Wren Holt acreditava que números eram as únicas coisas no mundo honestas o bastante para merecer confiança.
Não porque números fossem bondosos.
Eles não eram.

Números não consolavam ninguém às duas da manhã, não pediam desculpa, não seguravam uma mão no hospital, não juravam que tudo ficaria bem.
Mas também não fingiam.
Eles ficavam ali, alinhados em colunas, frios, pacientes, esperando que alguém tivesse coragem de olhar direito.
Wren tinha construído a vida inteira em cima dessa pequena fé.
Pessoas mentiam.
Contratos mentiam com fonte elegante e assinatura no fim.
Famílias mentiam chamando egoísmo de preocupação.
Homens mentiam com a voz baixa e os olhos molhados, como se o sentimento por trás da mentira diminuísse o estrago.
Mas números deixavam rastros.
Sempre.
Às 23h30 de uma terça-feira, o escritório estava quase vazio.
Só a luz fria do andar contábil ainda tremia sobre carpetes cinza, copos de café esquecidos e uma impressora que fazia pequenos estalos como se estivesse tentando respirar.
A chuva batia contra as janelas altas.
Wren estava sentada diante de uma planilha da Meridian Collective havia cinco horas.
Não era uma auditoria simples.
Nada na Meridian era simples.
As transferências tinham sido fragmentadas em valores pequenos demais para assustar um gerente distraído, grandes demais para serem acidente, e distribuídas entre fornecedores com nomes genéricos, contratos quase idênticos e datas que pareciam aleatórias até serem colocadas lado a lado.
Wren já tinha marcado oito lançamentos.
Depois do nono, parou de beber café.
Depois do décimo terceiro, abriu uma pasta separada chamada revisão interna.
Depois do décimo sétimo, começou a copiar tudo para um arquivo protegido.
Ela reconstruiu o fluxo como quem reconstitui uma cena de crime.
Data.
Origem.
Conta intermediária.
Assinatura.
Aprovação.
Quem olhava de fora via apenas dinheiro se movendo.
Wren via intenção.
Foi então que o celular vibrou.
Kayla.
O nome da irmã apareceu na tela como uma coisa pequena e familiar demais para combinar com aquela hora.
Kayla nunca mandava mensagem tarde sem precisar de algo.
Às vezes era dinheiro.
Às vezes era pena.
Quase sempre era atenção vestida com uma urgência que desaparecia depois que Wren resolvia tudo.
Durante anos, Wren tinha sido a irmã que consertava.
A que emprestava o cartão quando Kayla estourava o limite.
A que revisava currículos, apagava mensagens ruins antes que fossem enviadas, buscava de carro depois de brigas que Kayla começava e chamava de mal-entendido.
Quando Brett entrou na vida de Wren, Kayla foi a primeira pessoa a ganhar uma cópia da chave do apartamento para “emergências”.
A confiança tinha sido esse o erro.
Nem sempre a traição arromba a porta.
Às vezes ela entra usando a chave que você entregou.
A mensagem tinha uma linha.
Só queria que você soubesse por mim primeiro.
Havia uma foto anexada.
Wren tocou na imagem.
Por um segundo, a mente dela se recusou a obedecer.
O restaurante da Meridian apareceu na tela com suas luzes quentes, mesas pequenas, guardanapos brancos dobrados com precisão e aquele canto perto da janela onde Brett tinha pedido a sobremesa que ela nunca conseguiu terminar porque ele segurou sua mão e disse que queria para sempre.
Wren ainda lembrava do cheiro de manteiga quente.
Lembrava do som do garfo dele batendo no prato quando ficou nervoso.
Lembrava da frase exata.
Eu escolho você, Wren.
Na foto, Brett estava sentado naquela mesma mesa.
Do outro lado, Kayla ria.
O cabelo loiro caía sobre um ombro.
A mão dela atravessava a mesa.
Os dedos estavam entrelaçados nos dele.
Não de um jeito casual.
Não de um jeito que pudesse ser explicado como apoio, brincadeira, coincidência ou ângulo ruim.
Era posse.
Wren ampliou a imagem.
Brett usava a camisa azul que ela havia passado de manhã.
Kayla usava os brincos de pérola que Wren tinha dado no aniversário dela.
No canto inferior da foto, havia uma taça de vinho tinto já quase vazia.
Na tela do celular de Wren, a vida que ela pensava ter construído parecia uma fraude de baixa qualidade.
