

Ela devia ter descido da cama ou se aproximado da escada.

Na câmera, Rebecca também pareceu ouvir.

O médico virou a cabeça.

Eu não esperei mais.

Abri a gaveta da mesa, peguei o controle de segurança e travei a porta interna da cozinha.

O clique ecoou pela casa.

Rebecca olhou para a maçaneta do corredor.

Pela primeira vez, o sorriso dela falhou.

“Você não deveria ter feito isso”, ela disse ao telefone.

“Não”, respondi. “Eu deveria ter feito isso três anos atrás.”

Hannah correu para a escada dos fundos para buscar Emma.

Eu mantive os olhos no celular.

O médico colocou a seringa sobre a ilha por um segundo, irritado, e começou a falar com Rebecca com gestos duros.

Ela apontou para a porta travada.

Ele apontou para o teto.

Para o andar de cima.

Eu gravei tudo.

Cada segundo.

Cada movimento.

Cada expressão.

Depois liguei para a emergência e para o meu advogado.

Não usei voz alta.

Não precisei.

Há momentos em que a raiva deixa de ser fogo e vira instrumento.

Quando Hannah voltou segurando Emma no colo, a menina estava chorando sem entender.

“Papai?” ela chamou.

Dessa vez, eu não corrigi.

Fui até ela e segurei seu rosto com as duas mãos.

“Eu estou aqui.”

Ela olhou para o telefone na minha mão.

“Quem é aquela moça?”

Eu olhei para Rebecca na tela.

Minha irmã batia na porta da cozinha agora.

O médico tentava desligar algo no painel de alarme.

“É alguém que vai precisar responder por muita coisa”, eu disse.

As sirenes chegaram antes que Rebecca conseguisse sair.

Pela câmera, vi o rosto dela mudar quando luzes vermelhas e azuis bateram nos armários brancos da cozinha.

O médico recuou.

Rebecca guardou o celular no bolso e ergueu as mãos como se fosse a vítima de um mal-entendido.

Ela sempre tinha sido boa nisso.

Em parecer razoável.

Em parecer necessária.

Em fazer a crueldade usar roupa limpa.

Mas naquela tarde havia documentos na mesa, uma foto escrita por Claire, uma gravação ao vivo e uma criança no meu colo chamando-me de pai.

Quando os policiais entraram pela garagem, Rebecca ainda tentou dizer que estava preocupada comigo.

Disse que eu estava instável.

Disse que Hannah era uma oportunista.

Disse que o médico tinha vindo apenas esclarecer uma antiga questão clínica.

Então o meu advogado chegou.

Ele ouviu a gravação.

Viu a seringa recolhida.

Leu a anotação no documento do embrião.

Quando chegou à apólice de vinte milhões de dólares, até ele ficou alguns segundos sem falar.

Rebecca olhou para mim naquele instante.

Não com arrependimento.

Com ódio.

Como se a minha dor fosse uma inconveniência que finalmente tinha aprendido a abrir gavetas.

Nos dias seguintes, a história saiu das minhas mãos e entrou no território frio dos depoimentos, perícias, registros e audiências.

A clínica foi investigada.

O médico perdeu a licença antes mesmo do processo principal avançar.

Hannah prestou depoimento por horas.

Eu fiz exame de DNA com Emma.

Quando o resultado chegou, não havia surpresa.

Probabilidade de paternidade: 99,9999%.

Ainda assim, eu chorei ao ver o número.

Não porque ele me deu uma filha.

Ela já tinha feito isso ao me abraçar no hall.

Chorei porque o papel devolveu ao mundo uma verdade que todos haviam tentado enterrar.

Rebecca tentou negociar.

Tentou dizer que havia agido sob orientação médica.

Tentou insinuar que Claire não estava mentalmente bem no fim.

Foi aí que a última carta de Claire apareceu.

Não estava comigo.

Estava guardada com uma enfermeira particular que a acompanhou nas semanas finais e que, por medo, só se apresentou quando viu a investigação na imprensa local.

Na carta, Claire dizia que desconfiava de Rebecca.

Dizia que tinha ouvido uma conversa entre ela e o médico.

Dizia que, se o bebê sobrevivesse de qualquer forma, queria que eu soubesse.

A última linha me quebrou.

Ela escreveu: Diga a ele que eu não fui embora levando tudo. Diga que deixei alguém para amar de volta.

Durante muito tempo, eu achei que Claire tinha levado o futuro com ela.

Mas Emma estava ali.

Viva.

Barulhenta.

Curiosa.

Com a mesma marca perto da orelha e a mesma teimosia doce nos olhos.

O processo de guarda não foi simples, porque Hannah também era mãe de Emma em todos os sentidos que os anos constroem.

E eu jamais fingiria o contrário.

Hannah tinha acordado em madrugadas de febre.

Hannah tinha ensinado Emma a escovar os dentes.

Hannah tinha segurado a mão dela nos primeiros passos.

Eu era o pai biológico.

Claire era a mãe que sonhou com ela.

Hannah era a mulher que ficou quando todos os outros transformaram Emma em segredo.

No fim, fizemos o que Rebecca nunca entenderia.

Pensamos primeiro na criança.

Emma continuou tendo Hannah como mãe.

E passou a ter a mim como pai.

Não como substituição.

Como verdade acrescentada.

Rebecca foi acusada por fraude, conspiração, falsificação de documentos e outros crimes ligados à apólice e aos registros médicos.

O médico também respondeu por participação no esquema e pela tentativa de intimidação naquela tarde.

Nada disso devolveu os três anos perdidos.

Nenhuma sentença ensina uma criança a lembrar aniversários que nunca aconteceram.

Nenhuma indenização me coloca ao lado de Claire no dia em que Emma nasceu.

Mas algumas justiças não são grandes cenas de tribunal.

Às vezes, justiça é uma menina correndo pelo corredor de manhã com o cabelo bagunçado e gritando “papai” antes do café.

Às vezes, é uma foto de Claire na sala, não mais como memorial de tudo que perdi, mas como testemunha do que sobreviveu.

Às vezes, é Hannah sentada à mesa conosco, cansada, cuidadosa, ainda aprendendo a confiar que ninguém vai arrancar dela a criança que ela amou sozinha.

Emma cresceu sabendo a verdade em palavras adequadas para a idade dela.

Soube que foi muito desejada.

Soube que duas mulheres a amaram de formas diferentes.

Soube que pessoas fizeram coisas erradas para escondê-la, mas que isso nunca foi culpa dela.

No primeiro aniversário que passamos juntos, ela me pediu para contar de novo a história do dia em que entrei em casa com uma mala.

Contei.

Mas não contei como história de susto.

Contei como o dia em que ela me encontrou antes que eu soubesse que estava perdido.

Ela riu quando ouviu que eu deixei a mala cair.

“Você ficou assustado?”

Olhei para ela, para Hannah acendendo as velas, para a foto de Claire perto das flores.

“Fiquei”, respondi.

Emma inclinou a cabeça.

“Mas ficou feliz?”

A garganta apertou.

Eu pensei em Londres, no hall de mármore, no envelope amarelado, na seringa, na voz fria da minha irmã, nos papéis que tentaram transformar uma vida em segredo.

Depois pensei na mão pequena de Emma segurando a minha.

“Mais feliz do que eu sabia que ainda podia ficar”, eu disse.

Ela sorriu.

E, pela primeira vez em três anos, aquela casa não pareceu silenciosa.

Pareceu viva.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *