A Ceia Virou Divórcio, Mas A Assinatura De Renato Mudou Tudo-milee

Durante a ceia de Natal, minha esposa deixou os papéis do divórcio sobre a mesa e a mãe dela soltou: “Assina e deixa minha filha viver”, enquanto 8 parentes aplaudiam minha humilhação; eu só fiquei em silêncio, peguei a pasta e fui embora, sem que eles soubessem quem tinha pagado aquela dívida do hospital.

Marcelo Hernández ainda lembraria daquele cheiro por anos.

Peru assado, arroz temperado, farofa amanteigada, salpicão gelado, café coado esquecido na garrafa térmica e o perfume caro de Valeria se misturando a tudo como se a sala tivesse sido preparada para uma celebração.

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Só que nada naquela noite tinha sido preparado para celebrar.

Tinha sido preparado para encurralá-lo.

A casa dos Villaseñor estava cheia desde cedo.

As luzes da árvore piscavam no canto da sala, os pratos melhores tinham saído do armário, uma toalha clara cobria a mesa, e os parentes falavam alto demais, como sempre acontecia quando queriam fingir que estavam felizes.

Marcelo chegou às 21h08.

Ele sabia o horário porque olhou para o celular antes de entrar pelo portão, ainda tentando decidir se tocava a campainha ou se simplesmente virava as costas.

Não virou.

Cinco anos de casamento fazem isso com uma pessoa.

Mesmo quando algo dentro de você já sabe, o corpo ainda tenta chegar em casa.

Valeria abriu a porta com um sorriso bonito e vazio.

Usava um vestido que Marcelo nunca tinha visto, brincos novos e um perfume que não era dela, pelo menos não da Valeria que ele conhecia.

— Você veio — ela disse.

Não foi carinho.

Foi conferência de presença.

Marcelo entregou a garrafa de sidra que tinha comprado no caminho e tentou beijá-la no rosto.

Ela virou o rosto um centímetro tarde demais para parecer acidente.

Na sala, dona Graciela o cumprimentou com dois dedos no ar, sem levantar do sofá.

Rodrigo fez um comentário baixo que arrancou risada de um primo.

Fernanda olhou para o celular no instante em que Marcelo entrou, como se tivesse recebido instrução de não demonstrar nada.

Seu Ernesto, pai de Valeria, apertou a mão dele com a mesma cordialidade fraca de sempre.

— Feliz Natal, Marcelo.

— Feliz Natal, seu Ernesto.

O homem desviou os olhos primeiro.

Naquela mesa, ninguém era inocente do mesmo jeito.

Alguns tinham planejado.

Alguns tinham aprovado.

Alguns só tinham escolhido não impedir.

Valeria estava distante havia meses.

Primeiro vieram as reuniões que acabavam tarde.

Depois os almoços que viravam tardes inteiras.

Depois o celular virado para baixo, o banho assim que chegava em casa, as respostas secas e aquele jeito novo de rir olhando para a tela.

Marcelo tentou chamar aquilo de fase.

Tentou chamar de cansaço.

Tentou chamar de crise.

É assim que a esperança sobrevive mais do que deveria.

Ela muda o nome das coisas para não ter que enterrá-las.

Renato Ledesma apareceu no casamento deles antes de aparecer pessoalmente.

Apareceu em ligações à meia-noite.

Apareceu em flores “mandadas pela empresa”.

Apareceu em mensagens que Valeria respondia sorrindo.

Apareceu nos perfumes novos, nos jantares que ela dizia serem de trabalho, nas blusas caras que ela fingia comprar em promoção.

Quando Marcelo perguntou, ela se ofendeu.

— Agora eu não posso crescer profissionalmente sem você desconfiar?

Ele pediu desculpas.

Essa foi uma das coisas que mais doeu depois.

Não a traição em si.

O pedido de desculpas por ter visto a verdade cedo demais.

Às 22h37, todos se sentaram para a ceia.

Marcelo ficou na ponta esquerda da mesa, perto da parede, como sempre.

Valeria se sentou no centro, ao lado da mãe.

Aquela escolha deveria ter avisado mais do que avisou.

A taça de sidra dele continuou intacta.

Ele não gostava de beber quando se sentia cercado.

Dona Graciela foi a primeira a começar.

— Marcelo, você continua naquela construtora?

O tom era leve para quem não conhecia.

Para quem conhecia, vinha com lâmina.

— Continuo.

— Que bom. Pelo menos estabilidade você tem.

Rodrigo riu com a boca cheia.

— Estabilidade é uma palavra bonita para quem não sobe nunca.

Algumas pessoas sorriram.

Marcelo cortou um pedaço pequeno do peru e deixou no prato.

Ele tinha aprendido, com o tempo, que responder a Rodrigo era como tentar apagar fogo com álcool.

Valeria não o defendeu.

Não olhou para ele.

Não fingiu constrangimento.

Essa ausência foi a primeira confissão da noite.

Às 22h49, Valeria tocou a taça com a colher.

O som foi fino e claro.

As conversas morreram uma por uma.

Marcelo levantou os olhos.

Valeria estava de pé.

Dona Graciela já sorria antes de qualquer palavra.

— Eu tenho um anúncio — Valeria disse. — Esta noite, finalmente, eu vou começar minha vida de verdade. Eu vou me divorciar do Marcelo.

Por um segundo, Marcelo ouviu apenas a geladeira na cozinha.

Depois vieram as palmas.

Dona Graciela primeiro.

Rodrigo logo depois.

Fernanda, hesitante no começo, mas sorrindo.

Mais duas tias.

Um primo.

Seu Ernesto ergueu a taça, desconfortável, mas não o bastante para parar.

Oito pessoas aplaudiram.

Marcelo contou sem querer.

A mente faz coisas estranhas quando o coração está tentando não cair.

— Já estava na hora, filha — dona Graciela disse, abraçando Valeria pela cintura. — Você merece um homem à sua altura, não alguém que mal sabe obedecer ordem em obra.

Valeria pegou uma pasta bege da cadeira ao lado.

Marcelo olhou para a pasta e entendeu que aquilo não era impulso.

Documento não aparece em ceia por acidente.

Advogado não revisa humilhação de última hora.

Ela colocou os papéis sobre a mesa.

Não colocou com cuidado.

Jogou.

As folhas deslizaram entre a travessa de peru e o salpicão, bateram numa colher e pararam perto da taça intacta de Marcelo.

— São os documentos do divórcio — ela disse. — Meu advogado já revisou. Eu não quero nada seu, Marcelo. Nem seus trocados, nem suas promessas, nem sua pena.

Rodrigo gargalhou.

— Deixa ele, Vale. Vai ver ele ainda acha que um dia vai ser alguém importante.

Fernanda cobriu a boca.

Não para esconder horror.

Para esconder o sorriso.

A sala congelou de uma forma que Marcelo nunca esqueceria.

Garfos ficaram parados no ar.

Uma vela pequena tremia perto da árvore.

A colher caída dentro da travessa fez um barulho mínimo, ridículo, quase educado.

Uma tia olhou para a toalha como se a estampa fosse uma emergência.

Ninguém se levantou.

Ninguém disse o nome dele com pena.

Ninguém mandou Valeria parar.

Às vezes, a crueldade mais clara não vem de quem fala.

Vem de quem assiste e decide que o silêncio ainda lhe convém.

Valeria respirou fundo, como atriz antes da última fala.

— Além disso, Renato me pediu para ir embora com ele. Ele me trata como uma rainha. Ele sabe o quanto eu valho.

O nome atravessou a mesa e pousou no peito de Marcelo sem surpresa.

Renato Ledesma.

Chefe de Valeria.

O homem das flores.

O homem das urgências.

O homem que, segundo Valeria, era apenas exigente, brilhante e muito ocupado.

Dona Graciela apoiou a mão no ombro da filha.

— Renato tem futuro. Tem contatos, dinheiro, presença. Não como você.

Marcelo olhou para ela.

Depois olhou para seu Ernesto.

Depois para Rodrigo.

Depois para Fernanda.

Cada rosto puxava uma lembrança que eles não sabiam que existia.

Dois anos antes, seu Ernesto tinha adoecido.

A família falou em fé, em força e em união, mas o que chegou de verdade foi conta.

Conta de hospital.

Conta de exame.

Conta de remédio.

Conta que dona Graciela escondia no fundo da gaveta da cozinha e fingia não ver.

Valeria chorou no banheiro naquela época.

Marcelo a encontrou sentada no chão, abraçada aos joelhos.

— Eu não sei como ajudar meu pai — ela disse.

Marcelo não prometeu nada naquela noite.

No dia seguinte, às 8h13, ele ligou para um contato da fundação social vinculada à construtora.

Às 18h42 de uma sexta-feira, a autorização interna foi aprovada.

Na segunda-feira seguinte, a dívida foi quitada.

O recibo entrou numa pasta azul.

O nome de Marcelo não apareceu para a família.

Ele pediu assim.

Valeria achou que tinha sido um milagre administrativo.

Dona Graciela disse que Deus tinha mandado uma solução.

Marcelo ficou calado.

Ele também ficou calado quando indicou Rodrigo para uma vaga numa empresa de desenvolvimento imobiliário.

Rodrigo tinha perdido duas oportunidades por chegar atrasado, mentir em currículo e culpar todo mundo.

Marcelo ligou para um gerente que confiava nele e pediu que dessem ao cunhado uma última chance.

Rodrigo nunca soube.

Ou soube e preferiu fingir que não.

Fernanda também devia uma porta a Marcelo.

Ela queria entrar em marketing, mas tinha mais pose do que experiência.

Marcelo revisou o currículo dela numa madrugada, corrigiu frases, indicou um processo seletivo e falou com uma coordenadora que precisava de alguém júnior.

Quando Fernanda foi contratada, dona Graciela disse que a filha sempre tinha tido brilho próprio.

Marcelo concordou.

Era mais fácil amar aquela família quando ele fingia que amor não precisava de memória.

E dona Graciela, a mulher que agora o chamava de fracassado, não sabia que três prestações atrasadas da casa tinham sido cobertas por intermédio dele.

Não por vaidade.

Não por controle.

Por família.

Ou pelo que ele pensava que era família.

Marcelo se levantou devagar.

O barulho da cadeira contra o piso fez algumas pessoas piscarem.

Ele pegou os papéis.

Abotoou o paletó escuro.

Valeria sempre dizia que aquele paletó o deixava com cara de contador triste.

Naquela noite, ele pareceu apenas sóbrio.

— Eu espero que a vida que você escolheu trate você exatamente como você me tratou — ele disse.

Valeria revirou os olhos.

— Que dramático.

Rodrigo bateu palma mais uma vez, como se encerrasse um show.

Marcelo caminhou até a porta.

Atrás dele, a casa voltou a respirar.

Não de vergonha.

De alívio.

Ele saiu para a noite fria.

As luzes de Natal das casas vizinhas piscavam no portão, indiferentes.

Fogos estouraram ao longe.

Marcelo entrou no carro e fechou a porta sem bater.

Só então permitiu que a mão tremesse.

Não muito.

O bastante.

No banco do passageiro, ele colocou a pasta do divórcio sobre a pasta azul que tinha levado sem saber por quê.

Talvez soubesse.

Talvez alguma parte dele tivesse entendido, antes do resto, que aquela noite não terminaria na ceia.

Ele abriu a pasta azul.

O recibo da dívida do hospital estava lá.

A autorização da fundação também.

O relatório de auditoria preliminar ficava logo abaixo.

Esse relatório era recente.

Muito recente.

Onze dias antes, Marcelo tinha recebido uma mensagem de um contador da fundação dizendo que havia um repasse antigo com inconsistência de destino.

Não era grande o bastante para chamar atenção de todo mundo.

Era grande o bastante para alguém cuidadoso notar.

Marcelo era cuidadoso.

O relatório mostrava a saída de um valor vinculado ao apoio hospitalar de seu Ernesto.

Mostrava uma correção posterior.

Mostrava uma empresa intermediária.

Mostrava uma conta.

E no campo de responsabilidade financeira aparecia um nome que Valeria tinha acabado de jogar sobre a mesa como troféu.

Renato Ledesma.

Marcelo leu duas vezes.

Depois três.

Não porque duvidasse.

Porque algumas verdades têm o peso de uma parede caindo, e o corpo demora para aceitar que não há como segurá-la.

Dentro da casa, as risadas continuavam.

Pela janela, Marcelo viu Valeria de pé, recebendo abraços.

Dona Graciela servia sidra.

Rodrigo fazia gestos largos, provavelmente repetindo a parte em que Marcelo tinha ido embora sem reagir.

Fernanda foi a primeira a olhar para fora.

Ela viu a luz do celular de Marcelo.

Viu a pasta aberta.

Viu que ele não estava destruído do jeito que esperavam.

Ela empalideceu.

Marcelo saiu do carro.

Caminhou de volta pelo pequeno caminho até a porta.

Não bateu.

Entrou.

A conversa morreu de novo, mas dessa vez sem risos.

Valeria estava com uma taça na mão.

Dona Graciela ainda sorria.

O sorriso durou até Marcelo colocar a segunda folha sobre a mesa.

Bem em cima dos papéis do divórcio.

— O que é isso? — Valeria perguntou.

A voz dela perdeu um pouco do verniz.

Marcelo não respondeu de imediato.

Ele deixou que eles lessem o cabeçalho.

Relatório de auditoria preliminar.

Repasse vinculado a quitação hospitalar.

Responsável financeiro: Renato Ledesma.

Seu Ernesto se inclinou sobre a mesa.

A mão dele começou a tremer antes de alcançar a folha.

— Minha dívida do hospital? — ele perguntou.

Dona Graciela ficou parada.

Rodrigo franziu a testa.

Fernanda levou a mão à boca, agora sem sorriso algum.

Valeria olhou para o nome de Renato como se ele pudesse mudar se ela encarasse tempo suficiente.

— Marcelo — ela disse baixo. — Isso não é o que parece.

Essa frase quase fez Marcelo rir.

Não por humor.

Por cansaço.

Pessoas culpadas adoram essa frase porque ela não nega nada.

Só pede mais tempo para reorganizar a mentira.

— Então explica — ele disse.

Valeria abriu a boca.

Nada saiu.

Dona Graciela puxou a folha.

— Você está tentando estragar a noite da minha filha com papel falso?

— A senhora quer falar de papel falso? — Marcelo perguntou.

Ele tirou outra cópia da pasta.

Dessa vez, era o comprovante de quitação da dívida hospitalar.

Seu Ernesto reconheceu o número do atendimento antes de reconhecer qualquer outra coisa.

— Esse é meu protocolo — ele disse.

A sala pareceu diminuir.

Marcelo apontou para a data.

— Essa dívida foi paga dois anos atrás. Não por milagre. Não por Renato. Não por nenhum contato da família. Foi quitada por meio da fundação ligada à empresa onde eu trabalho.

Dona Graciela ficou vermelha.

— Você está dizendo que foi você?

— Estou dizendo que eu pedi que meu nome não aparecesse porque achei que ajudar sem humilhar era o mínimo que uma família merecia.

Rodrigo parou de sorrir completamente.

Fernanda sentou devagar, como se as pernas tivessem perdido função.

Seu Ernesto levou a mão ao peito.

— Valeria sabia?

Marcelo olhou para a esposa.

Esse silêncio foi maior que qualquer resposta.

Valeria apertou a taça.

— Eu soube depois.

— Depois quando? — seu Ernesto perguntou.

Ela não respondeu.

Marcelo colocou o dedo no relatório.

— A questão é que o valor passou por uma conta intermediária antes de ser regularizado. E essa conta tem ligação com uma empresa usada por Renato.

Dona Graciela piscou rápido.

— Não. Renato é um homem sério.

— Renato é o homem que sua filha escolheu para exibir nesta mesa — Marcelo disse. — E talvez seja melhor perguntar a ela por que ele mandou flores no mesmo dia em que esse dinheiro sumiu.

Valeria sentou.

Não foi escolha.

Foi queda controlada.

A taça bateu no prato.

Sidra derramou na toalha clara e começou a alcançar a borda dos papéis do divórcio.

Ninguém riu.

Ninguém aplaudiu.

Seu Ernesto pegou o relatório com cuidado.

— Filha — ele disse, e a palavra saiu machucada. — Você sabia que esse homem tinha mexido com dinheiro do meu tratamento?

Valeria chorou antes de responder.

Marcelo já tinha visto aquele choro.

Era o mesmo choro do banheiro, dois anos antes.

Só que agora ele não tinha certeza se era medo pelo pai ou medo de ser descoberta.

— Renato disse que era uma movimentação temporária — ela sussurrou. — Disse que ia devolver antes que alguém notasse.

Dona Graciela cambaleou um passo.

Rodrigo falou primeiro.

— Você sabia?

Valeria olhou para ele com raiva.

— Você não entende.

— Eu não entendo? — Rodrigo perguntou. — Você trouxe esse cara para dentro da nossa família e deixou todo mundo aplaudir o Marcelo?

A ironia quase teve gosto.

Marcelo não precisou apontá-la.

Fernanda começou a chorar em silêncio.

— Meu emprego… — ela disse.

Rodrigo virou para ela.

— O que tem seu emprego?

Marcelo respirou fundo.

Aquela era a parte que ele não queria usar.

Mas a noite já tinha sido escolhida por Valeria.

Ele só estava terminando a verdade.

— Você foi indicada por mim, Fernanda.

Ela fechou os olhos.

— Eu sei.

Rodrigo virou lentamente.

— Você sabia?

Fernanda assentiu sem olhar para ninguém.

— Descobri depois. Nunca contei porque… porque a mãe dizia que ele não precisava se achar grande coisa.

Dona Graciela levou a mão à garganta.

O império moral dela começou a rachar por dentro.

Marcelo olhou para Rodrigo.

— E você foi contratado porque eu pedi a um gerente que confiasse em mim. Ele não queria te entrevistar.

Rodrigo abriu a boca, fechou, depois empurrou a cadeira para trás.

— Mentira.

— Posso mostrar o e-mail.

Rodrigo não pediu.

Esse foi o pedido.

Seu Ernesto se levantou com dificuldade.

O rosto dele parecia dez anos mais velho.

— Graciela, você sabia das prestações da casa?

A pergunta caiu pesada.

Dona Graciela não respondeu.

Marcelo não precisava completar.

Mas completou.

— Três parcelas. Cobertas sem meu nome. Porque Valeria me pediu para não deixar a senhora passar vergonha.

A mulher que o tinha chamado de fracassado encarou a mesa.

A vergonha, quando finalmente chega, quase nunca faz barulho.

Ela só apaga o rosto.

Valeria se levantou de novo, tentando recuperar altura.

— Você está fazendo isso por vingança.

Marcelo guardou os papéis com calma.

— Não. Vingança teria sido eu deixar seu pai perder tratamento, seu irmão perder emprego, sua irmã perder oportunidade e sua mãe perder a casa.

Ninguém respirou direito.

— Isso — ele continuou — é só prestação de contas.

Às 23h31, Renato ligou.

O celular de Valeria vibrou sobre a mesa.

O nome apareceu grande na tela.

Renato.

Todos viram.

Valeria tentou pegar o aparelho, mas seu Ernesto foi mais rápido.

Ele atendeu no viva-voz.

— Valeria? — Renato disse. — Já assinou? Preciso saber se o Marcelo levou a pasta errada.

A sala inteira ficou imóvel.

Marcelo fechou os olhos por um segundo.

Ali estava.

Não suspeita.

Não interpretação.

Voz.

Renato continuou, impaciente:

— A cópia do relatório não podia estar com ele. Você tinha que tirar isso antes.

Dona Graciela soltou um som pequeno.

Fernanda começou a chorar de verdade.

Rodrigo levou as duas mãos à cabeça.

Seu Ernesto olhou para a filha como se a doença antiga tivesse voltado de outro jeito.

Valeria arrancou o celular da mão do pai e desligou.

Tarde demais.

Marcelo já tinha ativado a gravação no próprio aparelho quando entrou pela segunda vez.

Ele não disse isso de imediato.

Apenas colocou o celular dele sobre a mesa.

A tela mostrava o ponto vermelho.

Gravando.

— Você gravou? — Valeria perguntou.

— Desde a sua segunda tentativa de me humilhar.

Dona Graciela sentou devagar.

Sem discurso.

Sem pose.

Sem aplauso.

A mulher que minutos antes exigia assinatura agora parecia não saber o que fazer com as próprias mãos.

Seu Ernesto pegou os papéis do divórcio e os afastou da sidra derramada.

Depois empurrou tudo de volta para Valeria.

— Você vai me contar tudo — ele disse. — Agora.

— Pai…

— Tudo.

Valeria olhou para Marcelo.

Pela primeira vez naquela noite, não havia desprezo no olhar dela.

Havia cálculo.

Medo.

Talvez um pedido.

Mas Marcelo já tinha aprendido a diferença entre arrependimento e pânico.

Arrependimento olha para o dano.

Pânico olha para a consequência.

Ele pegou sua pasta.

— O divórcio eu assino — disse. — Mas não hoje, não nesta mesa e não com o advogado que Renato escolheu.

Valeria tremeu.

— Marcelo, por favor.

A palavra “por favor” chegou tarde.

Chegou depois dos aplausos.

Depois da mãe dela.

Depois de Renato.

Depois dos documentos jogados entre pratos de Natal.

Marcelo caminhou para a porta uma segunda vez.

Dessa vez, ninguém riu.

Dona Graciela levantou a cabeça.

— Marcelo.

Ele parou.

Ela tentou falar alguma coisa.

Talvez desculpa.

Talvez defesa.

Talvez mais uma mentira com roupa de orgulho.

Nada saiu.

Ele olhou para ela com a mesma calma que tinha usado a noite inteira.

— A senhora disse que sua filha não nasceu para carregar um fracassado.

Dona Graciela chorou sem som.

— Talvez esteja certa — ele disse. — Mas eu também não nasci para carregar uma família que me aplaude sangrando.

Ele saiu.

Do lado de fora, os fogos começaram mais fortes.

Meia-noite estava perto.

No carro, Marcelo enviou três arquivos para seu advogado.

O relatório.

O recibo da dívida.

A gravação.

Depois enviou uma mensagem curta ao contato da fundação, pedindo abertura formal de apuração.

Às 00h07, recebeu apenas uma resposta.

“Entendido. Não fale mais com Renato sem registro.”

Marcelo largou o celular no banco e respirou pela primeira vez como alguém que tinha saído de uma sala em chamas.

Nos dias seguintes, a versão que Valeria tentou contar não durou.

Renato tentou dizer que era mal-entendido contábil.

A auditoria mostrou movimentação irregular.

Valeria tentou dizer que não sabia.

A gravação da ligação e as mensagens recuperadas mostraram que ela sabia o bastante para tentar tirar a pasta de Marcelo.

Dona Graciela tentou ligar dezesseis vezes.

Marcelo não atendeu.

Seu Ernesto mandou uma única mensagem.

“Eu não sabia. E isso não muda o que permiti naquela mesa. Me desculpe.”

Marcelo leu.

Não respondeu naquele dia.

Algumas desculpas precisam chegar, mas não têm direito de exigir entrada imediata.

Rodrigo apareceu no prédio da construtora uma semana depois.

Queria falar.

Queria explicar.

Queria dizer que tinha sido levado pelo clima.

Marcelo recusou a visita na recepção.

Fernanda mandou um e-mail longo, admitindo que sabia da indicação e que se calou por covardia.

Esse, Marcelo respondeu com uma frase.

“Use a oportunidade melhor do que usou a verdade.”

O divórcio não foi assinado naquela noite.

Foi assinado meses depois, no cartório, com advogados diferentes, cláusulas revisadas e nenhuma plateia batendo palma.

Valeria chegou sem Renato.

Marcelo não perguntou por quê.

Ele já sabia que homens como Renato gostavam de mulheres quando elas vinham com admiração, não com investigação.

Quando tudo começou a feder a relatório, ele se afastou.

Valeria emagreceu.

Dona Graciela envelheceu.

Seu Ernesto passou a ir às consultas sem deixar a filha cuidar de documentos.

A casa que naquela noite parecia um palco de vitória ficou conhecida, dentro da família, como o lugar onde todos descobriram o preço de uma risada.

Marcelo não saiu dali rico de satisfação.

Não existe vitória limpa quando o que você perde é a família que pensou ter construído.

Mas saiu inteiro.

E isso já era mais do que eles tinham deixado para ele naquela mesa.

Anos depois, quando alguém perguntava por que ele tinha ficado tão calado durante a humilhação, Marcelo nunca dizia que foi fraqueza.

Também não dizia que foi estratégia.

Ele dizia apenas que, naquela noite, entendeu uma coisa simples.

Quem precisa aplaudir sua queda geralmente ainda não percebeu que está sentado sobre tudo o que você sustentava.

E, na ceia em que tentaram transformá-lo em vergonha, Marcelo finalmente deixou de carregar uma família que só o reconheceu quando começou a cair.

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