Ela não gritou.
Não ligou para Brett.
Não ligou para Kayla.
Apenas fechou o notebook, salvou a cópia protegida da auditoria, colocou o casaco e saiu.
No elevador, ela encarou o próprio reflexo nas portas metálicas.
O rosto estava imóvel.
Isso a incomodou mais do que lágrimas teriam incomodado.
Na garagem, o ar cheirava a gasolina, concreto molhado e chuva entrando pelas rampas.
Wren entrou no sedã cinza e ficou um instante com as mãos no volante.
O celular vibrou de novo.
Dessa vez, Brett.
Ela não olhou.
Dirigiu.
Sete quarteirões depois, encontrou um bar com uma placa gasta que dizia THE ANCHOR, embora duas letras estivessem queimadas.
Parecia o tipo de lugar onde ninguém pediria explicação para uma mulher sozinha à meia-noite.
Era exatamente o que ela precisava.
Dentro, o ar era grosso.
Uísque velho, concreto úmido, limão químico do produto de limpeza e o cansaço de gente que já tinha desistido de parecer inocente.
A televisão passava beisebol sem som.
O barman limpava um copo que já brilhava.
Três homens ocupavam uma mesa no fundo e falavam baixo demais.
Wren sentou no terceiro banco a partir do fim.
Pediu uísque.
Não porque gostasse.
Porque vinho parecia delicado demais para aquela noite.
Enquanto o líquido queimava a garganta, ela começou a fazer o que sempre fazia quando o mundo ficava insuportável.
Calculou.
Brett e Kayla tinham pelo menos quatro meses.
Talvez mais.
A mensagem de fevereiro que Kayla apagou rápido demais quando Wren pegou o celular dela por engano.
O jantar que Brett cancelou por causa de uma “reunião de última hora”.
A pergunta de Kayla duas semanas antes, feita com uma doçura estranha: você tem certeza de que ele te faz feliz?
Preocupação de verdade não tem fome.
Aquela tinha.
“Você parece estar calculando alguma coisa desagradável.”
A voz veio de dois bancos adiante.
Wren não olhou.
“Estou calculando várias.”
“Alguma que deva me preocupar?”
Aí ela virou o rosto.
O homem não pertencia ao The Anchor.
Isso foi a primeira coisa que Wren percebeu.
O paletó escuro tinha caimento impecável.
Os sapatos não tinham marca de lama, embora a rua lá fora estivesse encharcada.
O cabelo era escuro, com prata nas têmporas.
Uma cicatriz cortava a sobrancelha esquerda com uma precisão que parecia quase desenhada.
Mas o detalhe que mais incomodou Wren foi a quietude dele.
Algumas pessoas ficam quietas porque não têm nada a dizer.
Ele ficava quieto como se o resto da sala estivesse falando demais.
“Não é problema seu”, ela disse.
“Provavelmente não.”
“Você observa desconhecidos sempre?”
“Observo detalhes.”
O olhar dele caiu por meio segundo no celular dela, virado para baixo ao lado do copo.
“Necessidade profissional.”
“Que profissão?”
Ele ergueu o copo.
“Aquela em que detalhes salvam tempo.”
“Ou vidas?”
O canto da boca dele quase se moveu.
“Às vezes.”
Ela deveria ter parado ali.
Mas a raiva dá coragem falsa.
E a humilhação cria uma espécie de imprudência elegante, do tipo que faz uma mulher traída conversar com um homem perigoso apenas porque ele não parece interessado em consolá-la.
Eles falaram sobre o jogo sem som.
Sobre como terça-feira era um dia sem dignidade.
Sobre a diferença entre uísque e bourbon.
Ele disse que bourbon era para quem ainda queria acreditar em doçura.
Ela disse que números eram melhores que pessoas.
Ele perguntou se ela trabalhava com números.
“Contadora forense”, ela respondeu.
“Então você encontra mentiras.”
“Não. Eu encontro o custo delas.”
Dessa vez, ele sorriu de verdade por meio segundo.
“Interessante.”
“Você tem nome?”
“Todo mundo tem.”
“Isso não foi uma resposta.”
“Foi uma resposta segura.”
O barman ficou imóvel.
Foi sutil.
Um segundo antes, ele limpava o copo.
No segundo seguinte, a mão dele parou no mesmo ponto do vidro.
Wren viu antes de entender.
A porta dos fundos abriu.
Dois homens entraram.
Não olharam o cardápio.
Não olharam as garrafas.
Não olharam para as mesas.
Os olhos deles foram direto para o homem ao lado de Wren.
O ar mudou.
Não como nos filmes, com música e ameaça explícita.
Mudou de um jeito pior.
O silêncio ganhou peso.
Uma bola de gelo estalou dentro de um copo no fundo do bar, e três pessoas fingiram não ouvir.
O homem ao lado de Wren não se virou.
Apenas disse, baixo: “Vá até a saída dos fundos. Vire à esquerda. Continue andando.”
Wren sentiu o pulso bater no pescoço.
“Como é?”
“Aqueles homens não vieram beber.”
“Você está em perigo?”
Ele olhou para ela com atenção inteira.
Aquele olhar não pedia confiança.
Media risco.
“Não”, ele disse. “Mas testemunhas podem ser inconvenientes.”
Wren quase riu.
Quase.
Porque havia alguma coisa absurda em ser traída pela irmã e pelo noivo, entrar no bar errado e receber instruções de evacuação de um homem com cicatriz no rosto.
Mas o barman ainda não tinha voltado a respirar direito.
Então ela pegou o celular, levantou e caminhou.
A saída dos fundos dava para um beco estreito.
A chuva caía fina, fria e persistente.
O cheiro de lixo molhado subiu como um tapa.
Wren virou à esquerda e parou ao lado de uma lixeira metálica, os dedos tremendo ao redor do celular.
A primeira ideia foi ligar para a polícia.
A segunda foi perceber que não saberia dizer quem era a vítima.
A terceira foi lembrar do arquivo protegido no notebook.
Meridian Collective.
Dezessete lançamentos suspeitos.
Três fornecedores sem endereço verificável.
Duas assinaturas repetidas em aprovações diferentes.
Um padrão que tinha começado pequeno e ficado ousado demais.
Ela olhou para a tela do celular.
Brett tinha mandado cinco mensagens.
Kayla, duas.
Nenhuma delas importava.
Cinco minutos se passaram.
A porta abriu.
O homem saiu sozinho.
Intacto.
Composto.
Um pouco irritado com a chuva.
“Você ainda está aqui.”
“Eu estava decidindo se chamava a polícia.”
“Eu preferiria que não chamasse.”
“Imaginei.”
Ele deu dois passos para longe da porta.
A luz branca do bar desenhou a cicatriz na sobrancelha dele e deixou a expressão mais dura.
“Você deveria ir para casa.”
“Você deveria responder perguntas.”
“Raramente faço o que deveria.”
“Percebi.”
A chuva escorreu pela gola do casaco dela.
Wren cruzou os braços.
“Que foi aquilo?”
“Uma negociação.”
“Num bar à meia-noite?”
“Ambientes incomuns mantêm as pessoas honestas.”
Ela soltou uma risada curta e sem humor.
“Eu reconstruo dinheiro roubado para viver. Tenho uma tolerância bem alta para coisas que não fecham.”
“E o que não fecha aqui?”
“Você. Esses homens. O barman apavorado. O fato de você ter saído sem um arranhão.”
“Talvez eu seja bom em negociar.”
“Talvez você seja bom em fazer pessoas desaparecerem.”
O silêncio que veio depois não confirmou nada.
Também não negou.
Então o celular dele vibrou.
Ele olhou para a tela.
Por uma fração de segundo, Wren viu o nome no topo.
Meridian Collective.
O mundo ficou pequeno.
Não o bar.
Não o beco.
Não a chuva.
Só aquele nome, brilhando na mão de um homem que claramente não fazia parte da auditoria oficial.
“Por que você está recebendo mensagens da empresa que eu audito?”
Ele escureceu a tela.
Tarde demais.
Wren já tinha visto a primeira linha.
A CONTADORA ENCONTROU A PRIMEIRA PORTA. DECIDA SE ELA…
“Me dê o telefone”, ela disse.
“Não.”
“Então me diga quem é você.”
Ele a encarou por tempo suficiente para ela entender que a resposta mudaria tudo.
“Cassian Vale.”
O nome não significava nada para ela de imediato.
Mas o jeito como o barman, que acabara de surgir na porta, parou ao ouvi-lo, significou.
O barman segurava um envelope pardo.
As bordas estavam molhadas.
O rosto dele tinha perdido toda a cor.
“Disseram para entregar se ela ainda estivesse aqui”, ele murmurou.
Wren olhou para o envelope.
Na frente, escrito à mão, estava o nome dela.
WREN HOLT — AUDITORIA 11:30 PM.
Traição tem cheiro de vinho e mentira.
Perigo tem cheiro de papel molhado.
Ela pegou o envelope.
Cassian não tentou impedir.
Isso assustou Wren mais do que se ele tivesse arrancado o papel da mão dela.
Dentro havia uma cópia de transferência bancária.
Valor fragmentado.
Conta intermediária.
Carimbo de aprovação.
E uma assinatura que não deveria estar ali.
Kayla Holt.
Por um segundo, Wren esqueceu o ar.
Kayla não era apenas a irmã na foto.
Não era apenas a mulher sentada com Brett na mesa onde Wren tinha acreditado em para sempre.
Kayla estava em uma linha financeira da Meridian Collective.
Uma linha que Wren tinha marcado mais cedo.
Uma linha que alguém já sabia que ela tinha encontrado.
“Ela trabalha para eles?”, Wren perguntou.
A voz saiu baixa demais.
Cassian olhou para o papel.
“Não oficialmente.”
“E Brett?”
“Brett gosta de parecer mais limpo do que é.”
A frase entrou nela devagar.
Brett.
Kayla.
Meridian.
A foto não tinha sido confissão.
Tinha sido distração.
Ou aviso.
Ou isca.
Wren olhou de novo para o documento.
O carimbo vinha de uma aprovação interna datada de três meses antes.
A mesma semana em que Brett cancelara a viagem de fim de semana porque precisava “ajudar um cliente”.
A mesma semana em que Kayla pedira para dormir no apartamento de Wren porque estava “com medo de ficar sozinha”.
A mesma semana em que Wren, cansada e com pena, deixara o notebook aberto na mesa da sala enquanto tomava banho.
A confiança tinha sido esse o erro.
A frase voltou como uma sentença.
“Eles usaram meu acesso”, Wren disse.
Cassian não respondeu.
Não precisava.
Ela começou a rir.
Não de humor.
De choque.
De uma raiva tão limpa que parecia gelo.
“Minha irmã mandou uma foto dela com meu noivo para me tirar do escritório.”
“Sim.”
“Porque eu estava perto demais.”
“Sim.”
“E você?”
Cassian levantou os olhos.
“O que tem eu?”
“Você estava naquele bar por coincidência?”
A chuva ficou mais forte por alguns segundos, batendo na tampa metálica da lixeira como dedos impacientes.
“Não acredito em coincidência”, ele disse.
“Eu também não.”
Wren dobrou o documento uma vez, com cuidado.
O gesto pareceu pequeno, mas mudou a posição dela no beco.
Até então, ela era a mulher traída, molhada de chuva, segurando provas que não entendia.
Agora era a contadora olhando para um livro-caixa aberto.
E todo livro-caixa podia ser equilibrado.
“Eles acham que eu encontrei a primeira porta”, ela disse.
Cassian assentiu.
“Quantas existem?”
“Três.”
“E atrás da terceira?”
O rosto dele ficou imóvel.
“Gente que mata para não ser auditada.”
Wren deveria ter ido embora naquele momento.
Deveria ter entregado tudo às autoridades, voltado para casa, trocado as fechaduras, bloqueado a irmã e deixado que pessoas com armas lidassem com pessoas armadas.
Mas a vida dela tinha acabado de ser desmontada por gente que a conhecia o bastante para usar seu amor contra ela.
Kayla conhecia suas senhas antigas.
Brett conhecia sua rotina.
Alguém na Meridian conhecia seu horário, seus arquivos, sua presença no escritório e o minuto exato em que ela saiu.
Isso não era traição romântica.
Era uma operação.
E operações deixavam rastros.
“Preciso do restante”, ela disse.
Cassian pareceu quase decepcionado.
“Você não sabe o que está pedindo.”
“Sei exatamente.”
“Não. Você sabe planilhas.”
“Planilhas são confissões para quem sabe ler.”
O barman recuou para dentro do bar e fechou a porta devagar.
O beco ficou só com os dois, a chuva e o envelope.
Cassian enfiou a mão no bolso interno do paletó e tirou outro papel.
Dessa vez, não entregou.
Apenas segurou entre os dedos.
“Meridian não é uma empresa”, ele disse.
“É o quê?”
“Uma fachada que esqueceu que fachadas também precisam fechar balanço.”
Wren olhou para o papel.
Ela reconheceu o formato antes mesmo de ler.
Relatório de transferência.
Mas havia um nome de conta no topo.
O mesmo fornecedor genérico que ela tinha marcado como anomalia às 21h47.
Aquele tinha sido o primeiro fio.
“Você sabia que eu encontraria isso”, ela disse.
“Eu esperava.”
“Você me usou.”
“Sim.”
A honestidade foi tão direta que doeu de um jeito diferente.
Brett teria explicado.
Kayla teria chorado.
Cassian apenas confirmou.
“Por quê?”
“Porque eles acreditavam que você era cuidadosa demais para ser corrupta e pequena demais para ser perigosa.”
“E você?”
“Eu acredito que pessoas subestimadas são úteis.”
Wren deu um passo mais perto.
“Eu não sou ferramenta sua.”
“Não.”
Cassian colocou o segundo documento na mão dela.
“Mas talvez seja a primeira pessoa em meses que consegue ler isso sem morrer antes de entender.”
As mãos de Wren não tremiam mais.
Ela abriu o papel.
Leu a primeira linha.
Depois a segunda.
Depois parou na terceira.
Porque ali, entre o nome da conta, a data e a aprovação, havia uma anotação curta, digitada no campo de observação.
K.H. confirmou acesso via B.M.
Kayla Holt.
Brett Mason.
Os dois nomes, reduzidos a iniciais, dentro de um esquema que não tinha nada de paixão.
Nada de acidente.
Nada de foto enviada por culpa.
Wren viu a própria vida como uma planilha aberta.
Cada gesto carinhoso tinha sido uma permissão.
Cada pedido de ajuda, uma coleta.
Cada beijo de Brett, talvez uma senha observada por cima do ombro.
Cada lágrima de Kayla, talvez uma forma de entrar na casa dela.
Pessoas mentiam.
Contratos mentiam.
Mas números ficavam.
E aqueles números tinham acabado de apontar para a família dela.
“Você tem escolha”, Cassian disse.
“Tenho?”
“Vai embora agora, eu faço você desaparecer por alguns dias.”
“Ou?”
“Ou você termina o que começou.”
Wren olhou para a saída do beco.
A rua principal estava a poucos metros.
Havia carros passando.
Gente normal indo para casa.
Em algum lugar, Brett provavelmente ensaiava desculpas.
Em algum lugar, Kayla talvez esperasse que Wren ligasse chorando.
A parte antiga de Wren queria isso.
Queria uma explicação, uma cena, uma pergunta inútil como como você pôde.
Mas a parte dela que tinha passado anos seguindo dinheiro roubado sabia que perguntas emocionais raramente rendem respostas úteis.
Documentos rendem.
Registros rendem.
Horários rendem.
Assinaturas rendem.
Às 00h12, Wren tirou uma foto do documento com seu próprio celular.
Às 00h13, encaminhou para o e-mail protegido que usava apenas para trabalho.
Às 00h14, desligou a sincronização automática.
Cassian observou tudo sem interromper.
Quando ela terminou, ele disse: “Você acabou de tornar mais difícil matarem você em silêncio.”
“Ótimo.”
“Não significa que não vão tentar.”
“Eu sei.”
Pela primeira vez naquela noite, Wren pensou na foto de Kayla e Brett sem sentir a primeira dor.
A dor ainda estava lá.
Mas agora havia algo por cima.
Frieza.
Foco.
Uma espécie de alívio cruel.
Brett tinha escolhido a mulher errada para trair.
Kayla tinha escolhido a irmã errada para subestimar.
E a Meridian tinha escolhido a contadora errada para assustar.
Cassian abriu a porta dos fundos do bar novamente.
“Há uma sala nos fundos”, ele disse. “Sem câmeras. Sem janelas. Você pode me dizer o que viu na auditoria.”
Wren olhou para ele.
“E se eu disser não?”
“Então eu levo você até o seu carro e passo a noite garantindo que ninguém esteja esperando no seu apartamento.”
“Isso foi uma resposta gentil?”
“Foi uma resposta prática.”
Ela quase sorriu.
Quase.
Então o celular dela vibrou.
Brett.
Dessa vez, ela abriu.
A mensagem dizia: Wren, por favor, me liga. A Kayla está chorando. Isso não é o que parece.
Wren olhou para a frase por muito tempo.
Depois digitou apenas uma resposta.
Você tem razão.
Não é.
Ela enviou.
Três pontos apareceram.
Desapareceram.
Apareceram de novo.
Cassian olhou para a tela dela.
“Isso pode acelerar as coisas.”
“Eu sei.”
“Você está pronta?”
Wren guardou o celular, segurou o envelope contra o peito e entrou de volta no The Anchor.
O bar parecia diferente agora.
Não mais um lugar onde ela tinha ido para afogar uma humilhação.
Agora era uma sala de espera antes de uma guerra contábil.
A mesa do fundo estava vazia.
Os dois homens tinham desaparecido.
O barman não olhava para ninguém.
Cassian conduziu Wren até uma porta estreita perto do estoque.
Lá dentro havia uma mesa, duas cadeiras, uma lâmpada branca e um cofre pequeno encostado na parede.
Nada de luxo.
Nada de teatro.
Apenas trabalho.
Wren espalhou os papéis sobre a mesa.
Falou por quarenta e seis minutos.
Explicou as contas intermediárias.
Os fornecedores falsos.
Os carimbos repetidos.
As aprovações que passavam sempre por alguém com acesso ao sistema secundário.
Cassian fez apenas três perguntas.
Todas boas.
Isso a irritou.
Homens perigosos não deveriam entender auditoria melhor que diretores financeiros.
Quando ela terminou, ele ficou em silêncio.
Depois abriu o cofre.
Tirou uma pasta preta.
Na etiqueta, havia um nome.
BRETT MASON.
O ar saiu do peito de Wren.
Cassian colocou a pasta diante dela, mas manteve dois dedos sobre a capa.
“Depois que abrir, não existe voltar para a versão da sua vida em que ele era apenas um noivo infiel.”
Wren pensou na mesa do restaurante.
Pensou nos dedos de Kayla entrelaçados nos dele.
Pensou na própria chave entregue à irmã, nas senhas digitadas sem desconfiança, nos documentos que alguém tinha copiado enquanto ela acreditava estar sendo amada.
Uma vida inteira pode ruir em um segundo.
Mas às vezes, o segundo seguinte decide se você cai com ela ou aprende a ler os escombros.
Wren puxou a pasta.
Abriu.
Dentro havia fotos de vigilância.
Brett entrando no prédio da Meridian às 22h18 numa sexta-feira.
Kayla saindo pelo estacionamento às 22h41 com uma bolsa grande demais.
Uma cópia de autorização de acesso temporário.
E, no fundo, um contrato.
Não assinado por Brett.
Não assinado por Kayla.
Assinado por alguém que Wren nunca tinha visto.
Mas o sobrenome fez Cassian ficar absolutamente imóvel.
Vale.
Wren levantou os olhos.
“Você disse que eles não eram sua empresa.”
Cassian olhou para o contrato como se uma porta antiga tivesse acabado de se abrir dentro dele.
“Não são.”
“Então por que seu nome está aqui?”
Ele não respondeu de imediato.
Pela primeira vez desde que ela o conhecera, Cassian Vale pareceu não estar no controle do ambiente.
E foi nesse silêncio que Wren entendeu a parte mais perigosa daquela noite.
Ela não tinha entrado apenas no bar errado.
Tinha entrado na guerra errada.
Mas agora os números estavam na mesa.
E números não se intimidam.
Cassian fechou a pasta devagar.
Lá fora, alguém bateu na porta do estoque.
Três batidas.
Pausadas.
Combinadas.
O barman disse do outro lado, com a voz quebrada: “Eles voltaram.”
Wren segurou a primeira transferência com uma mão e a pasta de Brett com a outra.
Cassian apagou a lâmpada.
No escuro breve, ela ouviu o próprio coração, firme e absurdo, como um contador marcando uma auditoria que ninguém mais queria terminar.
Quando a luz de emergência acendeu, vermelha e fraca, Wren viu Cassian olhando para ela.
“Se sairmos por aquela porta”, ele disse, “você deixa de ser testemunha.”
“E viro o quê?”
Cassian olhou para os papéis na mão dela.
“A pessoa que pode derrubar todos eles.”
Wren pensou em Brett.
Pensou em Kayla.
Pensou na mensagem: decida se ela sai viva.
Então dobrou os documentos, guardou dentro do casaco e respondeu com a calma mais fria que já ouviu sair da própria boca.
“Então vamos equilibrar os livros.”